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Home Colunas

WANDER PIROLI, O NOSSO KAFKA

Por Ediel Ribeiro
7 de agosto de 2025 - 11:01
em Colunas

Wander Piroli/Acervo Conceito Editorial - 

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Belo Horizonte – Um dia, num papo de boteco com Nani, ele me disse: “Quem não ri não presta”.

A frase, que Nani gostava de citar, é de um conterrâneo seu: Wander Piroli, um importante escritor e jornalista mineiro.

Por coincidência, recebi esta semana a biografia do escritor: “Wander Piroli – Uma Manada de Búfalos Dentro do Peito” (Conceito Editorial, 256 págs.), escrita pelo jornalista Fabrício Marques e lançada, em 2018, pela Conceito.

Piroli escreveu contos, crônicas e livros infanto-juvenis. Em seus contos, Piroli tratou de pessoas comuns, marginalizadas de Belo Horizonte, como operários, prostitutas e malandros; temática pela qual foi visto por seus contemporâneos como um Kafka brasileiro – seja pelo modo de viver, seja pelo estilo enxuto dos textos. Como Franz Kafka, Piroli formou-se em Direito e se considerava “um bebedor apaixonado”.

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Cronista da vida boêmia de Belo Horizonte, com estilo conciso, seco e sarcástico, Piroli se destacou tanto na literatura quanto no jornalismo, onde começou após escrever uma matéria sobre a morte de Ernest Hemingway, no jornal “Binômio”. Trabalhou em diversos veículos e chegou a criar o jornal “Hoje em Dia”. Foi professor de jornalismo sem ter feito o curso superior. As primeiras faculdades de jornalismo ainda engatinhavam no Brasil quando ele se iniciava entre as redações fumacentas e as sinfonias das máquinas de escrever.

Piroli nasceu e cresceu no bairro da Lagoinha, centenário bairro da região Noroeste de Belo Horizonte, berço da boemia belo-horizontina. “A minha visão de mundo é a visão da Lagoinha”, escreveu uma vez. Cursou direito pela Universidade Federal de Minas Gerais, mas trocou a rigidez da advocacia pelo cargo de editor do jornal ‘Binômio’ – semanário que revelou grandes nomes do jornalismo, do cartoon e da literatura brasileira como Fernando Gabeira, Ziraldo, Borjalo e Roberto Drummond; e era definido por Euro Arantes, um de seus fundadores, como: “Uma brincadeira de estudante que a polícia resolveu levar a sério” -, foi redator-chefe da ‘Última Hora’, editor de ‘O Sol’, editor de polícia do ‘Estado de Minas’, editor do ‘Suplemento Literário’, editor do ‘Jornal de Shopping’ e ‘Jornal de Domingo’, diretor do ‘Diário de Minas’ e ‘Hoje em Dia’.

Trabalhou ainda nas rádios ‘Inconfidência’ e ‘Guarani’, em programas rurais. Era um tipo meio tímido, mas alegre, corpulento, camisa sempre aberta no peito, frequentemente chamado de comunista, boêmio e cachaceiro pelos patrões, que, nem por isso, deixavam de contratá-lo e admirá-lo.

Em 1951, venceu um concurso literário em Belo Horizonte com o conto “O Troco”. Em 1966, publicou seu primeiro livro: ‘A Mãe e o Filho da Mãe’. Publicou também os livros infantis ‘O Menino e o Pinto do Menino’, de 1975, e ‘Os Rios Morrem de Sede’, de 1976, obra na qual antecipou questões ecológicas que hoje estão na ordem do dia e com a qual recebeu o Prêmio Jabuti.

Durante a ditadura militar, com ousadia e coragem, enfrentou os tabus, a censura e ganhou prêmios por denunciar tortura de presos comuns nas delegacias de Belo Horizonte. “Todos os dias a miséria humana é jogada na nossa cara. Todos os dias”, dizia.

Como jornalista, Piroli foi um guerreiro. Trabalhou duro para manter a família, às vezes em três turnos. Entrava e saía de jornais sem perder a dignidade e os companheiros. Foi fiel ao primeiro editor de seus livros, mesmo quando começou a ser cortejado por casas de prestígio. Levou sempre com ele os colegas de empreitadas para onde fosse.

Diz a lenda que nas redações em que foi editor, não faltava um garrafão de pinga debaixo de sua mesa e, em uma delas, até um pato circulava livremente entre as máquinas de escrever. O escritor, que tinha uma relação descompromissada com a literatura: “Pescar é mais importante que escrever. Escrever faz mal para a saúde. Não conheço uma só pessoa que se tenha tornado melhor com a literatura; geralmente, piora.”

O jornalista publicou sete livros em vida, deixando dezoito livros inéditos após sua morte, em 2006. São eles: A mãe e o filho da mãe (1966); O menino e o pinto do menino (1975); Os rios morrem de sede (1976); Macacos me mordam (1977); A máquina de fazer amor (1980) e Minha bela putana (1984).

Piroli morreu no dia 3 de junho de 2006, em Belo Horizonte, de parada respiratória após ter sofrido um AVC. Hoje, pouca gente lembra dele. O escritor foi mais um da extensa lista de talentos esquecidos após a morte.

Tags: ColunaEdiel Ribeiro
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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