O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral americano ao afirmar que a China promoveu “a maior violação da história” contra as eleições do país e ao sugerir que o modelo atual de votação permanece vulnerável a fraudes e interferências estrangeiras.
Em pronunciamento em rede nacional na noite de quinta-feira (16), Trump afirmou que documentos recentemente desclassificados comprovariam que Pequim teve acesso ilegal aos dados de aproximadamente 220 milhões de eleitores americanos, incluindo nomes, endereços e outras informações cadastrais. Segundo o presidente, o episódio representaria uma ameaça sem precedentes à democracia dos Estados Unidos.
Embora tenha evitado declarar explicitamente que não reconhecerá futuros resultados eleitorais, Trump voltou a afirmar que o sistema eleitoral norte-americano permanece vulnerável e defendeu mudanças profundas nas regras de votação, reacendendo um discurso que marcou sua trajetória política desde a eleição presidencial de 2020.
Discurso revive contestação das eleições
Durante o pronunciamento, Trump sustentou que as eleições americanas precisam ser reformadas para impedir novas interferências estrangeiras e voltou a defender a aprovação do chamado SAVE America Act, projeto que exige comprovação de cidadania para o registro de eleitores e endurece os mecanismos de verificação eleitoral.
Ao longo do discurso, o presidente repetiu críticas ao voto por correspondência, às máquinas de votação e ao atual modelo de administração das eleições pelos estados, afirmando que o país precisa recuperar a confiança no processo eleitoral.
A fala ocorre a poucos meses das eleições legislativas de novembro, consideradas decisivas para o controle do Congresso americano.
Inteligência americana não confirma alegações
As declarações do presidente, entretanto, entram em conflito com avaliações produzidas anteriormente pela própria comunidade de inteligência dos Estados Unidos.
Segundo um relatório divulgado em 2021 — elaborado durante o governo Trump e supervisionado pelo então diretor de Inteligência Nacional —, não foram encontradas evidências de que qualquer país estrangeiro tenha alterado votos ou interferido no resultado da eleição presidencial de 2020.
A Reuters informa que os documentos recentemente desclassificados citados por Trump apontariam vulnerabilidades na infraestrutura eleitoral, mas não demonstram que a China tenha modificado votos ou alterado o resultado das eleições.
Diversos especialistas em segurança eleitoral ouvidos pela imprensa americana afirmam que a divulgação dos documentos não apresenta provas inéditas capazes de sustentar as conclusões defendidas pelo presidente.
China reage e chama acusações de “fabricadas”
O governo chinês rejeitou imediatamente as declarações.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que Pequim “nunca interferiu nem pretende interferir nas eleições dos Estados Unidos” e classificou as acusações como “inteiramente fabricadas”.
Segundo o governo chinês, Washington utiliza alegações sem fundamento para ampliar tensões políticas e diplomáticas entre os dois países.
Declarações aumentam tensão política
A nova ofensiva de Trump ocorre em um momento de queda de popularidade do governo, pressionado por críticas relacionadas ao conflito com o Irã, à economia e à inflação.
Analistas políticos americanos avaliam que a estratégia do presidente busca colocar a segurança eleitoral no centro da campanha para as eleições legislativas, mobilizando um tema que continua tendo forte apoio entre sua base eleitoral.
Pesquisa Reuters/Ipsos citada pela agência mostra que 63% dos eleitores republicanos ainda acreditam que a eleição presidencial de 2020 foi fraudada, apesar de dezenas de decisões judiciais e investigações oficiais não terem encontrado evidências de fraude em escala suficiente para alterar o resultado do pleito.
Debate reacende temor sobre aceitação dos resultados
Embora Trump não tenha declarado que deixará de reconhecer futuras derrotas eleitorais, o conteúdo do pronunciamento reacendeu o debate sobre sua disposição de aceitar os resultados das urnas.
Desde a eleição de 2020, o presidente questiona repetidamente a confiabilidade do sistema eleitoral americano e afirma que reformas profundas são necessárias para garantir eleições “livres e justas”.
Críticos afirmam que esse discurso pode enfraquecer a confiança pública nas instituições democráticas antes mesmo da realização das eleições de novembro. Já aliados de Trump sustentam que o presidente apenas defende medidas para aumentar a segurança e a transparência do processo eleitoral.


