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Home Colunas

STEINBERG, SEM PALAVRAS

Por Ediel Ribeiro
19 de junho de 2023 - 07:30
em Colunas

Divulgação - 

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Rio de Janeiro – No início da carreira, Millôr Fernandes copiava Saul Steinberg, por quem tinha uma escancarada admiração.

Não só Millôr. Ziraldo, Jaguar, Luiz Fernando Veríssimo, Claudius, eu e tantos outros. Embora Jaguar diga que sua influência vem do Trez – cartunista francês – a verdade é que o velho editor do Pasquim “chupava” os desenhos do Steinberg das velhas revistas ‘Punch’, ‘The New Yorker’ e ‘Paris Match’.

Jaguar faz parte do grupo de cartunistas da “geração Pasquim” que se destacaram na década de 1950 e cujo trabalho sofreu influência do desenho de estilo simples, sintético, e de traço fino feito à bico de pena do cartunista  Saul Steinberg. Era comum ver Jaguar, em sua mesa, na redação do ‘Pasquim’, folheando as velhas revistas que traziam os desenhos do genial cartunista romeno. 

Outro grande fã de Steinberg, é Ziraldo. O pai do ‘Menino Maluquinho’ chegou a compará-lo a Picasso. E olha que o cartunista mineiro tinha motivos de sobra para odiar o romeno.

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Ziraldo conta que quando passou uns tempos em Nova Iorque,  foi a casa de Steinberg na esperança de conhecê-lo pessoalmente. Bateu na porta mas ele não atendeu. Ziraldo, então, escreveu um bilhete e colocou por baixo da porta.

Passados alguns dias, Ziraldo resolveu ligar para ele: “Olá, Steinberg! Eu sou o cartunista brasileiro que deixou o bilhete embaixo da sua porta. Estou de volta ao Brasil, mas antes gostaria de conhecê-lo pessoalmente…”

“Não. Agora não dá” – disse, Saul batendo o telefone.

Nem com a ajuda providencial de um amigo em comum, Steinberg aceitou receber o Ziraldo.

O cartunista voltou ao Brasil sem conhecer de perto seu ídolo. Mas nem isso diminuiu a admiração do cartunista brasileiro pelo romeno.

Saul Steinberg foi um cartunista norte-americano, nascido na cidade de Ramnicu Sarat, na Romênia, em 15 de junho de 1914, e radicado nos Estados Unidos,  famoso, principalmente, por suas ilustrações para a revista estadunidense ‘The New Yorker’.

Cronista da vida urbana americana, Steinberg, sem usar palavras, foi um dos mais importantes propagadores do ‘American way of life’, publicando seu traço em revistas de destaque do cenário mundial, em especial na ‘The New Yorker’, mas também em  ‘Life’, ‘Time’, ‘Harper’ s Bazaar’, entre outras.

Steinberg era um homem de feições sérias. Nunca ria.  Sua fisionomia triste refletia a sua personalidade. Judeu, paranóico e ansioso por uma vida de paz na América, não conseguiu o sossego que buscava: andava sempre com o passaporte, alguns diamantes e uma passagem no bolso, para caso de emergência. 

A famosa capa para a ‘The New Yorker’ que mostrava a visão do mundo segundo o americano médio, “O mundo visto da 9.a Avenida” (View of the World from 9th Avenue) foi uma das imagens mais plagiadas das artes gráficas. Seus personagens mais comuns, eram homenzinhos narigudos que, provavelmente, inspiraram boa parte da produção posterior de cartum, animação e propaganda. 

Observando a obra de Steinberg é nítido que ele foi muito além desses dois ícones, Saul desenvolveu uma variedade enorme de abordagens e experimentações gráficas. Sua influência – constantemente citada – é perceptível na obra de muitos artistas gráficos, ilustradores e cartunista pelo mundo. 

Tal condição de referência não ocorre à toa; Steinberg participou de uma “ruptura” na cultura do desenho editorial, desenvolvendo um trabalho de maior amplitude gráfica, caracterizado pela síntese, maior integração entre forma e conteúdo e ausência de palavras. 

Dessa ruptura tomaram parte não apenas cartunistas estrangeiros como André François e Tomi Ungerer, mas também os brasileiros da “geração Pasquim”. 

Em 1952, o artista visitou o Brasil e, a convite de Pietro e Lina Bo Bardi, expôs no MASP – Museu de Arte de São Paulo. Steinberg e sua esposa Hedda Sterne visitaram São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Manaus, Belém, Recife e Natal. 

O artista  produziu, em dezembro de 1940 a capa da primeira edição de uma publicação brasileira, a revista ‘Sombra’ – provavelmente, a primeira de sua carreira. 

Autor de centenas de capas de revistas em todo o mundo, nos Estados Unidos, sua primeira capa, para The New Yorker, foi publicada em 1945. 

Editada mensalmente na cidade do Rio de Janeiro, entre dezembro de 1940 e junho de 1960, a revista ‘Sombra’ teve Walther Quadros como diretor responsável e Aloysio de Salles como redator chefe, sendo depois substituído por Lucio Rangel.

A revista tinha colaboradores como Mário de Andrade, Stefan Zweig, Vinicius de Moraes, Di Cavalcanti, Jean Manzon, Sérgio Porto, Cecília Meireles, Athos Bulcão e Enrico Bianco, entre muitos outros.

A redação funcionava na Rua México, 98, 4º andar, tendo correspondentes em Paris e Nova Iorque. A ‘Sombra’ tinha envergadura literária e destacava-se também pelo refinamento visual, que refletia as tendências do design internacional em suas  matérias sobre cultura, artes, moda, além de poemas, contos e coluna social.

Steinberg faleceu em Nova Iorque, nos EUA, no dia 12 de maio de 1999.

Tags: ColunaEdiel Ribeiro
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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