A história de duas meninas escravizadas, de 12 e 14 anos, que recorreram à Justiça no século XIX para denunciar abusos sofridos no Espírito Santo, serve como ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre infância, violência e resistência no Brasil. O episódio, que não teve desfecho favorável às vítimas, ganha novo significado no livro Sobre a vida delas, da historiadora Silvana Santus.
A obra será lançada nesta quinta-feira (19), no Museu Capixaba do Negro (Mucane), em Vitória, reunindo pesquisa histórica e debate contemporâneo sobre a condição das crianças negras ao longo do tempo.
Infância negada e trabalho precoce
A publicação mergulha no cotidiano de crianças negras escravizadas entre 1869 e o período pós-abolição. Mais do que vítimas silenciosas, elas aparecem como sujeitos inseridos em uma lógica de exploração que atravessava todas as dimensões da vida.
Segundo a autora, essas crianças eram tratadas como mercadoria — vendidas, trocadas ou alugadas — e submetidas a jornadas de trabalho semelhantes às de adultos, tanto em atividades domésticas quanto no campo.
“Estavam dentro desse contexto de escravidão, vivendo uma não infância, marcada pela invisibilidade e pela exploração”, afirma.
O livro também analisa como a sociedade e o poder público enxergavam essas crianças. Um dos exemplos citados é a lei provincial nº 25, de 1869, que previa recursos para libertar meninas entre cinco e dez anos, desde que fossem educadas para se tornarem socialmente “adequadas”. Na prática, a medida teve alcance restrito e beneficiou apenas 50 crianças.
Imagens que revelam um passado pouco discutido
O lançamento contará ainda com uma exposição de 14 imagens históricas — entre fotografias e gravuras — que retratam o uso da mão de obra infantil escravizada nas últimas décadas do século XIX.
Parte do material pertence ao acervo do Instituto Moreira Sales, contribuindo para dar dimensão visual a um tema ainda pouco explorado na historiografia tradicional.

Obra de Silvana Santus discute infância negra no século XIX
Foto: Maria Panzeri/Divulgação
Mais do que reconstruir um período histórico, o livro propõe um diálogo direto com a realidade contemporânea. Para Silvana Santus, as marcas da escravidão ainda se manifestam na forma como a infância negra é tratada no Brasil.
A autora cita como exemplo o caso do menino Miguel Santana da Silva, de 5 anos, morto em 2020 no Recife, após ser deixado sozinho em um elevador por uma mulher responsável por sua guarda naquele momento.
“Esse tipo de situação revela como a vida de uma criança negra ainda pode ser percebida como menos importante — um traço que tem raízes no passado escravista”, analisa.
A pesquisa também aponta caminhos para enfrentar desigualdades persistentes. Entre eles, a necessidade de políticas públicas voltadas à infância negra e a revisão dos currículos escolares.
A proposta, segundo a autora, é reposicionar a criança negra no centro do debate social, combatendo a invisibilidade e enfrentando formas estruturais de violência que se manifestam desde os primeiros anos de vida.
Serviço
Lançamento do livro: Sobre a vida delas
Autora: Silvana Santus
Local: Museu Capixaba do Negro (Mucane)
Data: 19 de março, às 18h






