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Home Colunas

O PAPA-FIGO

Por Ediel Ribeiro
22 de outubro de 2021 - 12:03
em Colunas

Reprodução - 

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Nos anos 80, todos que, como eu, semanalmente corriam às bancas para comprar ‘O Pasquim’, davam de cara, logo na página 2, com as manchetes hilárias e o escracho do jornal “Papa- Figo”, periódico surgido no Recife, em meados dos anos 70.

Manchetes anárquicas – e, hoje, racistas e politicamente incorretas  – como a publicada na capa do semanário, no Dia das Mães: “Feliz dia da puta que o pariu” e “Negão incorpora Gilberto Freyre na África do Sul”, davam a tônica do semanário.

Figuras ímpares do jornalismo pernambucano – surgidas das mentes doentias dos editores – brilhavam nas páginas do ‘Papa-Figo, como Ivan Pé-de-Mesa, o repórter pau-pra-toda-obra; Eva Gina dos Prazeres, secretária de cama, mesa e banho; e Zeferino Casca Grossa, correspondente do jornal  no Palácio do Planalto.

O “Papa-Figo” era um ‘pasquim pernambucano’ nascido nos anos 80 pelas mãos de três talentosos jornalistas e cartunistas nordestinos: Bione, Ral e Teles. 

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O jornal começou em 1975, apenas como uma página de cartuns e charges, encartada no ‘Jornal da Semana’, criada pelo Ral, passando depois a ser um encarte de quatro páginas, no formato tablóide. Durou 33 números. 

A partir dos anos 80, Ral convidou o cartunista Bione – com quem havia criado “A Xepa”, outro humorístico que foi a pré-história do ‘Papa-Figo’ – e o jornalista José Teles e o semanário começou a circular como jornal alternativo independente, com o slogan “O jornal não recebe dinheiro de ninguém para poder falar mal de todo mundo”, criado pelo Bione.

Nessa etapa, já sem ‘O Pasquim’, incorporou Lailson, Clériston e o  jornalista Paulo Santos de Oliveira. Mais tarde, Ral e Teles abandonaram o projeto e viraram colaboradores, junto com Jaguar, Nani, Cervantes, Sávio, Pimentel e Amorim, entre outros.  

“No princípio era o verbo. Depois vieram os substantivos, os adjetivos e os palavrões”. Assim, Bione define a criação do “Papa-Figo”.

Tudo começou em 1984, em um papo entre três jovens cartunistas, numa mesa de bar. A conversa foi mais ou menos essa: “Vamos fazer uma sacanagem?”, indagou Bione. “Já sei: criar um jornal”, deduziu Teles. “Que vai se chamar Papa-Figo”, concluiu Ral. 

E assim, foi criado o mais sarcástico, mordaz e antigo  jornal de humor de Pernambuco. A história do jornal é, como eles dizem, uma ‘gréia’ só.

Em uma conversa que tive com o jornalista José Teles, que é  também escritor e mora ainda hoje em Recife, ele me ajudou a entender a história do ‘Papa-Figo’.

“Conheci Romildo de Araújo Lima, o Ral, quando entrei no Jornal do Comércio pela primeira vez, no início dos anos 80. Ral já publicava em ‘O Pasquim’.  Na época era preciso ter muito talento pra ser cartunista do semanário. 

Em 1985, ele arregimentou a mim e ao também cartunista Bione pra gente fazer um jornal de humor. Ainda era ditadura, já se esfacelando, mas ainda havia ditadura. 

A gráfica foi descolada por Ral, que levava muito serviço pra lá. Mas o dono exigiu uma coisa em troca. Não podia botar no jornaleco o local onde era impresso.

As reuniões de pauta aconteciam no começo na garagem da casa em que Ral morava com a família, na Estrada do Forte, no Cordeiro. O Papa-Figo, antes de virar coqueluche entre os estudantes, jornalistas e intelectuais do Recife, era feito numa mesa da churrascaria em frente à casa do Ral.

Depois alugamos uma sala, perto do Americano Batista. Era a única redação de jornal que tinha uma cama. Mas não pra uso dos editores, nem nos pertencia. Já tava lá quando mudamos pra lá”.  – disse Teles.

Apesar de terem sido acusados de plagiar o ‘Casseta e Planeta’, Ral  não esconde que a vontade era emular o emblemático hebdomadário de Tarso de Castro, Jaguar e Sérgio Cabral, do qual tanto ele como Bione eram colaboradores e admiradores. “A ideia do grupo era outra: “A gente queria fazer ‘O Pasquim’ daqui. Fazíamos uma sátira aos jornais locais e aos políticos porque já era possível, já tínhamos essa liberdade”, diz Bione” – disse Ral. 

O fim do Papa-Figo entristeceu até os que eram vítimas da mordacidade do jornaleco. Ser citado no Papa-Figo, na época, era símbolo de status.

 

Tags: ColunaEdiel Ribeiro
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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