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Home Notícias Brasil

Bastidores desmontam imagem de espontaneidade em vídeo de Nikolas sobre o Nordeste

Reportagens revelaram direção de cena, escolha de enquadramentos e questionamentos sobre personagens apresentados na gravação; nas redes, nordestinos reagiram mostrando outra realidade e lembrando avanços com água, energia e políticas sociais

Por Redação
23 de outubro de 2026 - 11:57
em Brasil
Áudios revelam Nikolas pedindo ajuda a Vorcaro e se desculpando por críticas ao Banco Master

Reprodução / Redes Sociais

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Apresentado como um retrato espontâneo do Nordeste, o vídeo “O Nordeste que foi esquecido”, publicado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) na reta final da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), passou a ser questionado depois que reportagens de diferentes veículos revelaram como algumas das cenas foram construídas.

O material foi anunciado por Nikolas como produzido “sem roteiro, sem filtro”. Nos dias seguintes, porém, Metrópoles, Bahia Notícias, BNews e outros veículos divulgaram imagens dos bastidores mostrando equipe profissional, teleprompter, direção dos entrevistados e decisões deliberadas sobre o que deveria aparecer — ou desaparecer — do enquadramento.

Em uma das gravações, o coordenador de comunicação de Nikolas, João Markus, propõe mudar o ângulo da câmera para evitar que uma antena parabólica mais moderna apareça na imagem.

“Essa antena é mais tecnológica”, diz.

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Depois que o cenário é reposicionado, Nikolas observa o resultado e comenta: “Putz, melhorou mil por cento.”

Outro trecho registra uma voz da equipe comentando sobre uma das entrevistadas: “Ela faz uma cara de coitada, que chega a dar dó.”

As imagens não provam, por si só, que os depoimentos tenham sido inventados. Mostram, porém, que a aparência de espontaneidade apresentada ao público foi acompanhada por uma produção que escolheu ângulos, elementos do cenário e composição visual capazes de reforçar uma determinada percepção de pobreza.

Foi justamente essa construção que passou a ser questionada nas redes e em reportagens sobre o caso.

A cidade escondida no vídeo

Outro elemento que ganhou destaque foi o local da gravação.

Nikolas não informa no vídeo que todos os depoimentos foram registrados em Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia. A assessoria do próprio deputado confirmou posteriormente a localização.

O detalhe chamou atenção porque, apenas dias antes, Nikolas havia gravado outro conteúdo na mesma cidade apresentando-a como exemplo de prosperidade, geração de empregos, desenvolvimento e força do agronegócio.

No vídeo seguinte, o nome de Luís Eduardo Magalhães desapareceu.

Em seu lugar, os depoimentos gravados em uma única localidade foram acompanhados de estatísticas referentes aos nove estados do Nordeste, criando uma associação visual entre aquelas cenas específicas e a realidade de uma região com cerca de 55 milhões de habitantes.

Veículos como a GloboNews também questionaram essa generalização. Comentaristas destacaram que a produção transformava situações localizadas em uma representação do Nordeste como um todo, desconsiderando as profundas diferenças econômicas e sociais existentes dentro da própria região.

Homem retratado no vídeo teria Hilux e seria gerente de fazenda

A repercussão aumentou quando moradores de Luís Eduardo Magalhães começaram a identificar pessoas apresentadas na gravação.

Um dos entrevistados, conhecido como Binha, foi apontado como gerente de fazenda e proprietário de uma Toyota Hilux.

O deputado federal Pedro Campos (PSB-PE) repercutiu o caso e publicou imagens do que afirmou ser a verdadeira residência do homem, com estrutura e mobiliário diferentes do cenário utilizado na produção de Nikolas.

Segundo Campos, a própria esposa de Binha confirmou nas redes sociais que a caminhonete pertence à família e havia sido adquirida com dinheiro do trabalho.

A informação não significa que o entrevistado não possa ter críticas ao governo ou enfrentar dificuldades. A controvérsia surgiu pela forma como ele foi inserido em uma peça cuja linguagem visual buscava transmitir precariedade extrema.

Também circularam acusações semelhantes sobre outros personagens, mas essas informações não possuem, até agora, o mesmo nível de confirmação. Não é possível afirmar que todos os participantes tenham situação econômica diferente daquela sugerida pela gravação.

Prefeito do PP também entrou na discussão

O próprio prefeito de Luís Eduardo Magalhães, Júnior Marabá, do PP, publicou um vídeo após a repercussão.

“Nikolas, você errou”, afirmou o prefeito ao comentar que o deputado havia gravado na mesma cidade um vídeo mostrando prosperidade e outro retratando pobreza. Júnior Marabá foi reeleito pelo Progressistas em 2024, com 83,52% dos votos válidos.

A crítica do prefeito, entretanto, não significou uma defesa do governo Lula.

Marabá atribuiu a diferença entre as famílias principalmente à situação fundiária. Segundo ele, parte das famílias vive em assentamentos e enfrentaria dificuldades para obter títulos de propriedade e acesso a crédito, enquanto produtores formalizados conseguiram investir e prosperar.

