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Home Colunas

NANI, O MAIOR

Há 2 anos morria o cartunista Nani

Por Ediel Ribeiro
9 de outubro de 2023 - 19:49
em Colunas

*Ilustração: Nei Lima

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“Uma das agonias do colunista é perder o gancho de uma matéria por diferença de um dia ou dois. Como esta coluna só sai na segunda-feira, só hoje pude comentar sobre o aniversário de 2 anos da partida do genial cartunista Nani, morto no dia 8 de outubro de 2021.” (Ediel)

Rio de Janeiro – Nani foi um dos maiores amigos que fiz no jornalismo. 

Cartunista genial, era o melhor de nós. Era meu amigo e meu ídolo. Sentava sempre ao seu lado, nos bares e eventos, para ficar ouvindo suas histórias. 

Ele tinha muitas.

Além de cartunista, era também escritor, chargista e quadrinista. Tínhamos combinado que ele escreveria o prefácio do meu livro de tiras. Não deu tempo.

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Nani ilustrava ( sem cobrar nada) minhas crônicas de humor n´”O Folha de Minas” e no “Diário do Rio’, que agora perderam parte da graça. Seu humor era politizado, cáustico e mordaz. Não fazia concessões. Zombava de tudo. Até de si mesmo. 

Conheci Nani no jornal ‘O Dia’, em 1988, quando ele publicava a tira Vereda Tropical, no Caderno D.

A tira – atual, ainda hoje – satirizava a situação político-social do Brasil. Os personagens principais eram: Veizim, um velho índio amarelo de cabelos brancos; Turuna, um índio de pele alaranjada; e Fernandias, um personagem que é uma paródia de Fernão Dias. 

Nani, que inteiro é Ernani Diniz Lucas, nasceu em 27 de fevereiro de 1951, em Esmeraldas, cidade pequena perto de Belo Horizonte.

Começou sua carreira em Belo Horizonte, em 1971, publicando charges em ‘O Diário’. Seu humor ferino e debochado chamou a atenção de um editor que o convidou para vir para o Rio de Janeiro para trabalhar no ‘O Jornal’.

Nani já era apaixonado pela cidade. Sonhava vir para o Rio e trabalhar em ‘O Pasquim’,  jornal irônico e debochado, onde seus ídolos publicavam seus desenhos.

Ao chegar ao Rio, em 1973, conheceu Henfil. Cartunista e mineiro como ele, Henfil o mandou ir para a redação do ‘O Pasquim’ e colar no Jaguar. “Jaguar sabe tudo”, disse Henfil.

A partir daí, ele chegava diariamente com 30, 40 cartuns, na redação do ‘O Pasquim’. Jaguar, já de saco cheio, disse: “Ô, Nani, pelo amor de Deus, eu não tenho como publicar tudo isso, são todos bons, senão vou publicar só os teus cartuns e não publico mais nada no jornal. Por que você não vai tomar umas cachaças?

Nani seguiu os conselhos do Jaguar e virou parceiro constante dos jornalistas, Tarso de Castro, Sérgio Cabral e do próprio Jaguar, entre outros, pelos botecos da cidade. 

Um dia, o fígado não resistiu e o cartunista  foi internado no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da UERJ, para um transplante de fígado. Depois de algum tempo na fila da Rio-Transplante, finalmente, recebeu um órgão novo, mas seu organismo rejeitou o órgão durante a cirurgia, deixando o artista em coma. A equipe de médicos retirou o fígado, e depois de mais duas tentativas,  Nani, finalmente, recebeu um órgão compatível.

Em 1973, junto com os cartunistas Duayer, Guidacci, Coentro e Jésus Rocha, criou ‘O Pingente’, tablóide que teve vida curta. 

No Rio, trabalhou no ‘Jornal dos Sports’,  substituindo Henfil, que foi para os Estados Unidos para tratar da hemofilia.

Foi também chargista do ‘Jornal da Globo’, ‘Última Hora’, ‘Diário de Notícias’, ‘Tribuna da Imprensa’, ‘Cartoon’, ‘Correio da Manhã’ e da edição brasileira da revista  ‘MAD’.

O cartunista era muito amigo do Adail, outro genial cartunista. Um dia, antes de casar, chamou Adail para substituí-lo no ‘Jornal dos Sports’. Numa das visitas que fez a sua casa, Adail (espírita fervoroso) notou um cartum pendurado na parede em que Nani retratou Jesus Cristo crucificado. Adail achou aquilo uma heresia e desde então tentou de todas as formas converter o boêmio e ateu, Nani, ao espiritismo. Não conseguiu.

Além de cartuns, charges, quadrinhos e textos para a TV , Nani adora escrever histórias de detetives. Suas histórias fazem bastante sucesso. Aldir Blanc, outro escritor aficionado em histórias de detetives, afirma que o melhor detetive é o do Nani.

Nani é bom em tudo o que faz.

O cartunista é autor dos livros “Feliz e Orgulhoso, envaidecido mesmo”, “Cachorro quente uivando para a lua”, “A traça de A a Z” (livro que ensina as crianças a se familiarizar com o alfabeto), “Jornal do menininho” e “Se arrependimento matasse”.

Pela L&PM já publicou “Batom na cueca”, “É grave, doutor?”, “Foi bom pra você?”, “Humor politicamente incorreto” e “Orai Pornô”.

Jaguar disse uma vez que ele e o Nani tem uma qualidade em comum: não sabem desenhar. Discordo do mestre. Nani desenha muito, e, ainda por cima, é o melhor cartunista em atividade no Brasil.

Hoje, perdemos Nani, vítima da Covid-19. O cartunista lutou bravamente, mas não resistiu às complicações causadas pelo vírus.

Vá em paz, meu amigo. Sua arte e sua lembrança ficarão eternamente entre nós.

 

*AOS AMIGOS DO NANI:

Estou escrevendo a biografia do nosso querido Nani. Quem tiver alguma história ou ‘causo’ envolvendo ou vivido com o Nani e puder nos contar, agradeçemos.

Podem enviar in box, pelo e-mail edieljornalista@gmail.com ou pelo zapp 21 96983-5229. Obrigado!

Tags: ColunaEdiel Ribeiro
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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