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Caiado evita detalhar propostas, mas é direto ao prometer anistia aos condenados por tentativa de golpe

Candidato do PSD apresentou respostas evasivas sobre economia e criação de polícia transnacional, comparou anistia à anulação das condenações de Lula e reagiu a questionamento dizendo que não estava diante de uma “banca examinadora”

Por Redação
26 de agosto de 2026 - 09:27
em Brasil
Caiado evita detalhar propostas, mas é direto ao prometer anistia aos condenados por tentativa de golpe

Foto: Globo/ Manoella Mello

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Ronaldo Caiado (PSD) foi o segundo candidato à Presidência da República entrevistado pela TV Globo e passou boa parte dos cerca de 40 minutos da sabatina desta terça-feira (25) defendendo sua trajetória política e criticando adversários, mas encontrou dificuldades quando Renata Vasconcellos e César Tralli cobraram detalhes sobre algumas de suas propostas.

Em temas como ajuste fiscal e segurança pública, o candidato apresentou ideias gerais, mas não conseguiu explicar com clareza como pretende executá-las ou financiá-las. A resposta mais objetiva da noite apareceu justamente em um dos assuntos mais controversos da campanha: a anistia aos condenados pela tentativa de golpe de Estado.

Caiado afirmou que, se eleito, concederá uma anistia “ampla, geral e irrestrita” aos envolvidos nos atos de 8 de Janeiro, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro. Argumentou que a medida seria necessária para “pacificar” o país e se apresentou como democrata.

Ao defender sua posição, entretanto, fez uma comparação juridicamente equivocada.

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Caiado equiparou a anistia que pretende conceder aos condenados pela trama golpista à situação de Luiz Inácio Lula da Silva, cujas condenações foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal.

São situações jurídicas diferentes. Lula não recebeu anistia. As condenações foram anuladas pelo STF em decisões judiciais relacionadas à competência da Justiça Federal de Curitiba para julgar os processos. Anistia, por sua vez, é um instrumento de natureza política e jurídica que extingue consequências penais de determinados fatos.

Caiado cita JK, mas história mostra nova tentativa de golpe

O candidato também recorreu à história para justificar sua proposta e citou Juscelino Kubitschek como exemplo de presidente que teria anistiado adversários para pacificar o país.

Nesse ponto, Caiado partiu de um fato verdadeiro, mas deixou de fora um capítulo importante da história.

Poucos dias depois de assumir a Presidência, JK enfrentou a Revolta de Jacareacanga, uma insurreição de militares da Aeronáutica que pretendia derrubá-lo. Depois de sufocar o movimento, Juscelino defendeu a anistia dos envolvidos, aprovada pelo Congresso em 1956.

A medida, porém, não encerrou as conspirações.

O major Haroldo Veloso, um dos líderes de Jacareacanga e beneficiado pela anistia, voltou a conspirar contra o governo e participou, em 1959, da Revolta de Aragarças, outra tentativa de derrubar JK. Documentos históricos do Senado registram que, ainda naquele período, parlamentares questionaram se a anistia anterior não havia contribuído para que os militares voltassem à atividade conspiratória.

Com dificuldade, JK conseguiu concluir seu mandato em 1961, mas o ambiente de instabilidade política e militar continuou. Três anos depois, o golpe de 1964 derrubou João Goulart e instalou a ditadura. O próprio Juscelino acabaria tendo seus direitos políticos cassados pelo regime.

Portanto, a referência histórica usada por Caiado é correta quanto à concessão da anistia, mas não permite concluir que o perdão tenha pacificado o país.

Polícia internacional sem financiamento explicado

Outro momento de dificuldade surgiu quando Caiado foi questionado sobre uma de suas propostas para a segurança pública: a criação de uma força policial conjunta envolvendo o Brasil e os dez países sul-americanos com os quais o território brasileiro possui fronteira.

O candidato vem chamando a ideia de uma polícia transnacional e já afirmou que pretende procurar pessoalmente os governos vizinhos para tentar construir a estrutura.

Caiado cita como inspiração a Europol, agência de cooperação policial da União Europeia. A comparação, entretanto, esbarra numa diferença fundamental: os países europeus estão inseridos em uma estrutura supranacional construída por tratados e instituições comuns, realidade diferente da América do Sul.

Durante a entrevista, os jornalistas tentaram saber como essa nova força funcionaria, quem teria autoridade sobre seus integrantes e, principalmente, de onde sairia o dinheiro para mantê-la.

Caiado defendeu a utilização de recursos confiscados do narcotráfico, mas não apresentou uma estimativa de custo nem explicou como seria garantido o financiamento permanente da estrutura. Em entrevista anterior à GloboNews, ao ser questionado sobre quem pagaria pela força, havia dito que os custos seriam divididos entre os países participantes.

Na entrevista desta terça, voltou a defender uma cooperação regional contra o crime organizado e descartou permitir que tropas dos Estados Unidos atuem dentro do território brasileiro.

“Não estamos numa banca examinadora”

A dificuldade para detalhar suas propostas apareceu novamente quando a entrevista entrou na área econômica.

Questionado sobre como faria os cortes necessários para colocar em prática seu plano de ajuste fiscal, Caiado apresentou linhas gerais, mas não soube apontar concretamente onde reduziria despesas.

Diante da insistência por detalhes, reagiu:

“Não estamos em uma banca examinadora.”

A resposta chamou atenção justamente porque a entrevista tinha como objetivo permitir que os candidatos apresentassem e explicassem ao eleitor suas propostas para governar o país.

Caiado defendeu limitar os gastos públicos a 50% do Produto Interno Bruto por meio de uma emenda constitucional, mas não detalhou quais despesas seriam cortadas para alcançar o objetivo. Também evitou apresentar uma proposta fechada para uma eventual nova reforma da Previdência.

Em vários momentos, o candidato preferiu recorrer à própria trajetória política e administrativa em vez de responder diretamente aos questionamentos sobre como suas propostas seriam implementadas.

A estratégia contrastou com a segurança demonstrada quando o assunto foi a anistia. Nesse ponto, Caiado não deixou margem para dúvida: se chegar ao Palácio do Planalto, pretende conceder perdão amplo aos condenados pela tentativa de golpe.

Para um candidato que aparece com cerca de 5% das intenções de voto no Datafolha, distante de Lula e Flávio Bolsonaro, a entrevista representava uma oportunidade de utilizar a exposição nacional para detalhar um projeto de governo e se apresentar como alternativa aos dois líderes.

Ao final dos 40 minutos, Caiado conseguiu reafirmar algumas de suas principais bandeiras, especialmente na segurança pública e na anistia, mas deixou sem resposta objetiva justamente uma questão fundamental para quem pretende governar o país: quanto custam e como serão executadas algumas das propostas que apresentou ao eleitor.

Tags: 8 de janeiroanistiaCésar Trallieleições 2026eleições presidenciaisJair BolsonaroJornal NacionalJuscelino KubitschekLulapolícia transnacionalPSDRenata VasconcellosRonaldo Caiadosegurança pública
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