O Brasil permanece fora do Mapa da Fome pelo segundo ano consecutivo e registrou novos avanços nos indicadores de segurança alimentar, segundo o relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo (SOFI 2026), divulgado nesta terça-feira (21) por cinco agências das Nações Unidas, entre elas a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).
O levantamento aponta que o país alcançou o menor índice já registrado de insegurança alimentar severa, de 0,6% da população, e que 16,7 milhões de brasileiros deixaram essa condição no triênio de 2023 a 2025. Também permaneceu abaixo do limite técnico de 2,5% da população em situação de subalimentação, critério utilizado pela FAO para definir quais países integram o chamado Mapa da Fome.
O resultado consolida a permanência do Brasil fora da lista de países com fome e marca a segunda vez na história em que o país alcança esse patamar.
Brasil deixou o Mapa da Fome pela segunda vez
A trajetória brasileira no indicador da ONU evidencia mudanças importantes ao longo das últimas décadas.
A primeira saída do Mapa da Fome ocorreu em 2014, durante o governo da então presidente Dilma Rousseff (PT). Na época, a FAO atribuiu o resultado à continuidade de políticas públicas implantadas ao longo de mais de uma década, como o fortalecimento da rede de proteção social, programas de transferência de renda, alimentação escolar, valorização do salário mínimo e apoio à agricultura familiar.
Anos depois, porém, o cenário mudou.
Com base nos dados do triênio 2018–2020, a ONU voltou a incluir o Brasil no Mapa da Fome, indicando aumento da população em situação de subalimentação. Esse período corresponde aos últimos meses do governo Michel Temer (MDB) e aos dois primeiros anos do governo Jair Bolsonaro (PL), marcados pela desaceleração econômica e pelos impactos da pandemia de Covid-19. A divulgação oficial da reinclusão ocorreu em 2022, quando Bolsonaro ainda ocupava a Presidência da República.
A segunda saída ocorreu com a divulgação do relatório da FAO referente ao triênio 2022–2024, anunciada em 2025, já durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Agora, o novo relatório mostra que o país conseguiu manter esse desempenho pelo segundo ano consecutivo.
Menor nível histórico de insegurança alimentar severa
Além de permanecer fora do Mapa da Fome, o Brasil alcançou outro marco importante.
Segundo o relatório, apenas 0,6% da população enfrentava insegurança alimentar severa no triênio encerrado em 2025, o menor percentual da série histórica utilizada pela ONU.
O estudo também indica melhora no acesso da população a uma alimentação saudável.
A proporção de brasileiros que não conseguem pagar por uma dieta considerada adequada caiu para 21,1%, enquanto o custo diário de uma alimentação saudável foi estimado em US$ 4,89 por pessoa, abaixo da média da América do Sul (US$ 4,94) e da América Latina e Caribe (US$ 4,91).
FAO atribui resultado a políticas públicas
Em artigo publicado pelas Nações Unidas no Brasil após a divulgação do relatório anterior, o representante da FAO no país, Jorge Meza, destacou que a saída do Brasil do Mapa da Fome decorreu da combinação de políticas de proteção social, geração de renda, alimentação escolar e fortalecimento da agricultura familiar.
Segundo ele, o país repetiu um processo semelhante ao observado na primeira saída do Mapa da Fome, em 2014, quando mais de uma década de investimentos em segurança alimentar reduziu a subalimentação para menos de 2,5% da população.
O governo federal também atribui os resultados recentes à retomada de programas como o Bolsa Família, ao Plano Brasil Sem Fome, ao fortalecimento da agricultura familiar e ao aumento real do salário mínimo.
Mundo ainda convive com mais de 640 milhões de pessoas passando fome
Apesar da melhora registrada no Brasil e em parte da América do Sul, a fome continua sendo um desafio global.
O relatório estima que 7,8% da população mundial enfrentou a fome em 2025, percentual inferior aos 8,1% registrados em 2024 e aos 8,6% observados em 2022.
Ainda assim, cerca de 645 milhões de pessoas permanecem em situação de fome no mundo.
A ONU alerta que conflitos armados, mudanças climáticas, inflação dos alimentos e crises econômicas continuam sendo os principais fatores que dificultam o cumprimento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável que prevê a erradicação da fome até 2030.
O que é o Mapa da Fome
O Mapa da Fome é elaborado pela FAO com base na Prevalência de Subalimentação (PoU), indicador que mede a parcela da população que, de forma habitual, não consome calorias suficientes para manter uma vida ativa e saudável.
Um país deixa de integrar o mapa quando apresenta índice inferior a 2,5% da população em situação de subalimentação na média de um triênio.
O cálculo considera informações sobre disponibilidade de alimentos, renda, perfil demográfico, consumo alimentar e acesso econômico à alimentação.


