Novos áudios e mensagens revelam uma relação entre o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e Daniel Vorcaro que vai além do episódio do jatinho utilizado pelo parlamentar durante a campanha de Jair Bolsonaro em 2022. Em uma gravação de março de 2025, Nikolas procura diretamente o então dono do Banco Master para pedir que ele atendesse uma demanda de seu advogado e assessor, Thiago Rodrigues de Faria, envolvendo um ativo minerário.
O material foi revelado pela jornalista Juliana Dal Piva, do ICL Notícias, a partir de mensagens obtidas no celular de Vorcaro.
Na gravação enviada em 30 de março de 2025, Nikolas chama o banqueiro de “Dani”, pede desculpas por incomodá-lo em um domingo e apresenta Thiago Faria como seu amigo, advogado e “irmão”, afirmando confiar totalmente nele.
O parlamentar explica que Faria havia procurado seu gabinete para falar sobre um ativo minerário que já teria passado por avaliação técnica e permanecia pendente em uma empresa ligada a Vorcaro.
Nikolas admite que não sabia exatamente do que se tratava, mas se oferece para fazer a ponte entre os dois.
“Não conheço o Dani, enfim, não tenho a proximidade assim, até mesmo a que eu queria ter, enfim, de conversar e trocar ideia, mas eu o conheço”, afirma o deputado no áudio.
Em seguida, Nikolas encaminhou o contato de Thiago Faria. Vorcaro respondeu ao parlamentar: “Amém irmão. Estamos na guerra juntos”.
No dia seguinte, Nikolas voltou a procurar o banqueiro para informar que seu advogado estaria em Brasília e poderia encontrá-lo em qualquer horário. Vorcaro respondeu posteriormente: “Deixa comigo”.
Advogado aparece em investigação sobre mineração
A natureza do pedido ganha relevância pelo histórico de Thiago Rodrigues de Faria no setor mineral.
Na época da conversa, Faria não era apenas advogado de Nikolas. Ele ocupava cargo de secretário parlamentar no gabinete do deputado e permaneceu na função até fevereiro de 2026.
Dois meses antes de Nikolas procurar Vorcaro, em janeiro de 2025, o escritório de Thiago Faria havia firmado contrato relacionado a uma negociação envolvendo uma lavra de minério e a Gmais Ambiental.
A empresa apareceria meses depois entre os alvos da Operação Rejeito, deflagrada pela Polícia Federal para investigar um esquema de corrupção e extração ilegal de minério em Minas Gerais, incluindo áreas da Serra do Curral, patrimônio ambiental e cultural de Belo Horizonte.
Documentos da investigação revelados pelo Estado de Minas apontaram que o escritório de Faria atuou como intermediário em uma negociação envolvendo a Gmais e direitos minerários.
A remuneração estaria vinculada ao sucesso do negócio, cuja negociação poderia alcançar dezenas de milhões de dólares.
Faria nega qualquer envolvimento em irregularidades. O advogado afirma trabalhar com mineração, diz ter apresentado ativos minerários a diferentes interessados e ressalta que nunca foi chamado pela Polícia Federal para prestar depoimento.
Também não está comprovado que o ativo mencionado por Nikolas na conversa com Vorcaro seja o mesmo relacionado à negociação posteriormente identificada na Operação Rejeito.
“Se soubesse, não teria postado”
Outro trecho da gravação expõe uma situação politicamente mais delicada para Nikolas.
O deputado aproveita a conversa com Vorcaro para pedir desculpas por críticas que havia feito em 2024 a um evento realizado em Londres com participação de autoridades brasileiras e patrocinado pelo Banco Master.
As publicações haviam provocado irritação em Vorcaro.
Mensagens divulgadas pelo ICL mostram que o banqueiro procurou o pastor André Valadão, líder da Igreja Batista da Lagoinha, para reclamar das manifestações de Nikolas e pedir sua intervenção junto ao parlamentar.
