Aos 91 anos, Luiza Erundina (PSOL) acrescentou neste domingo (4) mais um capítulo a uma trajetória política iniciada há mais de quatro décadas. Depois de sete mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados, a ex-prefeita de São Paulo foi eleita deputada estadual e voltará à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), onde exerceu mandato pela última vez em 1988.
Erundina recebeu 169.567 votos, a 13ª maior votação entre os 94 deputados estaduais eleitos em São Paulo. Quando assumir, em 2027, será a parlamentar mais velha da nova composição da Alesp.
O retorno acontece 38 anos depois de deixar a Assembleia para disputar uma eleição que mudaria sua trajetória. Em 1988, Erundina surpreendeu ao vencer a corrida pela Prefeitura de São Paulo e tornou-se a primeira mulher a governar a maior cidade do país.
Agora, retorna ao Legislativo paulista em uma situação incomum: não depois de um período afastada da política, mas após quase três décadas consecutivas na Câmara dos Deputados.
Da Paraíba à Prefeitura de São Paulo
Luiza Erundina de Sousa nasceu em 30 de novembro de 1934, em Uiraúna, no Sertão da Paraíba. Assistente social e mestre em Ciências Sociais, mudou-se para São Paulo no início da década de 1970 e construiu sua atuação profissional e política ligada principalmente às áreas sociais.
Foi uma das fundadoras do PT, em 1980, e chegou ao primeiro cargo eletivo em 1982, quando foi eleita vereadora de São Paulo.
Quatro anos depois, conquistou uma cadeira de deputada estadual. Permaneceu na Alesp entre 1987 e 1988, quando deixou o mandato para disputar a Prefeitura de São Paulo.
A eleição municipal daquele ano projetou Erundina nacionalmente. Contra prognósticos que inicialmente davam poucas chances à candidatura petista, ela venceu a disputa e governou a capital paulista entre 1989 e 1992.
Foi a primeira mulher eleita prefeita de São Paulo.
Depois da passagem pela prefeitura, ocupou a Secretaria de Administração Federal no governo Itamar Franco. A decisão provocou divergências com o PT e contribuiu para seu afastamento do partido.
Erundina deixou definitivamente a legenda em 1997. Posteriormente ingressou no PSB, partido pelo qual construiu a maior parte de sua trajetória na Câmara dos Deputados, antes de se filiar ao PSOL em 2016.
Sete mandatos na Câmara
Erundina chegou à Câmara dos Deputados em 1999. Desde então, foi sucessivamente reeleita e completará em janeiro de 2027 seu sétimo mandato consecutivo como deputada federal.
Foram 28 anos ininterruptos representando São Paulo no Congresso.
Durante esse período, sua atuação esteve concentrada principalmente em temas relacionados aos direitos humanos, participação popular, direitos das mulheres, proteção de crianças e adolescentes, comunicação, políticas sociais e reforma política.
Entre as propostas de sua autoria transformadas em lei estão normas relacionadas à proteção de mulheres vítimas de violência doméstica, assistência às gestantes pelo SUS, instalação de brinquedotecas em unidades de saúde e combate à exploração sexual de crianças e adolescentes.
Erundina também presidiu a Comissão de Legislação Participativa da Câmara, integrou o Conselho de Ética e participou de frentes e grupos parlamentares ligados à liberdade de expressão, direitos humanos e reforma política.
Uma trajetória identificada com a esquerda
Aos 91 anos, Erundina permanece identificada com a esquerda brasileira e com uma linha política que privilegia políticas sociais e participação popular.
Sua trajetória atravessou diferentes momentos da esquerda partidária. Foi fundadora do PT, passou pelo PSB e está no PSOL desde 2016. Apesar de ter deixado o PT após divergências internas, manteve proximidade com diferentes lideranças do campo progressista e apoiou Lula na disputa presidencial deste ano.
Na campanha de 2026, decidiu não tentar um oitavo mandato consecutivo de deputada federal.
A escolha foi retornar à política estadual.
“Eu quero ficar mais perto do povo, mais perto da base”, disse durante a campanha, ao explicar a decisão de disputar uma cadeira na Assembleia.
Um retorno 38 anos depois
A eleição fecha uma espécie de círculo na trajetória de Erundina.
Quando deixou a Alesp, em 1988, tinha 53 anos e apenas seis anos de experiência em cargos eletivos. Retornará em 2027, aos 92, depois de ter sido prefeita da maior cidade brasileira, integrante do governo federal e deputada federal por sete mandatos.
Serão quase quatro décadas entre sua última passagem pela Assembleia e o início do novo mandato.
A eleição também coloca lado a lado duas gerações muito diferentes da política paulista. Erundina será a parlamentar mais velha da próxima legislatura, enquanto Eduarda Campopiano (PL), de 23 anos, será a mais jovem. Entre as duas haverá uma diferença de 68 anos.
Mais do que estabelecer um recorde de longevidade, o resultado mantém no Legislativo paulista uma das carreiras políticas mais longas ainda em atividade no país.


