O anúncio de uma nova tarifa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos provocou forte reação da indústria nacional e reacendeu o debate sobre a atuação da família Bolsonaro em Washington.
A medida foi oficializada pelo governo de Donald Trump nesta quinta-feira (16) e entrará em vigor em 22 de julho. A sobretaxa alcançará milhares de mercadorias brasileiras, incluindo produtos industriais e agropecuários, e se soma a uma sequência de pressões comerciais adotadas pelos Estados Unidos contra o Brasil.
Embora o governo norte-americano apresente justificativas comerciais para a decisão, o agravamento das relações entre os dois países não pode ser dissociado da movimentação promovida nos Estados Unidos pelos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Eduardo Bolsonaro atuou diretamente junto a integrantes do governo Trump e setores da direita norte-americana em busca de sanções contra autoridades brasileiras e de pressão internacional sobre o Supremo Tribunal Federal. A mobilização tinha como um de seus objetivos interferir no ambiente político e jurídico em torno do julgamento de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Em junho deste ano, Eduardo foi condenado pelo STF por buscar a interferência do governo norte-americano no processo envolvendo o pai.
Pressão externa para defender Jair Bolsonaro
A primeira grande ofensiva tarifária promovida por Donald Trump contra o Brasil, em 2025, foi apresentada pelo próprio governo norte-americano como uma resposta ao processo judicial contra Jair Bolsonaro.
Naquele momento, Trump adotou tarifas de 50% sobre diversos produtos brasileiros e vinculou publicamente a medida ao tratamento dado pelo Judiciário brasileiro ao ex-presidente, seu aliado político. Parte dessas tarifas foi posteriormente retirada, especialmente sobre produtos como café e carne bovina.
A atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos buscou exatamente transformar o julgamento do pai em uma questão internacional, recorrendo a pressões econômicas e diplomáticas sobre o Brasil.
A estratégia, no entanto, produziu consequências que ultrapassaram a família Bolsonaro e passaram a atingir empresas, trabalhadores e setores inteiros da economia brasileira.
Flávio tenta se afastar do desgaste
Mais recentemente, Flávio Bolsonaro também passou a atuar diretamente em Washington. O senador e pré-candidato à Presidência participou de audiência promovida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, para discutir a nova tarifa de 25%.
Diante do desgaste político provocado pelas sobretaxas no Brasil, Flávio tentou se afastar da medida e pediu ao governo Trump que adiasse a aplicação das tarifas para depois das eleições presidenciais brasileiras.
O pedido revelou a preocupação eleitoral do senador. Segundo a Reuters, Flávio buscava se distanciar de uma política comercial que vinha sendo associada ao grupo bolsonarista e que poderia beneficiar politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Durante a audiência, o senador também defendeu o Pix e argumentou contra a adoção da nova sobretaxa. A mudança de postura ocorreu depois de meses em que integrantes da família Bolsonaro apoiaram pressões externas contra o Brasil como instrumento de defesa do ex-presidente.
Governo americano apresenta justificativa comercial
Na decisão divulgada nesta quinta-feira, o governo dos Estados Unidos afirmou que a tarifa foi adotada com base na investigação realizada pelo USTR sob a Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana.
Washington acusa o Brasil de adotar práticas consideradas prejudiciais às empresas dos Estados Unidos em áreas como comércio digital, sistemas de pagamentos eletrônicos, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, combate ao desmatamento e políticas anticorrupção.
O governo brasileiro rejeita as acusações e sustenta que as justificativas não possuem base técnica suficiente para a imposição das barreiras.
A relação comercial também contraria a ideia de que os Estados Unidos estariam sendo prejudicados pelo Brasil. O mercado norte-americano mantém historicamente superávit no comércio bilateral, ou seja, vende mais produtos ao Brasil do que compra.
Café, carne e aeronaves ficam fora da taxação
Apesar da sobretaxa, o governo norte-americano ampliou a lista de exceções, preservando produtos considerados estratégicos para sua própria economia e cadeias produtivas, como café, carne bovina, suco de laranja, aeronaves e componentes aeroespaciais.
