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Home Colunas

O COMETA ITABIRANO

Por Ediel Ribeiro
13 de dezembro de 2019 - 07:39
em Colunas

Reprodução

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Rio – O cartunista mineiro Genin Guerra manda notícias de Itabira: “O Cometa Itabirano” está fazendo 40 anos.

“O Cometa Itabirano” foi um dos jornais alternativos que ficou mais tempo em circulação no país. 

Começou a circular em Itabira, terra natal do poeta Carlos Drummond de Andrade, no dia 15 de novembro de 1979, há quarenta anos, durante o último governo Militar.

Fundado no fim da Ditadura Militar – entre o final do governo do General Geisel (1974-1979) e início do governo de João Batista Figueiredo (1979-1985) – pelo Paulo Assuero Vaz Sampaio, o “Lelinho” e pelo cartunista, chargista, escultor e artista plástico Luiz Eugênio Quintão Guerra, o “Genin”, o hebdomadário mineiro enfrentou a Ditadura Militar, a censura e lutou pela liberdade de imprensa com muita criatividade, ironia e humor.

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Ousado e intrépido o jornal era editado por jovens itabiranos sem medo da censura. Era um grupo de jovens  de cabeças pensantes e revolucionárias que adoravam música, cinema, teatro e literatura, como os cartunistas Genin, Lute, Cau Gomez e os jornalistas Carlos Cruz, Agostinho Souza (o “Tiusguinha), Robson Damasceno, Lúcio Sampaio, Altamir Barros, Paulo Assuero Vaz Sampaio, Humberto Sampaio, Luiz Zanon, entre tantos outros.
 
Inspirado nos jornais alternativos “O Pasquim”, “Movimento” e “Opinião”, “O Cometa” – que era produto de longas e caóticas reuniões etílicas realizadas na casa do Lúcio – veio para marcar história e ficar na memória da imprensa mineira e nacional.

Tinha fãs famosos como o poeta Carlos Drummond de Andrade, e os cartunistas Millôr Fernandes e Ziraldo.

São deles as frases:

“Cada país tem o Canard Enchainé que pode”. (Millôr)

“A Imprensa Nanica está viva e se chama “O Cometa Itabirano” e é editada mensalmente em Itabira, Minas Gerais”. (Ziraldo)

Mas o pasquim itabirano incomodava a censura e o militares. No início da década de 80, depois de o jornal denunciar o então ministro de Minas e Energia, César Cals por ter recebido esmeraldas em Itabira, em troca da concessão de uma mina em Oliveira Castro, Carlos Alvarenga Cruz, então diretor do jornal foi enquadrado na famigerada Lei de Segurança Nacional (LSN). 

Na mesma Lei, foi enquadrado também o jornalista Hélio Fernandes, editor da “Tribuna da Imprensa” do Rio de Janeiro, que reproduziu a reportagem do jornal mineiro noticiando o “presente” recebido pela esposa do ministro, por ocasião da visita do casal a Itabira, em 23 de julho de 1981, 
“O Cometa Itabirano” foi responsável pela reaproximação do poeta Carlos Drummond de Andrade com sua terra natal. 

Nascido em Itabira, Drummond mantinha uma relação estremecida com a cidade que o considerava ingrato por conta do “bairrismo provinciano” que não o perdoou por ter se mudado para o Rio de Janeiro e da interpretação distorcida dos versos de “Confidência do Itabirano”: “Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!”. 

Com a reaproximação, o poeta virou colaborador do tabloide. As colaborações do poeta tiveram início com a publicação da primeira carta dele ao “Cometa”, em 1984 e culminou com a publicação, entre outros, do poema profético “Lira Itabirana” que parecia antever a tragédia da Companhia Vale do Rio Doce, publicado em 1984. 

O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.
Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!
A dívida interna.
A dívida externa
A dívida eterna.
Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?

“O Cometa” era um jornal de informação, humor e cultura. Artistas até então desconhecidos na cidade foram matérias em longas reportagens: Hermeto Pascoal, Belchior, José Assumpção, Papa Roma, além da divulgação de grupos de teatro, do Cine-Clube Lima Barreto e das históricas edições do Festival de Inverno.
“O Cometa” passou mas deixou marcas na cidade como o jornal “O Trem Itabirano”, um periódico de cultura, filhote do tablóide.

Não se sabe ao certo o dia em que “O Cometa” passou pela última vez pelo céu itabirano, mas para comemorar  o seu surgimento, há 40 anos, será inaugurada, com a curadoria do cartunista Genin Guerra, sábado, dia 21 de dezembro, a exposição “A Liberdade de Expressão na Trajetória do Cometa Itabirano”, na Galeria da Fundação Carlos Drummond de Andrade, em Itabira.

Parafraseando o poeta: “O Cometa” é apenas um retrato na parede. Mas como dói!

Tags: Carlos Drummond de AndradeLuiz Eugênio Quintão GuerraMillôr FernandesO Cometa ItabiranoO PasquimPaulo Assuero Vaz SampaioZiraldo
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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