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Home Colunas

Alucard tritura o poeta Antônio Crispim

Por Lenin Novaes
21 de outubro de 2018 - 08:24
em Colunas
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Com competência, Alucard exalta seu filho ilustre, o poeta Antônio Crispim? Não. A memória dele é triturada, a julgar pela baixa qualidade da semana crispiniana, desde 1998, em outubro, encerrando-se na data de seu nascimento, dia 31. É a opinião dos críticos à FCCDA, que trata de maneira irresponsável a política cultural de Alucard. Por sua vez, a promotora do evento diz que “a semana é dedicada ao estudo da obra do escritor e tem por objetivo difundir e fomentar a busca por novas práticas literárias”.

– É aí, Marineth, nesse viés, que entram minhas crônicas, com olhar crítico, provocando profunda e permanente discussão para ajudar Alucard a sair das profundezas do lamaçal no buracão do detonado Pico do Cauã. Diz-se que a cratera será cova coletiva na morte de Alucard, anunciada para breve.

– Athaliba, tenho curiosidade em saber quantas toneladas de minério de ferro a mineradora Yale tirou da exploração do Pico Cauã, que se elevava a cerca de 1500 metros acima do nível do mar e, nos dias de hoje, tem uma imensa cratera de aproximadamente de 600 metros. O minério de ferro exportado produziram quantos tanques de guerra, quantas armas de alto impacto, navios e submarinos de guerra, carros blindados (incluindo os caveirões usados contra favelados) e outras máquinas mortíferas?

– Uai, Marineth, como saber? Antônio Crispim, no poema O maior trem do mundo, faz crítica social e econômica à mineração e exportação de minério: “O maior trem do mundo/Puxado por cinco locomotivas a óleo diesel/Engatadas, geminadas, desembestadas/Leva meu tempo, minha infância, minha vida/Triturada em 163 vagões de minério e destruição”.

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– É, Athaliba, imagino a dor do poeta em arrebatar os versos das vísceras estraçalhadas como a sua terra arrancada e transportada sabe-se lá prá onde, sem lugar algum no mundo prá se fixar.

– O trem é doido, Marineth. O poeta é alvo constante de atos oportunistas e inconvenientes por parte de alguns de seus conterrâneos em cargos públicos. É fomentada proposta para tornar a imagem do poeta fonte de arrecadação econômica em substituição ao imposto proveniente da Yale, pois a exploração do minério de ferro chegará à exaustão dentro de alguns anos. Imaginam que a obra do poeta por si só pode salvar Alucard da bancarrota, explorada em gigantesco polo cultural. Quem sobreviver verá!!!

– Uai, Athaliba, será que esses políticos desqualificados não têm noção do ridículo? Todas as referências ao poeta na cidade estão em pandarecos, como os caminhos crispinianos, a casa da fazenda (demolida pela Yale para construir barragem para lavagem do minério), o memorial a ele dedicado no Pico do Amor, os bustos vandalizados, etc. e tal. Os imóveis históricos também são abandonados ao deus-dará; e a estátua de Zumbi dos Palmares está maneta, com uma das mãos arrancadas há anos. Como podem apostar em superfaturamento na área da cultura, quando implementam a cultura da destruição?

– O trem é doido e está descarrilando, Marineth. A falta do ridículo é colossal. Chegaram a utilizar deputado federal como ‘cavalo’ para propor Alucard, Capital Nacional da Poesia. O poeta Antônio Crispim se sentiria envergonhado. É por tantas barbaridades, como essa de forma oportunista, que ele, vai saber, saiu e não voltou mais à sua cidade de nascimento. Com relação à descabida proposta mostro abaixo o poema Alucard, capital da poesia?, em defesa da honra e memória do nosso saudoso e querido poeta Antonio Crispim, autor de No meio do caminho, poema publicado em 1928, portanto, há 90 anos, na Revista de Antropologia. Que ele, do túmulo, possa perdoar seus conterrâneos detratores.

 

À Alucard, em Minas Gerais, cidade berço do teu nascimento,

Ousam forjar ostentação descabida sem seu consentimento,

Intitulando-a, o saudoso poeta, a Capital Nacional da Poesia,

Sem compreenderem que no contexto do país isso é heresia.

 

Como pode essa gente que trama do poeta agir à sua revelia,

Por supérflua fama se perverter nessa tão grande hipocrisia?

Que conflito, leviano e descabido, impetra a teu pensamento,

Em prejuízo de outras tantas cidades de igual merecimento?

 

Quando a historiadora Ana indagou o que é capital da poesia,

Confesso, o fato girou, circulou, rodopiou, girou numa espiral,

E, atônitos, nos entreolhamos sem entender a forma capital.

 

Portanto, poeta, sob sua chancela repudio tamanha covardia

À indelével personalidade e caráter que cultivou no dia-a-dia,

Sendo personagem no mundo admirado de maneira original.

 

 

*Lenin Novaes, jornalista e produtor cultural. Co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som – MIS

Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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