Depois de uma sequência de desentendimentos públicos que colocou em dúvida a unidade do bolsonarismo para as eleições deste ano, Michelle Bolsonaro decidiu entrar na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL). A ex-primeira-dama deverá participar de gravações para o programa eleitoral do candidato e reforçar a mobilização de segmentos do eleitorado conservador, principalmente entre mulheres e evangélicos.
A participação representa uma mudança importante na relação entre os dois. Há poucas semanas, Michelle e Flávio protagonizavam uma crise que extrapolou os limites familiares e passou a representar um problema político para o PL.
Um dos momentos mais delicados ocorreu em junho, quando Michelle afirmou publicamente ter sido “desrespeitada”, “maltratada” e “humilhada” por Flávio durante uma conversa por telefone. Ela chegou a falar em “apunhalada” ao relatar o episódio.
A divergência teve como pano de fundo as articulações eleitorais do PL no Ceará. Michelle se posicionou contra uma aproximação com Ciro Gomes, contrariando a estratégia defendida por integrantes do partido e aliados de Flávio.
O embate rapidamente ganhou dimensão nacional. Eduardo Bolsonaro saiu em defesa do irmão, enquanto aliados tentavam conter uma crise que começava a produzir reflexos na candidatura presidencial.
Michelle acabou deixando o comando nacional do PL Mulher, função que lhe permitiu percorrer o país nos últimos anos e construir uma base política própria dentro do campo conservador.
Reconciliação depois da crise
A possibilidade de Michelle permanecer afastada da campanha preocupava o PL. Além de carregar o sobrenome Bolsonaro, a ex-primeira-dama conquistou influência própria principalmente entre o eleitorado feminino e evangélico, dois segmentos considerados importantes para a estratégia eleitoral de Flávio.
A tentativa de reconciliação ganhou força em julho. Flávio reconheceu publicamente os desentendimentos, pediu desculpas à madrasta e fez um apelo para que ela participasse de sua campanha.
Michelle respondeu também publicamente: “Aceito teu pedido. Eu te desculpo”.
Pouco depois, gravou uma mensagem de apoio exibida durante a convenção nacional do PL que oficializou a candidatura de Flávio à Presidência. Agora, a participação deverá avançar para as gravações da propaganda eleitoral.
A presença da ex-primeira-dama ganha importância adicional depois de Flávio não concretizar a expectativa de formar uma chapa presidencial com uma mulher.
Durante as articulações, nomes femininos chegaram a ser considerados para a vice-presidência. Após dificuldades nas negociações com outras legendas, porém, o PL optou pelo deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), formando uma chapa exclusivamente masculina e do próprio partido.
Michelle pode ajudar a campanha justamente na aproximação com uma parcela do eleitorado feminino em que o bolsonarismo historicamente encontra maiores dificuldades.
Unidade ainda será testada
Politicamente, a entrada de Michelle permite à campanha transmitir uma imagem de pacificação depois de meses em que as divergências familiares foram expostas publicamente.
Isso não significa, entretanto, que as disputas internas estejam definitivamente superadas.
A candidatura de Flávio ocorre em um cenário diferente daquele enfrentado pelo bolsonarismo nas eleições anteriores. Sem Jair Bolsonaro diretamente na disputa, diferentes personagens do grupo passaram a ocupar espaços próprios e a exercer influência sobre parcelas distintas do eleitorado conservador.
Michelle é uma dessas lideranças e talvez a mais importante fora do núcleo dos filhos do ex-presidente.
Sua participação na campanha, portanto, tem um significado que vai além das gravações para a propaganda eleitoral. Depois das acusações, pedidos de desculpas e sinais públicos de afastamento, colocar Michelle e Flávio novamente do mesmo lado tornou-se também uma necessidade política.
A campanha agora tentará transformar a reconciliação familiar em demonstração de unidade eleitoral. Se as divergências ficaram definitivamente para trás ou foram apenas colocadas de lado para enfrentar a eleição, será uma resposta que os próximos meses deverão dar.


