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Home Colunas

Neruda

Por Redação
30 de março de 2018 - 15:23
em Colunas
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Quando conheci Neruda, por questões de destino, o li em espanhol. Não que dominasse a língua, era um aprendiz recente. Aprendi a respeitar a própria essência da poesia, quando a lemos em sua linguagem natal. Traduzi-la é uma tentativa torpe e manca de transformar um clima, patrocinado pelo lúdico da língua, em outra língua.

Com receio de agraciar uma namorada com algum poema de minha autoria, dei-lhe de presente um texto que me pareceu perfeito: “Cem sonetos de amor”. Era chic presentear, naqueles tempos, um livro de Neruda. Todos liam. Estava até na música de Francis Hime.

Nunca perguntei se gostara. Nunca comentou, pelo menos comigo. Acho que não, ou por não ter gostado ou não entender espanhol. Em nossa briga final, devolveu o presente, ao contrário da relutância da amante de Hime, na música. E foi assim, a discorrer no papel o infortúnio que passei a sentir, que me vi diante do poeta. Mas Neruda não falava de desafortunados, sua linguagem trazia a presença de um observador do mundo, e crítico de nossa pobre humanidade. Todos, que se dizem poetas, tentam e somente os magos conseguem.

Nunca havia lido Neruda, o li depois disso, – eis aí a questão do destino, e acho que compreendi o motivo da influência da sua poesia em uma geração latino-americana, sedenta de liberdade política e consequentemente de um fazer poético que traduzisse, com sangue no lápis, derramado no papel, toda a frustração de sentir e não poder fazer, e por isso o dizer ficasse cada vez mais forte, escondido no surreal, no simbolismo de personagens, para romper com a própria inexistência da vida política que não podia ser dita.

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Agradeci muitas vezes a devolução do presente, e acabei, então, me dando um. Comprado por um impulso de moda, largado na existência, e na solidão, encontrei um desafogo para o fora que ganhei. Assim ganhei duas vezes. Fomos dois incompreendidos: eu e o poeta.

Fico imaginando Neruda em seus gestos lentos, seu rosto hitchcockiano, com uma lente toda própria, o cachimbo, a boina a proteger a cabeça, o texto não dizendo sobre o homem. Mas o homem, através do seu texto, desnudando o mundo através dos pensamentos vagos e viajante temporal de elucubrações.

Espremido no mapa magro do Chile, um homem distante, ao sul do mundo, se lança no discurso universal do anseio de liberdade que corria naqueles idos sessentinos, até culminar na ruína do socialismo saliente do povo chileno. O poeta morreu ao sucumbir os sonhos de liberdade. Envergonhada, a humanidade ficou ao ver o poeta preso em um mundo subterrâneo, submetido às sandices de fuzis e torturas infindáveis; entre uma doença ou um assassinato?

Como seria um poeta na tortura?

– Diga-me todos os poemas para que possamos destruí-los, retirando os pensamentos vagos e torturantes além de nossa compreensão, diriam os torturadores.

Talvez respondesse o poeta, na pregação da liberdade que nutria e via, de verdade, a palavra única e incompreensível, dizendo que “Cuando aprendi com lentitud a hablar creo que ya aprendi la incoherencia: no me entendia nadie, ni yo mismo, y odié aquellas palabras que me volvían siempre al mismo pozo, al pozo de mi ser aún oscuro, aún traspassado de mi nacimiento, (…)”.

Buscaria a mais incompreensível para seus algozes, na tentativa poética de continuar a ser incompreendido.

Fui torturado pelo coração, por muitos anos, pelo abandono de Aninha. Apenas chorei, e escrevi. Aninha tornou o amor, para mim, incoerente, e mudei a minha forma de amar, mas sempre voltava para ele.

Soube depois, se formou em Nutrição, e me enviou alguns postais sobre uma viagem à Europa. Perguntei-lhe se não gostaria de conhecer a América do Sul. Pensei num retorno, um passeio pela terra do poeta. Falou com desdém da minha proposta. Jamais ela entenderia Neruda, mas eu aprendi a amar os versos.

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