A poucos dias da cerimônia do Oscar 2026, o Brasil vive um fenômeno pouco comum no universo do audiovisual: um clima de torcida coletiva semelhante ao de uma final de Copa do Mundo. Em diversas cidades, bares, cinemas e cineclubes organizam transmissões públicas da premiação, bolões e sessões especiais para acompanhar a cerimônia marcada para domingo (15).
O centro dessa mobilização é o filme O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura. O longa chega à premiação com quatro indicações: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Direção de Elenco.
A atmosfera de expectativa lembra o que ocorreu no ano passado com Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional e responsável por reacender o interesse do público brasileiro pela premiação.
Bilheteria reforça entusiasmo
Os números ajudam a explicar o entusiasmo. De acordo com dados do portal especializado Filme B, O Agente Secreto lidera a bilheteria entre os indicados ao Oscar deste ano.
O filme já ultrapassou 2,4 milhões de espectadores e arrecadou mais de R$ 50 milhões nas salas de cinema brasileiras. Entre os concorrentes ao prêmio principal da Academy of Motion Picture Arts and Sciences, organizadora da premiação, é também o longa de menor orçamento.
Esse contraste entre produção autoral e desempenho comercial tem sido apontado como um dos fatores que ampliaram o interesse do público.
Em várias cidades brasileiras, a cerimônia será acompanhada coletivamente. No Rio de Janeiro, o produtor e exibidor Cavi Borges, do Grupo Estação e da Cavideo, organiza mais uma vez uma transmissão pública da premiação.
O evento começou há mais de duas décadas em formato informal.
“Eu faço essa transmissão ao vivo do Oscar há 25 anos. Começou lá na Cobal do Mytown, quando a Cavideo estava nascendo. Era uma reunião pequena, cinéfila mesmo”, lembra Borges.
Nos últimos anos, porém, o encontro cresceu significativamente.

“No ano passado foi o ápice: quase duas mil pessoas. Cinco salas lotadas e um telão no saguão. Quando o Brasil ganhou o Oscar, o cinema tremeu. Foi histórico.”
Para esta edição, a programação inclui bolão de apostas, quiz sobre cinema, concurso de sósias de Wagner Moura e transmissão simultânea nas salas do Estação Net Rio e do Estação Net Botafogo.
Para Cavi Borges, o fenômeno reflete um momento positivo vivido pelo audiovisual nacional.
“Muita gente que não frequentava cinema de arte começou a aparecer. Pessoas que iam ao shopping ver blockbuster foram à Estação para ver Ainda Estou Aqui ou O Agente Secreto.”
Segundo ele, esse movimento ajuda a ampliar o conhecimento do público sobre a produção nacional.
“O Brasil produz cerca de 300 filmes por ano, mas o grande público conhece quatro ou cinco.”
Soft power brasileiro
Nas redes sociais, Kleber Mendonça Filho tem demonstrado gratidão pela mobilização em torno do filme. O diretor também destacou o papel das políticas públicas de incentivo ao audiovisual na trajetória da produção.
Para o cineasta, o reconhecimento internacional também representa uma forma de projeção cultural do país.
Ele define a presença do longa na premiação como um exemplo de “soft power brasileiro” — a capacidade de o país projetar sua cultura e identidade no cenário global.
Nova categoria pode render marco histórico
Entre as categorias da premiação, especialistas apontam uma possibilidade inédita para o Brasil: Melhor Direção de Elenco.
Criada pela Academia em 2024 e inaugurada nesta edição do Oscar, a categoria conta com indicação do brasileiro Gabriel Domingues, responsável pela seleção de mais de 60 atores para O Agente Secreto.
Mesmo com o entusiasmo brasileiro, analistas do mercado internacional consideram a disputa equilibrada. Veículos especializados apontam o filme Pecadores, dirigido por Ryan Coogler, como um dos favoritos da noite.
Na corrida de Melhor Ator, nomes como Timothée Chalamet e Michael B. Jordan aparecem entre os concorrentes fortes.
Ainda assim, Wagner Moura chega à premiação fortalecido após conquistar o Golden Globe Awards, o que elevou a expectativa em torno de sua performance.
Se as previsões internacionais são cautelosas, no Brasil o clima é outro: de torcida aberta. Nas redes sociais, podcasts, portais e canais de cinema acompanham a temporada de premiações como se fosse uma final decisiva.
Talvez porque, neste momento, o cinema brasileiro voltou a ocupar um espaço central na conversa cultural global.