Depois da conversa com Valadão, Nikolas procurou se explicar.
Quase um ano mais tarde, ao falar diretamente com Vorcaro no mesmo contato em que pediu ajuda para seu advogado, o deputado retomou o episódio e voltou a se desculpar.
“Troquei ideia lá com o pastor Valadão naquela época, lá naquela postagem. Eu falei: ‘Pastor, eu não fazia ideia que era este o Banco do Dani […] senão, obviamente, eu não teria postado, já teria conversado anteriormente’”, afirmou Nikolas.
A declaração chama atenção porque indica que o conhecimento de que o Banco Master pertencia a Vorcaro teria alterado a forma como o parlamentar trataria publicamente o episódio.
Nikolas não afirma que deixaria necessariamente de fazer qualquer crítica. O que diz literalmente é que não teria feito aquela publicação da maneira como fez e que teria conversado antes com Vorcaro.
No restante da mensagem, o deputado lamenta não poder retirar o que já havia dito, afirma esperar que a situação estivesse esclarecida e sugere que os dois marcassem um encontro posteriormente.
As mensagens obtidas no celular de Vorcaro mostram que o banqueiro acompanhou as manifestações do deputado sobre o Master e procurou pessoas próximas a ele quando se sentiu atingido.
Em abril de 2024, Vorcaro pediu ajuda diretamente a André Valadão para conversar com Nikolas. Depois da intervenção, o pastor relatou ao banqueiro que o deputado havia se desculpado e manifestado “gratidão” a Vorcaro.
Em outra conversa, Vorcaro demonstrou preocupação em saber se Nikolas continuava do mesmo lado político e pessoal que ele.
Voos durante a campanha de Bolsonaro
A relação entre os dois já havia chamado atenção por outro episódio.
Durante o segundo turno das eleições de 2022, Nikolas participou da caravana “Juventude pelo Brasil”, realizada em apoio à tentativa de reeleição de Jair Bolsonaro. Durante cerca de dez dias, entre 20 e 28 de outubro, o então candidato a deputado utilizou um jato em deslocamentos por diferentes estados e pelo Distrito Federal.
Quando o caso veio a público, Nikolas afirmou que não sabia que a aeronave tinha relação com Daniel Vorcaro e sustentou que não possuía vínculo pessoal, comercial ou institucional com o banqueiro.
A empresa Prime You, responsável pela operação da aeronave, contestou posteriormente a afirmação de que o avião pertencia a Vorcaro. Segundo a companhia, o jato operava regularmente como táxi aéreo e não tinha vínculo patrimonial com o banqueiro, embora Vorcaro tenha sido sócio minoritário da empresa até 2025.
Agora, mensagens encontradas no celular de Vorcaro acrescentam uma nova informação ao episódio.
Em conversa com o empresário Flávio Carneiro, em abril de 2024, o próprio Vorcaro afirmou ter bancado os deslocamentos do parlamentar: “Esse Nikolas eu banquei todos os voos dele”.
Não está esclarecido quem formalmente contratou ou pagou os voos realizados em 2022, nem se a afirmação de Vorcaro se referia exclusivamente àquela caravana.
Nikolas sustenta que não recebeu benefício pessoal do banqueiro e afirma que as investigações da Polícia Federal não lhe atribuem a prática de crime.
As novas mensagens, entretanto, documentam que, em março de 2025, o deputado tinha canal direto com Vorcaro, tratava o banqueiro informalmente como “Dani”, dizia desejar maior proximidade, colocou seu advogado e então assessor em contato com ele e se desculpou por uma crítica pública ao Banco Master.
Nesta sexta-feira (4), a deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP) pediu ao ministro André Mendonça, relator das investigações relacionadas ao Banco Master no STF, que a relação entre Nikolas e Vorcaro seja investigada. O pedido inclui a convocação do deputado e de Thiago Faria para prestar esclarecimentos e a identificação do ativo minerário mencionado nas mensagens.


