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Home Colunas

Aguerridas de Alucard montam aparelho

Por Lenin Novaes
5 de dezembro de 2018 - 14:15
em Colunas
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– Athaliba, as gêmeas Francinete e Ivonete, que são lésbicas, uma passiva e a outra ativa, estão articulando, junto com a transexual Mary Help, reunião a ser realizada 10 de dezembro, no Dia Universal dos Direitos Humanos. Elas também envolveram Angelina, Miraflores e Anabela. A finalidade é estruturar o núcleo Mulheres Aguerridas de Alucard para dar início às atividades de programa contra a opressão, o arrocho salarial e o feminicídio, etc., no começo de 2019.

– Já estava passando da hora, heim Marineth. Quem sabe faz a hora e não espera acontecer.

– O movimento é para ativar as mulheres, consideradas apenas objeto de utilidade do lar, alijadas do contexto da vida institucional de Alucard, onde é maioria. Elas são descartáveis, usadas nos setores inferiores da estrutura da sociedade. A data da reunião suscitou divergências, por ser o dia da diplomação do presidente eleito, sendo questionada pela Miraflores. Mas foi defendida por Anabela, argumentando que o ato significava o primeiro desafio a ser superado, num enfretamento ao representante da política do ódio e da homofobia que cresce de forma assustadora no Brasil.

– Então a data foi mantida?

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– Sim, Athaliba, mas após muita discussão. Houve defesa pró e contra à proposta da data, definida em votação. Anabela discursou a favor e, Miraflores, fez a defesa contrária. O placar da votação ficou em quatro a dois, com as gêmeas rachadas. Francinete fechou com Miraflores. Já Ivonete apoiou Anabela, que contou com os votos de Angelina e Mary Help. A transexual propôs como tema do movimento o lema Libertas quae sera  tamen (Liberdade ainda que tardia), tendo como símbolo a bandeira formada por três triângulos, em branco, azul e vermelho, esboçada pelo poeta e advogado Cláudio Manuel da Costa.à luta da Inconfidência Mineira.

– Proposta simpática, Marineth, beirando a homenagem. Cláudio Costa se dedicou com tenacidade ao movimento ocorrido em 1789 que pretendia, numa revolta, estabelecer um governo independente de Portugal. Ele sugeriu os lemas em latim Libertas a quo spiritu (Liberdade do espírito) e Aut libertas aul nihil (Ou liberdade ou nada). No entanto, o tema proposto por Inácio José de Alvarenga Peixoto, Libertas quae sera tamen, foi o escolhido, criado por ele a partir da adaptação de um verso das “Bucólicas” do poeta latino Virgílio, que dizia Libertas, quae sera tamen, respexit inertem (A liberdade, que embora tardia, olhou-me inerte). Mas, como se sabe, o grupo foi traído por Joaquim Silvério dos Reis, e Cláudio da Costa acabou detido, 25 de maio de 1789, sendo encontrado morto na cela da prisão em 4 de julho daquele ano. E, após 229 anos, há controvérsia se ele suicidou-se ou foi assassinado.

– É, Athaliba. Entretanto, Anabela deu um corte no assunto, dizendo a Mary Help que devia apresentar a proposta em outra oportunidade. Ela sugeriu algumas questões como fundamentais para contar com o maior número possível de mulheres na reunião do dia 10. E distribuiu tarefa a cada uma para convidar mulheres de diversos setores, inclusive, aquelas que foram candidatas nas últimas eleições. Francinete e Ivonete foram designadas para a área rural; Miraflores para os bairros Água Fresca, Abóboras, Amazonas e Barro Branco; Mary Help para a favela Gabiroba; Angelina ficou com a Chapada; e Anabela com bairro Pedreira, com ocupação desordenada, fato corriqueiro e ignorado pelas autoridades municipais.

– Infelizmente, Marineth, vista assim do alto, Alucard mais parece um favelão, com seus 84 bairros desalinhados, infestados de problemas, sem as condições básicas de qualidade de vida. É o retrato da incompetência política. Alucard cresceu sem planejamento, servindo de dormitório para os operários da mineradora Yale. É terra arrasada, sem arborização urbana, Elas vão ralar para mobilizar a mulherada.

– Não será nada fácil, Athaliba. E Anabela deixou isso muito claro. Surpreendeu a todas por uma postura política arrojada, assumindo o comando do grupo. A transexual Mary Help, liderança do movimento LGBTi, me contou que Anabela é politizada e que se iniciou na leitura dos livros “Os ásperos tempos”, “Agonia da noite” e “A luz no túnel”, trilogia do romance do escritor Jorge Amado que compõe  Os subterrâneos da Liberdade.

– Muito bem, Marineth. A obra, apontada por alguns como panfletária, na ocasião, é um romance envolvente. Deve ser leitura obrigatória, fundamentalmente nos tempos de hoje, contribuindo para tirar véus dos olhos de jovens que não acreditam em ação política como forma de transformação da sociedade. Jorge Amado escreveu em 1952, quando era militante do PCB – Partido Comunista Brasileiro, no exílio voluntário na então Tchecoslováquia. Numa entrevista, o escritor afirmou que “Subterrâneos é um livro importante, em primeiro lugar, os fatos sobre os quais o romance se funda, a luta do Estado Novo contra o povo e dos comunistas contra o Estado Novo, tudo aquilo aconteceu, são fatos históricos. Foram aumentados, é verdade, principalmente no que se refere à luta popular; talvez ela não tivesse tido esta mesma dimensão na realidade. Mas a luta se deu, não deixou de existir por um instante sequer. E foi heroica. E o Estado Novo foi mais do que brutal: as torturas, os assassinatos, todas essas coisas aconteceram e pesam sobre a polícia brasileira”.

Bem, vamos oferecer a música “Pagu”, de Rita Lee, às ativistas, estimulando-as na organização do núcleo Mulheres Aguerridas de Alucard. Você, Marineth, conhece a canção? Confira clicando no link https://www.youtube.com/watch?v=LN8nINo7krUe acompanhe com a letra:

 

Mexo, remexo na Inquisição

Só quem já morreu na fogueira

Sabe o que é ser carvão

Hum! Hum!

Eu sou pau pra toda obra

Deus dá asas à minha cobra

Hum! Hum! Hum! Hum!

Minha força não é bruta

Não sou freira, nem sou puta

Porque nem toda feiticeira é corcunda

Nem toda brasileira é bunda

Meu peito não é de silicone

Sou mais macho que muito homem

Nem toda feiticeira é corcunda

Nem toda brasileira é bunda

Meu peito não é de silicone

Sou mais macho que muito homem

Sou rainha do meu tanque

Sou Pagu indignada no palanque

Hanhan! Ah! Hanran!

Fama de porra louca, tudo bem!

Minha mãe é Maria ninguém

Hanhan! Ah! Hanran!

Não sou atriz, modelo, dançarina

Meu buraco é mais em cima

Porque nem toda feiticeira é corcunda

Nem toda…

 

Lenin Novaes, jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o concurso nacional Poesias de jornalistas, homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som – MIS.

Lenin Novaes

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Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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