Conhecidos como “paciente de Kansas City” e “paciente Ascent”, os dois homens receberam os transplantes para tratar doenças hematológicas graves. Em ambos os procedimentos, os doadores apresentavam uma mutação genética rara, a CCR5-delta32, que dificulta a entrada das formas mais comuns do HIV nas células do sistema imunológico.
O paciente de Kansas City permanece há 14 meses sem usar antirretrovirais e sem apresentar rebote viral. No segundo caso, o período de acompanhamento sem detecção do HIV chegou a 12 meses. Os resultados ampliam o grupo ainda muito restrito de pacientes que alcançaram remissão depois desse tipo de intervenção.
Apesar da relevância científica, pesquisadores ressaltam que os transplantes não representam uma cura disponível para a população que vive com HIV. O procedimento é complexo, tem riscos elevados e somente foi indicado porque os pacientes também enfrentavam doenças potencialmente fatais do sangue.
Paciente de Kansas City recebeu transplante após diagnóstico de leucemia
O chamado paciente de Kansas City descobriu aos 21 anos que vivia com HIV. Posteriormente, foi diagnosticado com uma forma agressiva de leucemia, doença que compromete a produção das células sanguíneas e pode afetar diretamente as defesas do organismo.
Para tratar o câncer, ele recebeu, em 2020, um transplante de células-tronco hematopoiéticas de uma doadora compatível e portadora da mutação CCR5-delta32.
Essas células dão origem aos diferentes componentes do sangue, incluindo os linfócitos T CD4+, que desempenham papel essencial na coordenação da resposta imunológica e são o principal alvo do HIV.
Após a recuperação do transplante e sob acompanhamento médico, o paciente interrompeu o uso dos antirretrovirais em fevereiro de 2025. Quatorze meses depois, os exames continuavam sem identificar vírus capaz de se multiplicar ou provocar a retomada da infecção.
“É apenas o caso de um paciente, mas que se soma à lista de pacientes que se recuperaram após o transplante de células-tronco”, afirmou o pesquisador Wissam El Atrouni, um dos responsáveis pelo acompanhamento.
“É necessário acompanhamento contínuo. Agora, passaremos a realizar testes mensais.”
Segundo caso desafia compreensão sobre as formas de entrada do vírus
O outro caso apresentado na conferência foi identificado nas divulgações científicas como paciente Ascent. Ele vivia com HIV, tinha infecção pelo vírus da hepatite B e enfrentava uma doença hematológica grave que também exigiu um transplante.
O caso despertou atenção especial porque os exames anteriores ao procedimento indicavam que o HIV presente no organismo poderia utilizar mais de uma via para infectar as células.
Normalmente, o vírus se liga ao receptor CD4 e a um dos correceptores presentes na superfície das células, principalmente o CCR5. Algumas variantes, no entanto, conseguem utilizar o correceptor CXCR4, o que poderia permitir a continuidade da infecção mesmo depois de um transplante com células resistentes pela mutação CCR5-delta32.
Apesar dessa preocupação, os exames realizados após a suspensão dos antirretrovirais encontraram apenas vestígios mínimos do material genético do HIV, sem identificar vírus com capacidade de replicação.
“A questão principal é se a presença da mutação CCR5-delta32 é realmente a chave para se alcançar uma remissão de longo prazo do HIV”, afirmou a pesquisadora Carina Elsner, uma das responsáveis pelo estudo.
O paciente também deixou de tomar os medicamentos que controlavam a hepatite B e apresentou recidiva dessa infecção. O episódio reforçou a necessidade de acompanhamento permanente mesmo quando o HIV permanece indetectável.
Como a mutação dificulta a infecção
O HIV não consegue se multiplicar sozinho. Para completar seu ciclo, precisa entrar em uma célula humana e utilizar sua estrutura para produzir novas cópias.
Um de seus principais alvos é o linfócito T CD4+, célula fundamental para a resposta do sistema imunológico. A redução progressiva desses linfócitos deixa o organismo mais vulnerável a infecções e outras doenças.
