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Home Colunas

Rio de Janeiro sob a lama

Por Lenin Novaes
30 de agosto de 2019 - 08:59
em Colunas

As ações da PM de abate nas comunidades carentes, ordenadas por Wilson Witzel, são criticadas por instituições que defendem os direitos humanos (Foto Reproução da Internet)

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– Athaliba, uma amiga, Maria da Guia, me enviou carta contando que a Cidade Maravilhosa está, literalmente, sob a lama da podridão das mazelas políticas e sociais. Ela me faz apelo para você esquecer provisoriamente de enfocar a retrógrada Alucard do Mato Dentro em suas crônicas e fazer uma reportagem de denúncia sobre a situação nefasta que assola, aflige, arruína a vida do povo carioca e publicar no jornal O Folha de Minas.

– Marineth, o Rio de Janeiro, infelizmente, há anos, está no centro da catastrófica situação que abala os alicerces democráticos do Brasil. É muita desgraça por aí, agravada, principalmente, no governo do Jair Messias. A cada dia aumenta a quantidade de brasileiros que “foge” da crise do país. Em 2011 mais de 8,1 mil declarações de saída definitiva do Brasil foram contabilizadas pela Receita Federal, enquanto o número subiu para 21,7 mil (mais que dobrou) em 2017.

– Meu guerreiro Athaliba, sabemos que essa debandada geral é de famílias endinheiradas. Investimentos de brasileiros em imóveis no exterior quase dobraram de 2011 para 2016 de US$ 3.6 bilhões para US$ 6.1 bilhões, conforme dados do Banco Central. Os EUA são o país favorito, onde foram investidos US$ 2,3 bilhões em imóveis, em 2016, seguido de Portugal, com US$ 725 milhões; França, com US$ 589 milhões; e Itália, com US$ 290 milhões.

– Pois é, Marineth. Quem não tem capilé, papel bordado, que se dane de verde e amarelo, como nós, né? Ou então que se aventure à clandestinidade que, por exemplo, levou 334 dos 587 brasileiros prisioneiros nos EUA detidos por problemas de imigração, conforme dados de 2018 do Itamaraty. No ano de 2010, o Censo do IBGE estimou em 500 mil a quantidade de compatriotas que viviam no exterior, ao mesmo tempo em que o Ministério das Relações Exteriores calculou em 2,5 milhões. Sabe-se lá qual é a real quantidade de tupiniquins que meterem o pé do Brasil!!! O fato é que a “fuga” em massa se dá por todas as porteiras do nosso imenso curral.

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– Athaliba, não seja tão ácido, amargo, cítrico. Quem sabe essa situação possa se reverter antes que nossa esperança morra de tédio, inapetência, fastio. Vamos resistir a ferro e fogo. O Brasil ainda será uma China topical. Quem viver verá, paixão.

– Tá bem, Marineth. Por enquanto. Cadê a carta da Maria da Guia? Nos dias atuais é coisa rara alguém escrever carta e postar nos Correios.

– Athaliba, nem todos brasileiros usufruem dos serviços de preços exorbitantes da internet. Tem milhares de famílias que não têm sequer luz elétrica, água potável e rede de esgoto. Milhões de famílias por todo o Brasil não possuem condições habitacionais adequadas, associada à falta de saúde e educação, acossadas pela criminalidade e violência. São milhares de “casas” fincadas em aterros sanitários, lixões e áreas contaminadas; outras erguidas nas imediações de linhas de alta tensão elétrica, junto a oleodutos e gasodutos; penduradas em encostas de morros, em áreas alagadas e sob os viadutos.

– Marineth, basta! A minha indignação pode explodir em justas ações de guerrilha para abolir essa situação indigna que nos submete à sobrevivência em condições desumanas. A epístola da Maria da Guia descreve exatamente isso. Ela relata que, além da Favela da Muzema, na Barra da Tijuca, as milícias, que incluem ex-Policiais Militares e agentes públicos, exploram a construção de imóveis irregulares na área da Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá. Lá, no condomínio “Minha casa, minha vida”, os milicianos roubam as casas, ameaçando os moradores de morte se fizer denúncia à polícia. O Rio de Janeiro está dominado pelas milícias.

– Calma, por favor, Athaliba. Sei que não tem sido fácil suportam essa conjuntura nacional. François Marie Arouet, o Voltaire, em o “Cândido ou o otimismo” diz que “se você cala, então, consente e nada muda, mas, se você grita, certamente, o seu grito vai ecoar em algum lugar”. E isso, amigo, significa que o grito pode semear o vento e levar o povo a beber a tempestade.

– Aceito sua ponderação, Marineth. A sua amiga expõe a tragédia da saúde, da educação e da cultura. Sobre a falta de segurança, ela narra que o governador Wilson Witzel – ele celebrou a morte do sequestrador do ônibus na Ponte Rio-Niterói, abatido por atirador de elite, como se comemorasse o gol da vitória do seu time de futebol -, estimula a matança de pessoas moradoras de comunidades nas ações da PM. Falou até em jogar míssil em favela para explodir as pessoas.

– É verdade, Athaliba. Numa solenidade na Baixada Fluminense (região de alto índice de criminalidade), Witzel declarou em alto e bom som que “o vagabundo bandido quer atalho e aí, nós, cidadãos, não vamos aceitar isso. A nossa polícia, ela não quer matar. Mas, nós, não queremos ver cenas como aquelas que nós vimos na Cidade de Deus, que, se fosse com autorização da ONU, em outros lugares do mundo, nós tínhamos autorização para mandar um míssil naquele local e explodir aquelas pessoas”. Isso é o cúmulo do absurdo.

– Marineth, a carta da sua amiga, na descrição dos problemas que coloca o Rio de Janeiro sob o lamaçal político, com graves destroços sociais, é uma síntese das mazelas que inviabilizam o crescimento e desenvolvimento do Brasil. Fale com ela que compartilho minha indignação e que ouça “Terra plana” de Geraldo Vandré, como estímulo à luta para construirmos o poder popular no Brasil.

“Meu Senhor, minha Senhora…

(Falado) Me pediram pra deixar de lado toda a tristeza, pra só trazer alegrias e não falar de pobreza. E mais, prometeram que se eu cantasse feliz, agradava com certeza. Eu que não posso enganar, misturo tudo o que vi. Canto sem competidor, partindo da natureza do lugar onde nasci. Faço versos com clareza, à rima, belo e tristeza. Não separo dor de amor. Deixo claro que a firmeza do meu canto vem da certeza que tenho, de que o poder que cresce sobre a pobreza e faz dos fracos riqueza, foi que me fez cantador.

Meu Senhor, minha Senhora…

Vou indo esse mundo afora
Num canto que é tão dolente
E mesmo se está contente
Fala sempre e a toda hora
Quase num tom de quem chora

Eu sou de uma terra plana
De um céu fundo e um mar bem largo
Preciso de um canto longo
Pra explicar tudo que digo
Pra nunca faltar comigo
E lhe dar tudo o que trago

Aos pés de muitas igrejas
Lá você vai encontrar
Esperança e caridade
Querendo se organizar
Mil cegos pedindo esmola
E a Terra inteira a rezar

Se um dia eu lhe enfrentar
Não se assuste capitão
Só atiro pra matar
E nunca maltrato não
Na frente da minha mira
Não há dor nem solidão
E não faço por um castigo
Que a Deus cabe castigar
E se não castiga ele
Não quero eu o seu lugar
Apenas atiro certo
Na vida que é dirigida
Pra minha vida tirar”

Tags: Rio de JaneiroviolênciaWilson Witzel
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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