O tradicional desfile cívico-militar de 7 de Setembro reuniu nesta segunda-feira (7), na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, os presidentes dos Três Poderes em uma demonstração de unidade institucional justamente no momento em que o Supremo Tribunal Federal (STF) atravessa uma das maiores crises recentes, provocada pelas revelações envolvendo o caso Banco Master.
Além do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acompanharam a cerimônia o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o presidente do STF, Edson Fachin.
O vice-presidente Geraldo Alckmin também ocupou a tribuna de honra, assim como a primeira-dama, Janja da Silva, ministros de Estado, integrantes das Forças Armadas e outras autoridades.
A presença de Fachin teve significado político especial. Todos os ministros do Supremo foram convidados para a cerimônia, mas apenas o presidente da Corte compareceu.
Alexandre de Moraes e André Mendonça, protagonistas das acusações que elevaram a tensão dentro do STF nos últimos dias por causa das investigações relacionadas ao Banco Master, não estiveram no desfile.
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, outro personagem citado nos documentos que alimentaram a crise, compareceu. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, não participou.
Lula chegou por volta das 9h10 acompanhado de Janja. Depois da execução do Hino Nacional, autorizou o início do desfile, que terminou por volta das 11h15.
Durante a cerimônia, Lula e Alcolumbre foram vistos conversando e trocando risadas. Fachin também conversou com autoridades na tribuna. A imagem contrastou com o ambiente de tensão dos últimos dias em Brasília.
Nos bastidores, Lula havia defendido a presença dos chefes dos demais Poderes justamente como uma demonstração de que Executivo, Legislativo e Judiciário mantêm o diálogo apesar da crise institucional.
Soberania marcou pronunciamento de Lula
Lula não fez discurso durante o desfile desta segunda-feira.
A manifestação presidencial relacionada às comemorações da Independência ocorreu na noite anterior, em pronunciamento transmitido em rede nacional de rádio e televisão.
A soberania nacional foi o principal eixo da fala.
“Nenhum governante estrangeiro tem o direito de dizer de quem podemos comprar e para quem podemos vender”, afirmou o presidente.
Lula também elevou o tom ao falar da relação do Brasil com outras potências e declarou que o país não aceitará interferências externas.
“Não podemos baixar a cabeça diante de potências estrangeiras que querem transformar o Brasil, novamente, em colônia. Não somos colônia e não seremos colônia de ninguém”, disse.
O discurso ocorre em um momento de tensão nas relações internacionais e também em plena campanha eleitoral. Lula disputa a reeleição em outubro.
O presidente associou soberania não apenas à política externa, mas ao controle brasileiro sobre recursos considerados estratégicos. Citou petróleo, minerais críticos e terras raras e defendeu que essas riquezas sejam utilizadas para gerar desenvolvimento, tecnologia e empregos no país.
Lula também relacionou o conceito de independência a políticas sociais, educação, saúde, redução das desigualdades e melhores condições de vida para a população.
A discussão sobre a jornada de trabalho também apareceu no pronunciamento. O tema ganhou ainda mais visibilidade durante o desfile, quando parte do público próximo à tribuna de autoridades gritou “fim da 6×1”.
A manifestação ocorreu diante de Davi Alcolumbre, presidente do Senado, onde a proposta que reduz a jornada semanal e abre caminho para o fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso aguarda análise do plenário.

Soberania, mulheres e futebol feminino
O desfile deste ano foi organizado em torno de três eixos: “Soberania, a força que une o Brasil”, proteção de meninas e mulheres e a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no país.
O primeiro bloco reforçou o conceito de soberania nacional adotado pelo governo nas comemorações da Independência.
Outro segmento destacou o enfrentamento à violência contra mulheres e meninas, tema que ganhou espaço após o lançamento de um pacto nacional envolvendo os Três Poderes.
A Copa do Mundo Feminina também recebeu destaque. O Brasil sediará pela primeira vez o Mundial feminino da Fifa em 2027, e o evento foi incorporado às comemorações como forma de promover a competição.
A programação manteve ainda os elementos tradicionais do 7 de Setembro, com participação de integrantes da Marinha, Exército e Aeronáutica, desfile motorizado, cavalaria, apresentações militares e a tradicional Esquadrilha da Fumaça.
Estudantes de escolas públicas representando as 27 unidades da Federação participaram da abertura da programação.
O público começou a chegar à Esplanada antes das 6h30 e as arquibancadas cobertas já estavam ocupadas pouco antes do início da cerimônia.
Eleições mudam formato da comemoração
O fato de o desfile ocorrer a menos de um mês do primeiro turno das eleições também influenciou a organização.
O governo adotou cuidados para evitar que a cerimônia oficial fosse interpretada como ato de campanha. Diferentemente de outras comemorações, não houve distribuição de itens com slogans governamentais ao público.
Lula e Janja também evitaram roupas vermelhas, cor diretamente associada ao PT.
Mesmo assim, alguns dos temas escolhidos para o desfile coincidem com bandeiras exploradas pelo presidente durante sua campanha à reeleição, especialmente soberania nacional, proteção às mulheres e mudanças na jornada de trabalho.
O 7 de Setembro acabou produzindo, portanto, duas imagens políticas distintas.
Na Esplanada, a presença conjunta de Lula, Fachin, Alcolumbre e Motta transmitiu uma mensagem de diálogo institucional em meio à crise no Supremo.
Fora da cerimônia oficial, manifestações organizadas por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro fizeram críticas a Lula e Alexandre de Moraes e demonstraram apoio a André Mendonça e à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
No desfile oficial, entretanto, a crise do Banco Master não foi mencionada publicamente. Fachin, que assumiu a condução dos procedimentos relacionados às acusações envolvendo Moraes e Mendonça, acompanhou toda a cerimônia ao lado dos demais chefes dos Poderes.
A combinação entre a presença dos três Poderes, o discurso de soberania adotado pelo governo e os cuidados impostos pelo período eleitoral acabou dando ao 7 de Setembro deste ano um peso político que foi além das tradicionais apresentações militares.