Para invadir a célula, o vírus se conecta ao receptor CD4 e a correceptores como CCR5 ou CXCR4. A mutação CCR5-delta32 modifica a estrutura do CCR5 e impede que grande parte das variantes do HIV utilize essa “porta de entrada”.
Quando um paciente recebe células-tronco de um doador com duas cópias da mutação, seu sistema sanguíneo passa a produzir novas células potencialmente resistentes ao vírus.
A mutação em homozigose — recebida tanto do pai quanto da mãe — é mais comum entre pessoas de origem do norte da Europa, mas continua sendo rara na população mundial. Essa baixa frequência torna ainda mais difícil encontrar doadores simultaneamente compatíveis para o transplante e portadores da alteração genética.
Transplante não é tratamento indicado apenas contra o HIV
Os resultados não significam que pessoas com HIV devam ser submetidas a transplantes de células-tronco.
O procedimento exige a destruição de parte do sistema imunológico e da medula óssea do paciente para permitir a implantação das células do doador. Há riscos de infecções graves, rejeição, reação das células transplantadas contra o organismo e até morte.
Por essa razão, os transplantes foram realizados para tratar leucemias, linfomas ou outras doenças hematológicas que ameaçavam a vida dos pacientes. A possível remissão do HIV foi um efeito adicional acompanhado pelos pesquisadores.
Para a maioria das pessoas que vive com HIV, a terapia antirretroviral continua sendo o tratamento seguro e eficaz. Quando utilizada corretamente, ela reduz a carga viral a níveis indetectáveis, preserva o sistema imunológico e impede a transmissão sexual do vírus.
A Conferência Internacional de Aids de 2026 ocorre entre 26 e 31 de julho, no Rio de Janeiro, reunindo pesquisadores, profissionais de saúde, autoridades e representantes da sociedade civil para discutir avanços e desafios no enfrentamento ao HIV.
Remissão exige acompanhamento prolongado
Embora os casos sejam frequentemente descritos como exemplos de cura, os pesquisadores adotam o termo remissão porque ainda não é possível assegurar que o vírus tenha sido completamente eliminado do organismo.
O HIV pode permanecer escondido em reservatórios celulares por longos períodos, sem aparecer nos exames convencionais. Em algumas situações, o vírus volta a se multiplicar meses ou anos depois da interrupção dos medicamentos.
Por isso, os dois pacientes continuarão submetidos a testes frequentes. Quanto maior o período sem carga viral detectável e sem tratamento, mais robusta será a evidência de uma remissão duradoura.
Caso de Berlim abriu caminho para as pesquisas
O primeiro caso reconhecido de remissão prolongada do HIV após transplante foi o do norte-americano Timothy Ray Brown, conhecido como “paciente de Berlim”.
Brown recebeu transplantes de células-tronco em 2007 para tratar uma leucemia. O doador também possuía duas cópias da mutação CCR5-delta32. Depois do procedimento, o HIV deixou de ser detectado mesmo sem o uso de antirretrovirais.
Ele permaneceu livre do vírus até morrer, em 2020, em decorrência da reincidência da leucemia.
O caso demonstrou pela primeira vez que a remissão do HIV era biologicamente possível. Os registros posteriores ajudaram os cientistas a investigar quais elementos do transplante são decisivos: a mutação genética do doador, a substituição do sistema imunológico, a quimioterapia, a reação entre as células transplantadas e as antigas ou uma combinação desses fatores.
Os dois novos casos não oferecem uma solução imediata para milhões de pessoas, mas acrescentam informações importantes à busca por estratégias menos invasivas, como terapias genéticas capazes de reproduzir a resistência ao HIV sem os riscos de um transplante.
Nota de apuração: o texto-base se refere ao segundo novo registro como “paciente de Essen”. As informações divulgadas sobre a AIDS 2026 o identificam como paciente Ascent. O “paciente de Essen” é um caso anterior, descrito na literatura científica por ter apresentado rebote do HIV após um transplante realizado com células portadoras da mesma mutação.


