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Home Colunas

Prisão invisível

Por Nilson Lattari
11 de setembro de 2026 - 07:44
em Colunas
Prisão invisível

Foto: Hasan Almasi / Unsplash

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Na minha opinião, as grandes invenções da humanidade foram o domínio do fogo, o uso da palavra, a moeda e a internet, e o elo de ligação entre elas é o que proporciona a reunião de pessoas. O fogo, além de alavancar ferramentas e nos servir no passado no passado, é importante até hoje. A palavra estabeleceu um novo código de transmissão de informação e uniu as pessoas em torno de um padrão linguístico. A moeda tem o seu papel como facilitadora dos negócios e também por ser o foco de muita gente. A internet foi o estopim que reuniu pessoas em todo o mundo que, talvez, sem ela, nunca teriam se conhecido, facilitou a comunicação entre culturas diferentes e alavancou negócios.

Dados todos esses conceitos, poderíamos dizer que a internet libertou a humanidade, mas, ao mesmo tempo, libertou os fantasmas que estavam escondidos em seus guetos espalhados pelo mundo. Ou seja, a internet, de roldão, revolucionou o mundo em que vivemos; para o bem e para o mal.

No caso, ela também criou as prisões sem grades. Tendo o mundo nas mãos, as pessoas se postam diante de uma tela iluminada e “veem” o mundo e também o conhecem através das viagens que outros fazem. As pessoas conhecem o mundo, mas não tocam nele, não sentem a emoção de estar nele e, sendo apenas uma visão superficial do mundo externo, o veem da segurança de uma cadeira em suas casas.

A informação sempre foi uma necessidade das pessoas. À volta do fogo,as novidades da comunidade, as aventuras do dia talvez fossem compartilhadas através de figuras ou gestos. A palavra facilitou a descrição dos fatos, e as formas de narrar deram e dão, até hoje, ênfase às aventuras. A moeda comprou as informações ou as vendeu, por trás de interesses ou não. A internet trouxe a informação em tempo real e conectou as pessoas ao mundo. Todo mundo é especialista em alguma coisa, e o fato se consuma na extrapolação da informação: as fake news.

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O fogo trouxe o poder de transformar, mas também o risco do acidente. A palavra, o poder de transmitir, de manipular, e muitos caíram por causa dela. A moeda facilitou a vida de muita gente, mas, ao mesmo tempo, criou a ambição desmedida. A internet proporcionou a pós-verdade, algo mais do que a simples verdade, que seria recontar a história a partir dos interesses pessoais ou comunitários.

Portanto, as coisas que poderiam nos trazer a liberdade nos trouxeram a instabilidade e a insegurança. Estamos presos, e agora mais do que nunca, à informação. Saber julgá-la é o grande desafio que temos pela frente.

A informação que nos chega de forma automática poderia ser o momento em que todos estaríamos livres. O problema é que quando temos a liberdade real não sabemos o que fazer com ela. Os alicerces morais e a ética entre povos se desfazem e estabelecemos um desencontro de informações a serviço de poucos e à destruição de muitos.

Apesar da riqueza de informações, nós temos que lidar com o perigo de lidar com ela de forma tão automática. O bombardeio é maior do que a capacidade que temos de discernir entre o falso e o verdadeiro, e não temos tempo para questionar.

Ao final de tudo, pelo menos até agora, a inteligência artificial entra no circuito e se transforma na grande vilã, travestida de salvadora da humanidade, para levar a humanidade, de volta, ao seu tempo de trevas.

Tags: fake newsinformaçãoInteligência ArtificialinternetMUNDO DIGITALNilson Lattariopiniãopensamento críticopós-verdadePrisão Invisívelredes sociaisTecnologia
Nilson Lattari

Nilson Lattari

Crônicas e Contos. NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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