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Home Colunas

O CANECÃO

Por Ediel Ribeiro
22 de junho de 2022 - 11:40
em Colunas

Arquivo - 

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O Canecão faria 55 anos hoje.

Em tempos sombrios, de ódio à arte e à cultura, não há o que comemorar. Só lembrar e lamentar.

Eu era produtor da ‘Rádio 96 FM’ e escrevia para a revista ‘Rádio Magazine’- uma publicação voltada para o rádio, no final dos  anos 80 –  quando o Canecão fazia a cabeça da galera carioca. 

Vivi boa parte do auge do ‘Canecão’. Fui a vários shows na casa de espetáculos. Alguns, a convite da Assessora de Imprensa Eulália Figueiredo, amiga da cantora Alcione, que, praticamente, tinha cadeira cativa na casa.  

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O Canecão foi uma tradicional casa de espetáculos localizada no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro. O local chegou a ser chamado de ‘Canecão Petrobras’, no início do século XXI. A casa foi construída nas terras da ‘Fazenda Santa Terezinha’, onde, na década de 60, existia o Solar da Fossa, uma famosa pensão onde moravam grandes personalidades como Paulo Leminski, Torquato Neto, Caetano Veloso, Ruy Castro, Paulo Coelho, Paulinho da Viola, Naná Vasconcelos, Zé Rodrix, Guarabyra, e Tim Maia, entre outros.

Inaugurado em 22 de junho de 1967. Num projeto do jovem arquiteto José Vasquez Ponte, tornou-se uma das grandes referências nacionais para espetáculos de médio e grande porte. Quando a casa ainda era só um bar, Ziraldo foi chamado para pintar um enorme painel – de 32 metros de comprimento por seis metros de altura – em uma das paredes da casa. O artista mineiro levou quatro meses para concluir a obra que ficou conhecida como “A Última Ceia”. 

Com a Ditadura Militar em curso, o mural recebeu críticas dos militares de que a obra seria transgressora pela semelhança entre as posturas dos personagens retratados no desenho dele e da ‘Santa Ceia’, afresco de Leonardo da Vinci, o gênio renascentista. Com as reformas, o mural ficou vários anos escondido do público.

O ‘Canecão’, foi uma das casas de espetáculo mais emblemáticas   do Rio. Aberta pelo empresário Mário Priolli, originalmente como cervejaria — daí o nome —, em 1967, depois de uma reforma, estreou como casa de shows com o espetáculo de Maysa, dirigido por Bibi Ferreira, dois anos depois. 

A temporada feita por Maysa em 1969 fez com que o Canecão se tornasse popular no meio artístico da época. Logo, a casa de shows se transformou em um dos principais palcos da cidade. Testemunhou a guinada da MPB, com shows de Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Elis Regina, Clara Nunes, Fagner, Zé Ramalho, e abrigou o nascimento do rock brasileiro, nos anos 1980. 

Palco de shows antológicos, vários artistas nacionais e internacionais se apresentaram por lá. Entre alguns dos shows mais memoráveis ocorridos na casa estão os shows de Maysa; Chico Buarque; Vinícius de Moraes; Tom Jobim; Toquinho e Miúcha; Marisa Monte; Cazuza e Los Hermanos. Também se destacaram os shows de Roberto Carlos, da banda RPM e do grupo cearense Mastruz com Leite, entre outros.

A casa viveu um de seus episódios mais famosos em 1985, quando o então desconhecido  cantor de MPB, Elymar Santos que vivia de pequenos shows em bares e churrascaria do Rio vendeu seu apartamento e seu carro  para conseguir alugar a casa para seu show de estreia. o valor era de 40 milhões de cruzeiros, o que daria, mais ou menos, 200 mil hoje em dia. A partir daí, Elymar Santos virou um nome nacional, cultuado por milhares de fãs.

Em 2009, a administração da casa sofreu uma derrota na justiça, que favoreceu a UFRJ, recebendo parte do terreno do Canecão. Em 10 de maio de 2010, a propriedade foi retomada pela UFRJ.

Em 27 de julho de 2016, militantes do movimento ‘Ocupa MinC’ (Ministério da Cultura) que haviam sido expulsos pelo governo do Palácio Capanema, onde ficaram por 70 dias,  ocuparam o Canecão. 

Por mais de um mês, o ‘Ocupa Canecão’ abrigou shows e atos contra o processo de impeachment de Dilma Rousseff, com atividades diárias e ocupantes fixos que tornaram o salão principal da casa de shows em um grande acampamento. No espetáculo de abertura do ‘Ocupa Canecão’, dirigido por Bia Lessa e ocupantes, o cantor Chico Buarque apareceu de surpresa e cantou a música “Apesar de você”.

Vários outros artistas passaram pelo palco do Canecão em 2016 durante a invasão, com destaque para o antológico show de João Bosco, além de diversos artistas iniciantes e veteranos.

Após forte pressão do MEC, a reitoria da UFRJ negociou a saída dos invasores com os artistas militantes, que foi finalizada na madrugada do dia 5 de setembro de 2016.

Hoje, o Canecão é mais um dos prédios históricos em ruínas na cidade do Rio de Janeiro. Parte de sua memória, porém, está resguardada. Antes de morrer, Mário Priolli, doou ao Instituto Ricardo Cravo Albin todo o acervo da casa.

O Canecão VIVE!

Tags: ColunaEdiel Ribeiro
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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