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Home Colunas

Zé Andrade, o caricaturista que veio do barro

Por Ediel Ribeiro
3 de agosto de 2022 - 08:11
em Colunas

Divulgação - 

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Rio de Janeiro – Meu encontro com Zé Andrade foi nos anos 80. 

Com ele, não, com sua obra. Nos encontramos numa livraria no Leblon, no Rio de Janeiro. Era uma estatueta do jornalista Nelson Rodrigues. Me impressionou. Levei.

Nos encontramos pessoalmente, em 2002, num ‘Encontro de Cartunistas’, no bar Sindicato do Chopp, no Leme. Depois disso, foram vários encontros regados a bom papo e muito chopp.

Em nosso primeiro contato, impressionou-me a generosidade do homem franzino, de fala mansa e articulada. A inteligência que lhe permitia discorrer sobre os diferentes assuntos e a modestia dos grandes artistas.

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A arte de Zé Andrade está por todo o país. Já esbarramos – eu e a Sheila – com ela no Rio de Janeiro (RJ), em Porto Alegre (RS) e, recentemente, em São Paulo (SP), no Museu Afro Brasil,  no Parque Ibirapuera.

José Andrade Santos, nasceu em Ubaíra, interior da Bahia, em 22 de  janeiro de 1952. Veio para o Rio com 20 anos e atua há mais de quarenta anos como escultor.

O barro, matéria prima de sua arte, é parte das mitologias. Na gênese cristã, judaica, grega e de outros povos, ele está presente no dia-a-dia, na arte e na cultura dos povos. Quando Deus criou o homem, lhe deu formas do barro da terra e soprou a vida através de suas narinas. 

O trabalho de Zé Andrade, embora proceda de uma releitura dos escultores  clássicos do nordeste como, por exemplo, Inocêncio Medeiros da Costa, o Mestre Noza, é inspirado na obra de Deus. Zé não deu vida aos seus ‘bonecos’, no entanto, eles têm vida própria. São vivos.

Seu ateliê, localizado no bairro carioca de Santa Teresa, é o nascedouro de  suas esculturas. As peças têm em média 12 cm e são caricaturas de escritores, pintores, artistas e figuras públicas de destaque.  “São caricaturas em três dimensões”, diz.

Andrade acrescentou à cultura popular uma dose de sofisticação, se especializando em registrar as personalidades nacionais e internacionais, principalmente as relacionadas à cultura como os poetas, escritores, músicos e artistas plásticos, entre outros. 

Moldar figuras humanas em barro foi uma habilidade que se manifestou em Zé Andrade quando ainda menino no interior da Bahia. Hoje, com três assistentes, Andrade trabalha inicialmente o barro em natura, e depois realiza a queima e a pintura. Dessa mistura, saem figuras de destaques da literatura brasileira, que admira como Monteiro Lobato, Jorge Amado, Manuel Bandeira, o poeta paraibano Augusto dos Anjos, e o romancista Lima Barreto, entre outros.

Os primeiros bonecos de Andrade foram expostos na rua, sobre jornais estendidos na calçada. Hoje, eles estão expostos  em livrarias pela cidade, pelo país e pelo mundo. É comum encontrá-los em feiras de livros em Frankfurt, Paris e Tóquio.

“Acredito que o homem se constrói pelo seu fazer. Não estou aqui gratuitamente. O trabalho de um ser sensível é contribuir para melhorar o mundo, em todos os seus aspectos: estéticos, sociais e afetivos. Contribuir para a formação de um mundo melhor de forma lúdica, inventiva, tolerante, terna e generosa.” – diz o artista.

O cartunista Ziraldo escreveu sobre Zé Andrade:

“O Zé Andrade acha que o tempo que você gasta sonhando é o mesmo que você gasta fazendo.

O Zé faz!

Sua história de vida é a história de um homem fazendo coisas, criando, inventando. Resultado deste mistério que faz um menino do interior, longe de tudo – de qualquer informação ou de qualquer contato com o resto do mundo – descobrir que o que está pintado nas paredes da igreja é mais importante do que a missa que o padre reza.

Era arte o que interessava naquelas lonjuras. Ninguém sabe explicar porque o Deus da missa escolhe um menino e diz: Presta atenção na pintura. E nega a ordem da tia que dizia: Presta atenção na missa.

Zé Andrade criou um espaço só para ele, no Brasil. Ninguém faz igual. Seus bonecos são um retrato do país, do seu tempo, dos homens que, como ele, ajudam ou ajudaram a criar o país que nós sonhamos. Não tem um só ‘barbalho’ ou  ‘acêeme’ na sua já famosa galeria.

Fica só faltando ele fazer a estatueta dele mesmo”.

Tags: ColunaEdiel Ribeiro
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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