Coluna

CAGUEI

Se tem um órgão do Governo Federal que trabalha - e muito - é o Departamento de Recuos e Desmentidos (DRD).

Ligado à Secretaria de Comunicação - SECOM - o DRD funciona numa salinha nos fundos do Palácio do Planalto, ao lado do gabinete do ódio, sob o comando do secretário especial André de Souza Costa.

Todo mundo sabe que uma das funções mais importantes no governo, hoje em dia, é a de recuar e desmentir as histórias do capitão e de sua prole.

Se o presidente ficar adulterando fatos, desmentindo e fraudando todo tipo de informação, daqui a pouco ninguém mais vai acreditar nas suas declarações.

Depois que a Polícia Federal abriu um inquérito para investigar se Bolsonaro prevaricou no caso de supostas irregularidades na negociação de compra da vacina indiana Covaxin, o presidente anda bastante agitado.

MILITARES SE PROTEGENDO COM GUARDA-CHUVA
Ilustração:  Nani - 

Quando o secretário entrou no gabinete do presidente, o capitão estava soletrando a palavra PRE-VA-RI-CA-ÇÃO.

- O que o senhor está fazendo, presidente? - perguntou o secretário.

- Estou tentando entender o que significa a palavra ‘prevaricação’.

- Prevaricação é o crime cometido por funcionário público quando, indevidamente, este retarda ou deixa de praticar ato de ofício, ou pratica-o contra disposição legal expressa, visando satisfazer interesse pessoal - explicou o secretário.

- Então isso daí não tem nada a ver com a minha pessoa. Pelo que eu entendi é uma pena aplicada a funcionários públicos, não ao presidente da República.

- Desculpe, senhor, mas o presidente é um funcionário público - ponderou o secretário.

- Que seja. Mas querer o meu impeachment por causa de um pedido de 1 dólar (hic!) de propina já é demais. Tão fazendo uma tempestade num copo d'água por um ‘trocinho’ desses daí?

- A propina pedida foi de 1 dólar por dose, presidente, e eram 400 milhões de doses. Logo, a propina era de 400 milhões de dólares! Dizem até que já há indícios, inclusive, da participação da primeira dama na negociação com a Covaxin - pigarreou o secretário.

- Zero! A Michelle não tem nada com essa compra de vacina. Zero. Isso é coisa do Ricardo Barros, taokey?

- O senhor, então, vai dizer que a culpa é do seu chefe de governo?

- Claro que não! O Ricardo Barros é meu amigo, e, depois (hic!) ele é líder do Centrão; e você sabe, não é bom mexer com essa gente! Outra coisa: pedir impeachment por causa de um Fiat Elba, um triplex ou por causa de uma pedalada fiscal, até se justifica, agora, querer (hic!) ‘impixar’ um presidente por causa de 1 dólar, já é demais!!

O presidente soltou um soluçou (hic!):

- Isso é uma CA-LU-NIA!! Estão querendo envolver minha família nisso daí, taokey (hic!). Primeiro foi a tentativa de envolver minha família no caso das ‘rachadinhas’, agora querem provar a participação da minha mulher na compra (hic!) da Covaxin.

- Os investigadores estão estranhando a movimentação financeira atípica e a compra de diversos imóveis, loja de chocolate, carros e mansões, pelos seus filhos.

- O que é que eu tenho com isso daí. Filho é filho, não é parente. Os meus filhos são empreendedores. Puxaram o pai. Fazer o quê? Eu quando estava no Exército já terceirizava a pintura do meio-fio da minha unidade. Eu sempre fui assim, entende? Era uns rolos que a gente fazia para conseguir uns trocados pra ‘comer gente’, taokey?

O secretário insistiu:

- Não é um dólar, presidente, são 400 milhões de dólares! o valor da propina, no contrato da Covaxin, daria para comprar milhares de Fiat Elba, centenas de triplex e, quanto as pedaladas, diversos presidentes já haviam dado, antes da presidente Dilma.

- Eu não sei de nada, no tocante a isso daí. Não sei de preço de carro. Quem ficou rico vendendo carro foi o Fabrício Queiroz. Pergunta pra ele!

- Os integrantes da CPI da Covid-19 disseram que o senhor prometeu acionar a Polícia Federal quanto às irregularidades na compra da vacina e não o fez! Acharam um absurdo o governo ter comprado a vacina mais cara de todas, sem a aprovação da Anvisa, e, ainda por cima, em tempo recorde; enquanto na negociação com a Pfizer levaram mais de um ano para fechar a compra. E tem mais! A compra tinha como intermediária uma empresa cheia de pendências na justiça brasileira. O que o senhor vai dizer para a CPI?

- Caguei!

Ediel Ribeiro (RJ)

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Coluna do Ediel

Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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