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Home Colunas

Alucard: Restaurante Popular, já!

Por Lenin Novaes
27 de novembro de 2018 - 08:58
em Colunas
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Ilustração: Netto

– Marineth, a probabilidade de Alucard desaparecer como Pompeia, claro, resguardadas as devidas proporções, num contexto de desigual precedente, mobiliza o povo, assustadíssimo. Pompeia, cidade do Império Romano, foi engolida pelas lavas da erupção do vulcão Vesúvio. E, Alucard, deflorada até a raiz pela extração de minério de ferro, sumirá se não encontrarem nova fonte de arrecadação financeira. Parte da riqueza gerada pela exploração do minério de ferro enriqueceu poucas famílias, enquanto larga maioria da população vive em situação de miserabilidade. Um dos itens da luta iniciada é a cobrança de conclusão do restaurante popular, além da criação do núcleo Mulheres Destemidas de Alucard, buscando inserção na estrutura administrativa. Elas são maioria, mas, infelizmente, descartadas. Prometem mudar a situação.

– Uai, Athaliba, a vida ensina. E, às vezes, a gente aprende na porrada, né mesmo?

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– Pois é, Marineth. Representantes de entidades organizadas da sociedade civil que antes beijavam pés e as mãos de políticos oportunistas em troca de pequenos favores, até pessoais, rompem as correntes da servidão. Organizam abaixo-assinado favorável ao restaurante popular, que está ameaçado de desvio do projeto original por lobby de empresários do setor de alimentação. Felizmente, as pessoas enxergam o óbvio. Nesse sistema capitalista selvagem (nunca deixou de ser), no contexto da flagelante política brasileira (atualmente, e, desde sempre), sobreviver continua sendo uma grande aventura.

– Mas, Athaliba, que golpe é esse contra o restaurante popular, com gente morrendo de fome?

– Uai, Marineth, uma parcela da população de Alucard tá com a boca escancarada gritando por comida. Situação igual de operários das metrópoles que dormem debaixo de marquises de prédios para economizar dinheiro de passagens de transportes, pois trabalham em regiões distantes de suas casas. Em 2016 foi assinada ordem de serviço para construção do restaurante popular, por meio da concorrência nº 008/2015, no valor de R$ 1.569.515,45, em acolhimento a convênio da Prefeitura de Alucard e Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Mas, o prédio, lá na Avenida das Rosas, tá inacabado. A planilha estima 1000 refeições/dia, devendo ser estendidas até 2000, incluindo café da manhã, almoço, café da tarde e jantar. A previsão de conclusão da obra foi de 10 meses e, ainda, continua um esqueleto. O descaso lembra Antônio Crispim, no poema “Resíduos”: “E de tudo fica um pouco/Oh! Abre os vidros de loção e abafa o insuportável mau cheiro da memória”.

– Sabe, Athaliba, minha paixão e respeito pelo poeta Antônio Crispim só aumenta.

– É nosso estimável patrimônio da literatura. E, creio, sua lembrança de Alucard, a cidade natal, o atormentava pelos desmandos e incompetência dos conterrâneos na política. Tanto que num dos poemas afirma que “Itabira é apenas uma fotografia na parede; mas como dói”.

– Mas, Athaliba, o restaurante popular será concluído ou não?

– Uai, Marineth, os 56 integrantes do Conselho Municipal de Segurança Alimentar, criado em 2015, estão sendo colocados contra a parede, por falta de competência em atuar. É tanta gente prá nada. Aliás, os conselhos de Alucard são fracos, como o Conselho Municipal de Políticas Culturais. Os organizadores do abaixo-assinado afirmam que irão protocolar e denunciar o caso na ONU – Organização das Nações Unidas, pois não creem na intervenção do Ministério do Desenvolvimento Social, atrelado a latifundiários, grileiros, etc. E farão denúncia na mídia – jornais, sites, revistas, TVs, etc. – não vinculada aos oligopólios.

A mobilização pela conclusão da obra e funcionamento do restaurante popular é impulsionada pelo sketch realizado por grupo de artistas amadores da favela Gabiroba, na praça redonda. Para a transexual Mary Help, produtora da peça Tem gente com fome, utilizando o título do poema de Solano Trindade, “os moradores da Gabiroba, excluídos e marginalizados pelas autoridades, estão dando uma lição de luta para essa gente soberba; nariz empinado, que não tem sequer o rei na barriga”. Gabiroba tem mais de 10 mil moradores, cerca de 10% da população de Alucard. E faço votos para que todos vão à praça protestar.

Bem, Marineth, para entrar no contexto do protesto, o desafio é você declamar o poema no ritmo do trem em movimento. O trem que carrega a riqueza de Alucard e deixa sua gente ao deus-dará. Vamos lá. Tente se é capaz!

 

Trem sujo da Leopoldina,

Correndo, correndo parece dizer:

Tem gente com fome

Tem gente com fome

Tem gente com fome

 

Piiiiii

 

Estação de Caxias,

De novo a dizer, de novo a correr:

Tem gente com fome

Tem gente com fome

Tem gente com fome

 

Vigário Geral, Lucas, Cordovil, Brás de Pina, Penha Circular,

Estação da Penha, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Carlos Chagas,

Triagem, Mauá

 

Trem sujo da Leopoldina,

Correndo, correndo parece dizer:

Tem gente com fome

Tem gente com fome

Tem gente com fome

 

Tantas caras tristes, querendo chegar,

Em algum destino, em algum lugar.

 

Trem sujo da Leopoldina,

Correndo, correndo parece dizer:

Tem gente com fome

Tem gente com fome

Tem gente com fome

 

Só nas estações, quando vai parando,

Lentamente, começa a dizer:

Se tem gente com fome, dá de comer

Se tem gente com fome, dá de comer

Se tem gente com fome, dá de comer

 

Mas o freio de ar,

Todo autoritário,

Manda o trem calar.

Psiuuuuuuuuuuu

 

*Lenin Novaes, jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o concurso nacional Poesias de jornalistas, homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som – MIS.

Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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