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Home Colunas

SOLEDAD BARRETT, POETA E GUERRILHEIRA

Por Ediel Ribeiro
2 de setembro de 2022 - 07:31
em Colunas

Divulgação - 

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Rio de Janeiro – O poeta é um caçador de palavras. 

Outro dia, caçando palavras, mergulhei no livro “Do Que Foi Pra Ser Agora”, da poeta Ñasaindy Barrett.

Logo nas primeiras páginas, achei essa pérola: “A chuva caiu tão bela quanto foi a sua espera.” 

A autora da frase, Ñasaindy Barrett é filha da poeta, intelectual e militante paraguaia, integrante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR),  Soledad Barrett Viedma que lutou contra a ditadura militar no Brasil. 

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Em tempos sombrios, em que a extrema direita brasileira pede a volta da Ditadura Militar, vale a pena lembrar a trágica história da jovem Soledad Barrett, cruelmente torturada e morta  em Pernambuco, no dia 07 de janeiro de 1973, pela ditadura, num episódio que ficou conhecido como “Chacina da Chácara de São Bento”.

Filha de Alejandro Rafael Barrett López e neta do escritor e líder anarquista espanhol Rafael Barrett – que ficou conhecido por denunciar as injustiças sociais, em especial o regime de escravidão dos trabalhadores mais pobres -, Soledad tinha dois irmãos: Jorge Barrett, conhecido como Mitaí, e Nanny Barrett.

Soledad nasceu em 1º de janeiro de 1945, na cidade de Laureles, no sul do Paraguai e durante toda a vida esteve envolvida em movimentos de esquerda. Quando Soledad tinha apenas 3 meses, devido à perseguição política, sua família se exilou na Argentina.  Em 6 de julho de 1962, com apenas 17 anos, foi sequestrada pelo comando neonazista uruguaio, Los Salvajes.  O grupo marcou a suástica nazista em suas coxas após ela, judia, se negar a repetir a frase “Viva Hitler, Abaixo Fidel!”.   

Ainda adolescente, começou a atuar como militante em vários grupos políticos juvenis vinculados à Frente Juvenil-Estudiantil de Asunción. Na área da cultura, Soledad destacou-se no canto e na dança, tornando-se um símbolo da juventude paraguaia. Pouco depois,  muda-se para Moscou, para estudar na escola do Komsomol por um ano. Na Argentina, militou pelo Partido Comunista Paraguaio. 

Em 1967, a militante viaja a Cuba, onde recebe treinamento militar com a guerrilha e conhece o brasileiro José Maria Ferreira de Araújo. Soledad e Ferreira iniciam um namoro e do relacionamento nasce Ñasaindy Barrett de Araújo, em 1969, em Havana. 

Em julho de 1970, Ferreira é assassinado no Brasil, onde veio para se juntar à luta contra a ditadura. Sem notícias do companheiro, Soledad vem para o país na tentativa de encontrá-lo.

No Brasil, Soledad passou a estudar a política brasileira, decidiu ficar no país. Se filiou à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), um movimento brasileiro contra o regime ditatorial. 

Após  a morte do marido, Soledad é enviada para Recife (PE) onde  inicia um relacionamento com o Cabo Anselmo. Anselmo foi dirigente da Associação de Marinheiros quando o golpe de estado contra João Goulart aconteceu e ficou conhecido como herói pelos companheiros.

No entanto, durante a ditadura instaurada no Brasil, em 1964, ele passou a atuar como agente duplo atuando como infiltrado para poder delatar seus companheiros.  Em 8 de janeiro de 1973,  Anselmo  – que entrou para a história brasileira como uma das figuras mais execráveis do período – delatou vários companheiros à ditadura, entre eles, a própria Soledad, grávida de 4 meses.

Segundo os militares, eles foram mortos em confronto na chácara São Bento, evento que passou a ser chamado de “Chacina da Chácara de São Bento”.

Junto de Soledad, também foram assassinados Pauline Reichstul, Eudaldo Gómez da Silva, Jarbas Pereira Márquez, José Manoel da Silva e Evaldo Luiz Ferreira, todos integrantes do VPR.

Em depoimento prestado à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), em 1996, pela advogada Mércia de Albuquerque Ferreira – que teve acesso aos corpos de vítimas no necrotério – a advogada relatou que o corpo de Soledad foi encontrado em um barril com quatro tiros na cabeça, muito sangue nas coxas, pernas e no fundo do recipiente havia o feto de seu filho. 

Apesar de ter o corpo  reconhecido pelos órgãos de segurança, a militante foi sepultada como indigente no Cemitério da Várzea, em Recife.

Seu último poema, dedicado a mãe: 

“Mãe, me entristece te ver assim
O olhar quebrado dos teus olhos azul céu
Em silêncio implorando que eu não parta.
Mãe, não sofras se não volto.
Me encontrarás em cada moça do povo
Deste povo, daquele, daquele outro
Do mais próximo, do mais longínquo
Talvez cruze os mares, as montanhas
Os cárceres, os céus mas, 
Mãe, eu te asseguro,
Que, sim, me encontrarás!
No olhar de uma criança feliz
De um jovem que estuda
De um camponês em sua terra
De um operário em sua fábrica
Do traidor, na força do guerrilheiro em seu posto,
Sempre, sempre me encontrarás!
Mãe, não fiques triste,
Tua filha te quer.” 

Soledad estará sempre entre nós. Ditadura nunca mais.

Tags: ColunaEdiel Ribeiro
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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