O Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) aprovou, por unanimidade, nesta quinta-feira (13), a revogação do título de Doutor Honoris Causa concedido ao diplomata norte-americano Lincoln Gordon. A homenagem havia sido aprovada em 1968, quatro anos depois do golpe que derrubou o presidente João Goulart.
Gordon foi embaixador dos Estados Unidos no Brasil entre 1961 e 1966 e teve atuação direta nas articulações de Washington durante a crise política que antecedeu o golpe de 1964.
Documentos oficiais norte-americanos posteriormente tornados públicos mostram que o diplomata manteve o governo dos Estados Unidos informado sobre as articulações contra Goulart e discutiu formas de apoio aos grupos que se movimentavam para derrubar o presidente brasileiro.
A própria UFRJ já havia destacado, a partir de documentos encontrados pelo historiador Carlos Fico em arquivos norte-americanos, que Gordon participou da elaboração de um plano de contingência para o Brasil e discutiu diferentes cenários para a queda de João Goulart.
Embaixador pediu apoio aos opositores de Jango
Um dos documentos mais reveladores foi enviado por Gordon a Washington em 28 de março de 1964, poucos dias antes da deposição de Goulart.
O embaixador defendia preparativos para fornecer apoio às forças contrárias ao governo. Documentos desclassificados mostram ainda que Washington trabalhava com a possibilidade de entrega clandestina de armas e preparação de apoio logístico caso houvesse resistência ao movimento militar.
A movimentação culminou na Operação Brother Sam, preparada pelo governo do presidente Lyndon Johnson.
Em 31 de março, quando tropas comandadas pelo general Olímpio Mourão Filho já haviam iniciado o deslocamento de Minas Gerais em direção ao Rio de Janeiro, os Estados Unidos colocaram em marcha uma operação para apoiar as forças que se levantavam contra Goulart.
O plano previa o deslocamento de uma força naval, incluindo porta-aviões e destróieres, além de navios-tanque com combustível e uma operação aérea para transportar material. Documentos oficiais do próprio Departamento de Estado norte-americano confirmam que o Estado-Maior Conjunto deu à operação o nome Brother Sam.
A rápida vitória dos golpistas e a decisão de João Goulart de não promover uma resistência armada fizeram com que o apoio militar norte-americano não precisasse ser utilizado em território brasileiro.
Reconhecimento rápido do novo regime
A atuação de Gordon continuou depois da derrubada de Jango. Documentos oficiais registram que ele defendeu que Washington reconhecesse rapidamente o novo governo.
Em 1967, o próprio Lyndon Johnson recordou que havia reconhecido prontamente o regime instalado no Brasil por forte recomendação de Lincoln Gordon.
Outro registro do Departamento de Estado mostra que, quando Gordon recebeu a informação de que as forças favoráveis ao golpe haviam assumido o controle e que Goulart estava a caminho do Uruguai, reagiu com um “Cheers!”, expressão de comemoração.
A ditadura instalada após o golpe permaneceria no poder até 1985, período marcado por cassações políticas, censura, perseguições, prisões, torturas, mortes e desaparecimentos de opositores.
Lincoln Gordon morreu em 2009, aos 96 anos.
Com a decisão tomada agora pelo Conselho Universitário, a UFRJ retira oficialmente uma homenagem concedida ao diplomata em pleno período da ditadura, décadas antes da divulgação dos documentos que revelariam em detalhes sua participação nas articulações norte-americanas em torno da derrubada de João Goulart.


