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Home Colunas

JAGUAR, O NOSSO HEMINGWAY

Por Ediel Ribeiro
segunda-feira – 22/07/2024 – 07:53
em Colunas

Divulgação - 

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“Um homem não existe até que fique bêbado.” (Ernest Hemingway)

Rio de Janeiro – O cartunista Jaguar e o escritor Ernest Hemingway tinham duas coisas em comum: eram bons de texto e de copo.

Jaguar é o nosso Hemingway. Não necessariamente por sua literatura – onde também faz bonito – mas pela vida boêmia que levava.

Não sei se já beberam juntos. Certamente, não.

O escritor americano decidiu colocar fim à sua própria vida,  metendo uma bala na boca, antes de conhecer o cartunista carioca e tomarem  porre homéricos juntos.

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Fico imaginando como seria o encontro do Jaguar com o Hemingway, numa mesa do Jangadeiro, nos anos 60. Os dois só saíriam da mesa expulsos pelos garçons que empilharíam as mesas à sua volta.

Jaguar bebeu em quase todos os botecos do Rio. Do Cabaré dos Bandidos, em Caxias, passando pelo Bar Luiz, na Rua da Carioca; Retiro dos Artistas, Capela e Bar Brasil, na Lapa; Adônis, em Benfica; Petisco da Vila, em Vila Isabel; ao Bracarense, Jobi, Jangadeiro, Zeppelin, Fiorentina e Degrau, na zona sul do Rio.

Só no seu livro “Confesso que bebi” ele listou mais de 100 botecos.

Hemingway foi mais longe. Era um pinguço internacional. Bebeu em várias cidades do Mundo. Bebeu em Cuba; bebeu em Nova Iorque; bebeu em Veneza; bebeu em Barcelona; bebeu em Hong Kong; e, claro, bebeu em Paris.

Hemingway entornava de tudo, desde absinto até grappa, passando por gim, Bourbon, vinho e cerveja.

Sem falar que o romancista inventou seu próprio drink, o Mojito.

Jaguar também não ficava atrás. Bebia – por ordens médicas, não bebe mais –  cachaça, chope, uísque, cerveja, hi-fi, underberg, cuba-libre e outros. 

Bebia tanto que, quando perguntado pelo motivo da bebedeira, cunhou a frase (às vezes, creditada  ao ex-presidente Jânio Quadros, por causa do emprego da mesóclise) “Bebo porque é líquido, se fosse sólido comê-lo-ia”.

O escritor norte-americano conseguiu, assim como o cartunista carioca, a proeza de tornar seu próprio nome um roteiro etílico.

Hemingway frequentou centenas de bares pelo mundo e muitos deles, até hoje, rendem homenagens ao escritor. São fotos, placas e autógrafos expostos nas paredes dos botecos que frequentou. Fazem disso uma atração turística. Até foram inventados coquetéis que levam seu nome, como o ‘Hemingway Daiquiri’.

Não conheço nenhum drinque com o nome do Jaguar, mas conheci, em São Paulo, o bar ‘O Pasquim’, na Vila Madalena e o ‘Jaguar Bar’, cujo  letreiro imita, e mal, a assinatura do cartunista. Se um dia comprar outro bar, vou botar o nome de ‘Boteco do Jaguar’ , título de uns cartuns que ele publicava no jornal ‘O Dia’.

Mas, mesmo bares onde Hemingway nunca pisou, homenageiam o escritor. O ‘El Cuchi’, um boteco de Madri, na Espanha, ostenta uma placa com os dizeres ‘Hemingway nunca bebeu aqui’.

Pensei em botar uma placa igual no ‘Retiro dos Artista’, um boteco que eu tinha próximo aos Arcos da Lapa; onde Jaguar morou, num apart-hotel; até que um dia Jaguar apareceu por lá com o sambista Oswaldo Nunes, compositor do Bloco Carnavalesco Bafo da Onça, e eu desisti da ideia.

Vários recordes de ingestão de bebidas alcoólicas desses bares são de Hemingway e nunca foram batidos. 

No ‘El Floridita’, de Havana, por exemplo, colocaram uma estátua sua no balcão para relembrar os 16 daiquiris duplos que entornou no dia do seu aniversário. 

No ‘Harry’s Bar’, de Veneza, ele também tem a fama de ser o maior bebedor de ‘Bellinis’ que já pisou por lá. 

Acho que ninguém foi capaz de celebrizar o ritual da bebedeira como  Hemingway e Jaguar.

Eles conseguiram a proeza de tornar esse ato a coisa mais democrática da terra: eram capazes de beber igualmente com presidentes, duques, políticos, pescadores, policiais, bandidos, artistas, vagabundos e prostitutas. 

Hemingway carregava no corpo as marcas de suas bebedeiras. Diversas vezes se envolveu em algum acidente por causa do álcool. O mais famoso deles foi quando, depressivo, deu fim a vida. 

Jaguar, que eu saiba, não tem pretenções de se matar, como Hemingway.  

Talvez porque, como disse numa crônica, não consiga bolar um bilhete de despedida melhor que o de George Sanders, ator genial, no auge da fama: “Estou entediado.”

Tags: ColunaEdiel Ribeiro
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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