Ao mesmo tempo, sua manifestação reconheceu aquilo que a produção de Nikolas não explicava: as duas realidades existem dentro da mesma cidade.

Luís Eduardo Magalhães é um dos maiores polos do agronegócio baiano, tem quase 120 mil habitantes e apresentou forte expansão econômica nas últimas décadas.

Nordestinos começam a responder nas redes

A enorme repercussão do vídeo também produziu uma reação em sentido contrário.

Usuários que se identificam como nordestinos passaram a publicar e compartilhar relatos contestando a imagem de uma região parada no tempo. A disputa ganhou hashtags e vídeos em que moradores mostravam casas, cidades, plantações, universidades, estradas e serviços públicos, enquanto outros recordavam mudanças nas condições de vida de suas famílias ao longo das últimas décadas.

Apoiadores de Lula fizeram circular a hashtag #NordestinosComLula, enquanto a própria campanha presidencial publicou um vídeo reproduzindo a estrutura utilizada por Nikolas, mas ouvindo moradores que relatavam uma experiência diferente.

Os entrevistados desse segundo vídeo lembraram períodos em que comunidades viviam sem energia elétrica, água encanada ou estruturas para enfrentar a seca.

“Depois que Lula foi presidente, começou a iluminar o nosso lugar, nossa vida”, afirmou uma das participantes.

Outro morador relatou: “Veio água encanada, veio luz para nós, Luz para Todos, cisterna para todo mundo.”

“Nordeste hoje é outro Nordeste”, resumiu outro entrevistado.

Por se tratar de uma peça produzida pela campanha de Lula, esses relatos também representam uma narrativa eleitoral e não uma amostra estatística da população nordestina.

Os programas citados pelos moradores, entretanto, existem e produziram resultados mensuráveis.

O Luz para Todos, criado em 2003 e retomado pelo governo federal em 2023, já havia levado energia a cerca de 3,84 milhões de domicílios brasileiros até o fim de 2025; 47,5% deles estavam no Nordeste, segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética.

Somente entre 2023 e setembro de 2025, Bahia, Piauí e Maranhão estavam entre os estados que mais receberam novas ligações do programa.

O Programa Cisternas, também retomado como prioridade federal em 2023, entregou mais de 104 mil estruturas até o final de 2025, sendo 88% delas no Nordeste, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social.

Nordeste ainda tem problemas, mas mudou

As críticas feitas por moradores no vídeo de Nikolas não deixam de corresponder a problemas reais.

O Nordeste continua apresentando indicadores de pobreza e saneamento piores que a média brasileira, e milhões de pessoas ainda vivem sem acesso adequado a serviços básicos.

O que passou a ser questionado é a tentativa de transformar esses problemas na imagem completa da região.

Levantamento publicado pelo UOL após a repercussão do vídeo mostrou que, entre 2000 e 2025, o Nordeste passou por transformações importantes.

O IDH regional saiu de 0,516 para 0,756, a mortalidade infantil caiu de 43 para 13,1 mortes por mil nascidos vivos e houve expansão do acesso à energia, água, educação superior e empregos formais. A economia regional cresceu, em média, 2,4% ao ano entre 2002 e 2023.

Essas mudanças não podem ser atribuídas exclusivamente a um presidente ou partido. Envolvem governos federais, estados, municípios, setor privado e transformações econômicas ocorridas ao longo de mais de duas décadas.

Políticas federais de transferência de renda, valorização do salário mínimo, eletrificação rural, habitação, universidades, institutos federais e infraestrutura, no entanto, fizeram parte desse processo.

É esse Nordeste — ainda marcado por desigualdades, mas muito diferente daquele retratado apenas pela pobreza — que passou a aparecer nos vídeos publicados em resposta a Nikolas.

Vídeo passa de 160 milhões de visualizações

Mesmo cercada de controvérsias, a publicação de Nikolas ultrapassou 160 milhões de visualizações no Instagram.

O alcance chamou atenção porque superou amplamente o desempenho habitual de outras contas políticas e até de perfis de celebridades com número superior de seguidores.

Nesta sexta-feira (23), o Tribunal Superior Eleitoral deu prazo para a Meta explicar como ocorreu a distribuição do conteúdo, incluindo a participação de seguidores, não seguidores e mecanismos de recomendação da plataforma. A empresa nega qualquer favorecimento político e afirma que o alcance depende do engajamento e dos compartilhamentos realizados pelos usuários.

A discussão sobre o vídeo, assim, ultrapassou o conteúdo original.

O que começou como uma peça eleitoral destinada a apresentar “o Nordeste esquecido” terminou provocando uma disputa sobre qual Nordeste estava sendo mostrado, o que havia ficado fora do enquadramento e até que ponto cinco depoimentos gravados em uma única cidade poderiam representar toda uma região.

Tags: Bahiacampanha eleitoraleleições 2026Flávio BolsonaroJúnior MarabáLuís Eduardo MagalhãesLulaLuz para TodosNikolas FerreiraNordestePedro CamposPrograma Cisternasredes sociais
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