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Home Colunas

Zeca em sinuca de bico

Por Lenin Novaes
20 de outubro de 2022 - 16:12
em Colunas

Zeca Pagodinho na arte da logomarca da Grande Rio para o Carnaval de 2023. (Divulgação ) 

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– Athaliba, o famoso astro do samba Zeca Pagodinho tá metido numa tremenda enrascada. Ou seja, numa sinuca de bico, sem escapatória. Prá qual escola de samba ocê acha que ele irá torcer para ser campeã do Carnaval de 2023, no Rio de Janeiro? Será para a Portela, agremiação que desfilará celebrando o centenário de existência, à qual ele tem profundo pertencimento? Será para a Acadêmicos da Grande Rio, que tentará o bicampeonato, caracterizando-o com enredo Ô Zeca, o pagode onde é que é? Ele tá ou tá numa tremenda sinuca de bico? Ah, coitado!

– Marineth, o Zeca Pagodinho, malandro que é, vai tirar de letra essa embaraçada situação. É claro que, como personagem homenageado, ele vai torcer pelo empate entre as duas escolas à frente das demais. E com desempate decidido no quesito enredo, em favor da Grande Rio. Pode perguntar e ele te responderá isso. E, malandramente, jogará toda a responsabilidade nas costas dos jurados. Como se diz, assim, ele ficará “bem na foto”, com a Portela sendo vice-campeã.

– Pode até ser, Athaliba, o que Zeca Pagodinho vislumbra. Mas, dando asas à imaginação, no universo falacioso da suposição (por favor, não perca de vista que no campo do sim e do não, o se não existe), o desfecho pode ser desastroso. Suponhamos que a Portela seja a campeã ou, ainda, que não vitoriosa, fique colocada na frente da Grande Rio, na classificação geral. Qual o argumento do artista portelense para essa situação? Ele, obviamente, estará nas alturas no carro alegórico principal da Grande Rio. E será, dileto confidente, que desfilará também pela Portela?

– Marineth, eis a questão. Ele cabe como uma luva no enredo dos 100 anos da Portela. É, sem dúvida, o atual símbolo artístico que representa a escola junto à opinião pública, ao lodo do Paulinho da Viola. Certamente que ele tem espaço garantido entre os principais personagens da história da azul e branco, embalada pelas asas da águia. Como Zeca Pagodinho será encaixado no desfile é a incógnita. O fato é que, homenageado pela Grande Rio, a agremiação fica forçada a exibi-lo como jóia rara portelense. A única conexão que o liga à escola é de residir em Xerém, em Duque de Caxias, município rico e cheio de desigualdades onde está instalada a agremiação.

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– Athaliba, podemos considerar que a direção da escola deu tacada de mestre ao seduzi-lo à homenagem e, com isso, deixou Zeca Pagodinho em sinuca de bico? Ele tem perfil substancial a ponto de ser explorado como tema de enredo de escola de samba do Grupo Especial?

– Marineth, a tacada foi perfeita. Enfim, a direção da escola está apostando todas as fichas num ídolo do samba, dentro do contexto do nosso maior patrimônio da cultura popular. É a fome com a vontade comer, percebe? Homenagem assim, no templo do samba, é difícil abdicar. Sem analogia, único caso histórico de recusa é o do jornalista e poeta Carlos Drummond de Andrade, que faria 120 anos em 31 de outubro. Ele não aceitou a “imortalidade” da Academia Brasileira de Letras – ABL. Aliás, a cidade berço de nascimento dele, Itabira do Mato Dentro, em MG, explora a memória dele sem venerá-lo como merece.

– Athaliba, o Zeca Pagodinho tem ou não bagagem para ser enredo de escola de samba?

– Marineth, a contextualização da vida e obra do homenageado como arte carnavalesca é do Gabriel Haddad, Leonardo Bora e Vinicius Natal. São eles os autores do enredo, responsáveis pelo desenvolvimento e roteiro do desfile. Como Zeca Pagodinho, nome artístico de Jessé Gomes da Silva Filho, será retratado no desfile só saberemos na 4ª feira de cinzas. A questão me remete à entrevista com ele para o jornal da Associação de Imprensa da Baixada – AIB -, instituição que ajudei a criar e presidi para discutir política de comunicação na Baixada Fluminense, em 1995.

– Athaliba, teve cervejada para molhar as palavras durante o papo histórico?

– Claro que sim, Marineth. Isso é marca registrada do Zeca Pagodinho. Já era noite quando o cartunista Adail José de Paula, o Nélio Menezes, saudosos amigos, e eu aportamos no sítio do artista. Ficamos ao redor do freezer horizontal cheio de cerveja, quase junto à entrada da casa. A conversa passou pela infância, adolescência e fase adulta, até o CD Samba pras moças lançado à época. A matéria, edição de outubro/1995, com título em duas linhas casadinhas Lá em Xerém, na Baixada, Pagodinho vive numa boa, é um raio X da cabeça aos pés do artista. E creio que o modo de vida dele continua inalterado. Ganhou foi mais inserção nessa sociedade desvanecida.

– Athaliba, outro aspecto prá não perder de vista será a “disputa” entre ele e o fiel parceiro e amigo Arlindo Cruz, que é enredo da Império Serrano, escola que luta para deixar de ser ioiô.

– Marineth, se Zeca desfilar na Império, aí a casa de Noca vai prá cucuia. Glória ao samba!

Tags: ColunaLenin Novaes
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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