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Home Colunas

Mito entrolhado por desafetos

Por Lenin Novaes
28 de julho de 2020 - 09:24
em Colunas

Sergio Moro, ex-juiz e ex-ministro, é o mais notório dos ex-aliados de Jair Bolsonaro. (Foto: Evaristo Sá)

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– Marineth, o mito pés de barro está, cada vez mais, entrolhado por desafetos que já foram aliados. A coleção teve início com o Gustavo Bebianno Rocha, advogado que dispôs a ele seus serviços e que foi demitido do cargo de ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República. Ele morreu de infarto em Teresópolis, no RJ, em março. Um mês antes tornou público que o PSL, que presidiu, utilizou candidaturas laranjas no pleito eleitoral de 2018. E desabafou, na ocasião, dizendo que “preciso pedir desculpas ao Brasil por ter viabilizado a candidatura de Bolsonaro; nunca imaginei que ele seria um presidente tão fraco”.

– Pô, Athaliba, que decepção, heim! Quais os outros aliados que se tornaram desafetos?

– Marineth, o empresário Paulo Marinho, que é suplente do senador Flávio Bolsonaro (filho do mito), garantiu que Bebianno “morreu de tristeza por tudo que passou nos últimos meses”. Marinho, pré-candidato pelo PSDB à Prefeitura do Rio de Janeiro segue afirmando que Flávio recebeu informações privilegiadas da Polícia Federal sobre Fabrício Queiróz, o ex-assessor do senador quando era deputado estadual da ALERJ. Queiróz, em prisão domiciliar, é acusado de integrar o esquema de “rachadinhas” do Flávio.

– Athaliba, essa denúncia de “rachadinha” no gabinete do Flávio tá dando pano prá manga, né?

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– Não é prá menos, Marineth. O mandato do senador pode ir prá cucuia. Outro ex-aliado do mito, o deputado federal Alexandre Frota, abrigado, hoje, no PSDB, manifestou decepção dizendo o seguinte: “Peço desculpas ao Brasil por ter me enganado e prometo que vou ajudar o Congresso Nacional a colocar o país no rumo certo”.

– Será, Athaliba?

– Marineth, outro ex-aliado do mito é Sérgio Moro, ex-ministro da Justiça e Segurança Pública. Ele botou a boca no trombone ao se demitir e denunciar tentativa do mito interferir na Polícia Federal, na fatídica reunião ministerial de abril. Àquela na qual o Paulo Guedes, ministro da Economia disse: “Tem que vender essa porra logo”, referindo-se ao Banco do Brasil. Àquela na qual o então ministro da Educação, Abraham Weintraub disse: “Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia, começando no STF” (Supremo Tribunal Federal). Na qual o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sugeriu “ir passando a boiada e mudando todo regramento e simplificando normas”.

– Athaliba, outra aberração da reunião foi a Damares Alves, pastora evangélica na função de ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, que disse “pegar pesado”, pois “nosso ministério já tomou iniciativa e nós estamos pedindo, inclusive, a prisão de alguns governadores”.

– Marineth, por falar em governadores, dois deles também estão entrolhando o mito pés de barro. O ex-juiz federal Wilson Witzel, do Rio de Janeiro, atochado por processo de impeachment na ALERJ, acusado de favorecimento à corrupção. E o João Doria, de São Paulo, que desafiou o mito ao vivo com a seguinte mensagem: “Saia da bolha presidente Bolsonaro. Saia da bolha do ódio e comece a ser líder. Se for capaz”.

– Athaliba, tem mais ex-aliados que anunciaram arrependimento pelo voto no mito?
– Marineth, a lista é infindável, inacabável. O cientista político Rudá Ricci afirma que “a falta de habilidade política e humana do presidente é o motor propulsor para a lista interminável de desafetos que ele cultiva”. Da relação consta o deputado Luciano Bivar, presidente do PSL, com o qual o mito pés de barro se elegeu; a deputada Joice Hasselmann, que brigou com o Eduardo Bolsonaro, também deputado federal e um dos filhos do mito; o Movimento Brasil Livre, liderado pelo deputado federal Kim Kataguiri, que, inclusive, protocolou, em abril, pedido de impeachment do mito; entre tantos outros.

– Athaliba, o mito se isola dele mesmo?

– Marineth, é possível. O cientista político e coordenador de Mestrado em Gestão Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Cláudio Couto, diz que “por razões diferentes, ele criou diferença com todo mundo; enxerga inimigos por todos os lados e não confia em ninguém; toma decisões que não fazem sentido; ele arranja brigas sem necessidade; ele vai nas conversas dos seus filhos, que também nutrem essa paranoia; e é por isso que entra em conflito”.

– Athaliba, o deputado Fábio Faria, genro do Silvio Santos, empossado como ministro das Comunicações, afirma que “ninguém aguenta brigas todo o dia”, fazendo alusão ao mito.

– Marineth, o mito teve denúncia protocolada no Tribunal Penal Internacional, com sede em Haia, acusado de crimes contra a humanidade e genocídio na condução da pandemia do COVID-19. A ação é da Rede Sindical Brasileira UNISaúde, coalizão que representa mais de um milhão de trabalhadores da saúde no Brasil, com apoio de entidades internacionais. Em parte do exterior, aliás, as atitudes do mito são consideradas insensatas, desatinadas, irresponsáveis.

– Athaliba, a Câmara dos Deputados já acumula quase 50 pedidos de impeachment contra o mito e, agora, tem o processo no Tribunal de Haia, que o coloca entre a cruz e a espada. Ou seja, se ele correr o bicho pega e, se ficar, o bicho come!

– É, Marineth, não tem como escapar. O mito pés de barro está encurralado. 

Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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