Os Estados Unidos enfrentam o maior número de casos de sarampo em mais de 35 anos, em meio à queda da cobertura vacinal e a mudanças na política de imunização promovidas pelo governo de Donald Trump.
Até 15 de outubro, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) havia confirmado 4.410 casos de sarampo em 2026, além de três mortes. Foram registrados 42 surtos, e 96% dos casos estão relacionados a essas cadeias de transmissão.
A vacinação aparece como um dos principais pontos de preocupação. Mais de 90% dos infectados não estavam vacinados ou não possuíam comprovação de vacinação, segundo dados utilizados pelo Ministério da Saúde brasileiro a partir das informações do CDC.
A cobertura da vacina tríplice viral entre crianças que ingressam nas escolas americanas caiu de 95,2%, no ano letivo de 2019-2020, para 92,4% em 2025-2026. O CDC estima que aproximadamente 280 mil crianças dessa faixa estavam desprotegidas no último ano letivo.
Para o diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Brasil, Eder Gatti, o cenário americano mostra as consequências do crescimento dos discursos contrários à vacinação.
“O governo americano, além de chancelar discursos negacionistas, tem um secretário de Saúde, que é o equivalente ao nosso ministro, declaradamente antivacina”, afirmou.
Gatti se refere a Robert F. Kennedy Jr., secretário de Saúde do governo Trump, que há anos promove questionamentos sobre vacinas e já reproduziu alegações rejeitadas pela comunidade científica.
Trump reduziu recomendações de vacinação infantil
Em agosto, Trump assinou uma ordem executiva que alterou as recomendações federais para a vacinação de crianças.
O novo modelo passou a classificar vacinas contra 11 doenças como recomendadas universalmente, contra 18 na orientação anterior. Imunizantes contra hepatites A e B, influenza, covid-19, rotavírus e algumas formas de meningite passaram para categorias de grupos de risco ou decisão compartilhada entre médicos e famílias.
A ordem também determina que o governo trabalhe para oferecer separadamente as vacinas contra sarampo, caxumba e rubéola, hoje administradas conjuntamente na tríplice viral, a MMR.
O próprio texto prevê a separação apenas quando esses produtos individuais estiverem disponíveis no mercado americano.
A Academia Americana de Pediatria (AAP) reagiu às mudanças e manteve seu próprio calendário recomendando rotineiramente imunização contra 18 doenças. Mais de 210 organizações médicas, científicas e de saúde pública também criticaram a decisão, afirmando não haver novas evidências científicas que justifiquem a redução das recomendações.
“Espero que o mundo não olhe isso como exemplo. Eles estão colhendo frutos”, afirmou Eder Gatti.
Sarampo avança pelas Américas
O problema não está restrito aos Estados Unidos.
A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) classificou como muito alto o risco de disseminação do sarampo nas Américas.
Entre 4 de janeiro e 3 de outubro, foram registrados 55.792 casos confirmados e 77 mortes em 17 países e territórios, volume 4,8 vezes maior que no mesmo período de 2025.
Guatemala, México, Estados Unidos, Peru e Canadá concentram 99,5% dos casos registrados no continente.
O sarampo está entre as doenças mais contagiosas conhecidas. A vacinação em níveis próximos ou superiores a 95% é considerada fundamental para impedir que o vírus encontre grupos suficientemente grandes de pessoas suscetíveis e estabeleça novas cadeias de transmissão.
Duas doses da vacina oferecem aproximadamente 97% de proteção contra a doença, segundo o CDC.
Brasil tem 61 casos e mantém certificado
O aumento da circulação do vírus nas Américas já pressiona o sistema brasileiro de vigilância.
O Ministério da Saúde confirmou 61 casos de sarampo no Brasil em 2026, importados ou relacionados à importação. Apesar das ocorrências, não há transmissão endêmica estabelecida, e o país mantém o certificado de eliminação da doença recuperado em 2024.
O Brasil havia recebido seu primeiro certificado de eliminação do sarampo em 2016, mas perdeu o reconhecimento em 2019 depois da reintrodução do vírus e da formação de grandes cadeias de transmissão.

Naquele ano, o país registrou mais de 20 mil casos.
A certificação foi recuperada em novembro de 2024 após a interrupção da circulação endêmica e ações de vacinação e vigilância epidemiológica.
A recuperação das coberturas vacinais foi fundamental. Em 2024, a primeira dose da tríplice viral alcançou aproximadamente 96% das crianças, superando a meta nacional de 95%. A segunda dose permaneceu abaixo do ideal, próxima de 80%.
O Ministério da Saúde reforçou novamente as ações em 2026. Mais de 13 milhões de doses da tríplice viral já foram distribuídas aos estados e municípios neste ano.
Cada caso exige operação de bloqueio
Mesmo sem transmissão sustentada, cada caso confirmado de sarampo exige uma resposta rápida das autoridades sanitárias.
As equipes precisam identificar o paciente, confirmar o diagnóstico, rastrear pessoas que tiveram contato, procurar outros casos suspeitos e realizar vacinação de bloqueio na região.
São Paulo concentrou a maior parte das ocorrências registradas neste ano e realizou campanhas ampliadas de imunização. Somente em agosto, foram aplicadas mais de 2,5 milhões de doses contra o sarampo no estado.
No Amazonas, ações semelhantes foram adotadas após a identificação de casos em setembro e outubro.
A preocupação é evitar que uma pessoa infectada fora do país encontre comunidades com baixa cobertura e dê início a uma cadeia sustentada de transmissão.
Vacina não causa autismo
Parte do movimento antivacinação nos Estados Unidos voltou a associar imunizantes ao autismo.
Trump também levantou essa hipótese ao defender mudanças no calendário e a separação da tríplice viral.
A afirmação não encontra respaldo científico.
Em revisão atualizada de estudos publicados entre 2010 e 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) concluiu novamente que não existe evidência de relação causal entre vacinas e transtorno do espectro autista.
A suspeita surgiu originalmente a partir de um estudo publicado em 1998 que relacionava a tríplice viral ao autismo. O trabalho foi posteriormente considerado fraudulento, retirado pela revista científica que o publicou e seu autor perdeu a licença médica.
A OMS também afirma não haver evidências que justifiquem substituir rotineiramente a tríplice viral por três vacinas separadas. A estratégia pode, ao contrário, aumentar o risco de crianças não completarem o esquema de imunização.
No Brasil, a tríplice viral continua fazendo parte do Calendário Nacional de Vacinação. A primeira dose é aplicada aos 12 meses e a segunda aos 15 meses, gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Para as autoridades sanitárias brasileiras, manter a cobertura elevada é fundamental para impedir que os casos trazidos do exterior voltem a estabelecer a circulação do sarampo no país.