Também foram excluídos alguns produtos energéticos, minerais, terras raras e insumos que não são produzidos em quantidade suficiente nos Estados Unidos.
A lista de mercadorias isentas ultrapassa dois mil itens e representa cerca de US$ 11 bilhões em comércio anual, segundo a Reuters. A exclusão desses produtos reduz o alcance econômico da medida, mas não elimina os impactos sobre setores importantes da indústria brasileira.
Entre os produtos que poderão ser atingidos estão açúcar, máquinas, equipamentos, produtos de madeira e parte dos bens manufaturados exportados ao mercado norte-americano.
Fiesp vê perda de competitividade
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo afirmou que recebeu a decisão com profunda preocupação.
Para a Fiesp, a aplicação da tarifa exclusivamente sobre os produtos brasileiros coloca o país em desvantagem diante de concorrentes globais que continuarão vendendo para os Estados Unidos sem o mesmo custo adicional.
A entidade anunciou que pretende ampliar a articulação com empresas e representantes norte-americanos para buscar a reversão das tarifas ou a inclusão de mais produtos na lista de exceções.
Fiemg cobra diálogo e responsabilidade
A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais também criticou a decisão e defendeu uma saída negociada.
A entidade destacou a importância dos Estados Unidos para a indústria manufatureira brasileira e alertou que o aumento das tarifas pode provocar perda de contratos, redução das exportações e substituição de fornecedores brasileiros por concorrentes de outros países.
A Fiemg defendeu serenidade, diálogo e responsabilidade nas relações comerciais, especialmente diante da dependência de empresas mineiras do mercado norte-americano.
CNI alerta para agravamento das perdas
O presidente da Confederação Nacional da Indústria, Ricardo Alban, afirmou que os efeitos das barreiras comerciais já vinham sendo sentidos antes mesmo da nova tarifa.
Segundo a CNI, 20 dos 27 estados brasileiros reduziram suas exportações para os Estados Unidos no primeiro trimestre. Com a sobretaxa de 25%, a tendência é de aprofundamento das perdas e de redução ainda maior da competitividade dos produtos nacionais.
A entidade defende que o governo brasileiro mobilize todos os canais diplomáticos e comerciais para tentar reverter a medida.
Pressão contra o país produz custos internos
A nova tarifa mostra que a estratégia bolsonarista de recorrer a governos estrangeiros para pressionar instituições brasileiras não ficou restrita ao campo político.
O movimento iniciado como tentativa de proteger Jair Bolsonaro e constranger o STF ajudou a criar um ambiente favorável ao uso de sanções econômicas contra o Brasil.
Não há comprovação de que a nova tarifa de 25% tenha sido determinada exclusivamente pela atuação de Eduardo ou Flávio Bolsonaro. A decisão formal se apoia em uma investigação comercial do governo norte-americano.
Mas é fato que a ofensiva da família Bolsonaro em Washington contribuiu para politizar as relações entre os dois países, aproximou o julgamento do ex-presidente da agenda do governo Trump e transformou medidas contra a economia brasileira em instrumento de pressão política.
O resultado agora é sentido pelo setor produtivo, que teme perder espaço no mercado norte-americano por uma disputa que começou com a tentativa de interferir no julgamento de Jair Bolsonaro e passou a atingir empresas, empregos e exportações brasileiras.
Brasil avalia reação
O governo Lula classificou a medida como injusta e politicamente motivada. Brasília afirma que continuará buscando uma solução negociada, mas não descarta recorrer à Organização Mundial do Comércio e adotar medidas com base na Lei da Reciprocidade Econômica.
A aplicação da tarifa em 22 de julho deve marcar uma nova fase da crise entre os dois países. De um lado, o Brasil tenta preservar suas exportações. Do outro, o governo Trump mantém a estratégia de utilizar barreiras comerciais como instrumento de pressão econômica e política.


