A construção do sistema de captação de água do Rio Tanque representa a maior obra de infraestrutura hídrica já executada em Itabira (MG). Com investimento estimado em cerca de R$ 1,1 bilhão, financiado pela mineradora Vale, o empreendimento pretende ampliar de forma significativa a oferta de água para o município, que nos últimos anos passou a enfrentar dificuldades cada vez mais frequentes no abastecimento.
O projeto prevê a captação de água no Rio Tanque e a condução desse volume até Itabira por meio de uma adutora de aproximadamente 25 quilômetros, até chegar à nova estação de tratamento de água com capacidade estimada de 600 litros por segundo. O volume é superior ao consumo médio atual do município, estimado em cerca de 400 litros por segundo. A estrutura inclui ainda três estações elevatórias de bombeamento e reservatórios.
O empreendimento faz parte de um acordo firmado em 2020 entre a Vale, o Ministério Público de Minas Gerais, a prefeitura de Itabira e o Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Itabira. Pelo acordo, a mineradora financia a implantação da infraestrutura e, após a conclusão, o sistema será operado pelo SAAE.
A previsão oficial é que o projeto seja concluído até 2027.
Crise hídrica expôs limite do sistema atual
A necessidade de ampliar a capacidade de abastecimento da cidade ficou evidente em 2024, quando Itabira enfrentou uma das piores crises hídricas de sua história recente.
Durante semanas, bairros inteiros ficaram sem abastecimento regular. Moradores relataram dificuldades para realizar atividades básicas do cotidiano e, em alguns casos, precisaram recorrer a comunidades rurais para conseguir água para banho e limpeza doméstica.
A crise evidenciou a fragilidade estrutural do sistema existente. A principal estação de tratamento de água do município, a ETA Pureza, foi inaugurada em 1973, quando Itabira tinha cerca de 56 mil habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Cinco décadas depois, a população mais que dobrou e o consumo de água cresceu de forma significativa, pressionando um sistema concebido para uma realidade muito diferente da atual.

Projeto foi discutido por mais de duas décadas
A alternativa de captar água no Rio Tanque não surgiu recentemente. Estudos técnicos sobre novas fontes de abastecimento para Itabira começaram a ser discutidos ainda nos anos 2000.
Naquele período, especialistas já apontavam que os mananciais utilizados pela cidade poderiam se tornar insuficientes diante do crescimento populacional e da expansão urbana.
Apesar dos alertas, a proposta permaneceu por muitos anos apenas no campo dos estudos. O principal obstáculo era o alto custo da obra, que envolve dezenas de quilômetros de adutora, estações de bombeamento e uma nova estrutura de tratamento de água.
Sem financiamento definido, o projeto acabou sendo sucessivamente adiado.
A situação mudou quando o tema passou a integrar negociações institucionais envolvendo a Vale e o Ministério Público, dentro de um conjunto de compromissos assumidos pela mineradora relacionados ao futuro do município.
Nova captação amplia segurança hídrica
A escolha do Rio Tanque como nova fonte de abastecimento levou em consideração critérios técnicos como vazão do rio, disponibilidade hídrica e viabilidade de implantação da infraestrutura necessária para transportar água até Itabira.
Com a conclusão do projeto, a cidade passará a contar com uma nova fonte hídrica capaz de ampliar de forma significativa a disponibilidade de água para o abastecimento público.
A capacidade projetada de 600 litros por segundo permitirá atender à demanda atual do município e criar uma margem de segurança para o crescimento da cidade nas próximas décadas.
Sistema exigirá bombeamento permanente
Apesar de ampliar a oferta de água, o novo sistema também cria um desafio operacional importante.
A água captada no Rio Tanque está localizada em uma área com altitude inferior à cidade de Itabira. Por essa razão, o sistema não poderá operar apenas por gravidade.
Para transportar a água até o município será necessário utilizar três estações elevatórias de bombeamento, que impulsionarão o volume ao longo de todo o trajeto da adutora.
Esse tipo de operação exige grande consumo de energia elétrica e manutenção permanente das bombas e equipamentos.

Embora o investimento na construção esteja sendo financiado pela Vale, os custos de operação do sistema serão assumidos pelo SAAE após a conclusão da obra.
Por isso, especialistas em saneamento apontam que o aumento das despesas operacionais poderá influenciar as discussões futuras sobre estrutura tarifária do serviço de abastecimento.
Até o momento, não há definição sobre eventual impacto na tarifa de água.
Licenciamento ambiental estabelece condicionantes
O projeto também passou por processo de licenciamento ambiental que estabeleceu medidas obrigatórias para reduzir os impactos da obra.
Entre as exigências estão programas de compensação ambiental, recuperação de áreas afetadas pela implantação da adutora e monitoramento da fauna e da vegetação ao longo do traçado do empreendimento.
O cumprimento dessas condicionantes deverá ser acompanhado pelos órgãos ambientais durante a execução das obras.
Transformação no sistema de abastecimento
Com investimento bilionário e uma nova fonte hídrica para a cidade, o projeto do Rio Tanque representa uma mudança estrutural no modelo de abastecimento de Itabira.
A obra busca enfrentar um problema que se agravou nas últimas décadas: o crescimento da cidade sem a ampliação proporcional da infraestrutura hídrica.
Quando concluído, o sistema deverá ampliar a segurança no abastecimento e reduzir o risco de novas crises hídricas no município.
Na próxima reportagem…
Na segunda parte desta reportagem especial, O Folha de Minas vai mostrar um problema que continua afetando diretamente o abastecimento da cidade: o alto índice de desperdício causado pelos vazamentos na rede de distribuição de água de Itabira.
A reportagem também vai explicar por que especialistas afirmam que reduzir perdas na rede pode ser tão importante quanto ampliar a captação de novos mananciais.






