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Home Colunas

EM ALUCARD SE CHUPA E ASSOBIA

Por Redação
sexta-feira – 28/09/2018 – 14:38
em Colunas
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Lenin Novaes*

Dias após o Festival de Inverno de Alucard encontrei Marineth perto do prédio da instituição cultural da cidade. Conversamos sobre fatos que abalam as estruturas da vida republicana brasileira. Dentre assuntos de corrupção, em alto nível, e crise na segurança, em todo país, ela quis saber o que acontece em Alucard.

– Uai, Marineth, você sabe chupar cana e assobiar ao mesmo tempo? Faz essa façanha?

– Claro que não. Como vou chupar e assobiar ao mesmo tempo? Ou eu chupo ou assobio, uai.

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– Em Alucard tem dois vereadores que conseguem essa proeza. Daqui, sentados junto ao busto do poeta Antônio Crispim, lá Câmara de Vereadores, você encontra os atores: PS da Yale e Boca de Caçapa.

– Mas, Athaliba, dupla função é imoral. Será que o povo não se dá conta dessa indecência? Como conseguem defender os interesses dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, legislar em favor da sociedade?

– Pois é. O PS da Yale é empregado da Yale desde 1984 e entrou no movimento sindical em 1997. Anos depois, em 2003, tornou-se presidente do sindicato. Foi reeleito para mais duas gestões.

– Essa trajetória do PS da Yale é meteórica no movimento sindical, né, Athaliba?

– Sim. Ele representou milhares de trabalhadores no Conselho de Administração da Yale, em todo o país. Aí ficou fácil chegar à Câmara de Vereadores de Alucard, onde exerce o segundo mandato. É acusado de oportunista, pelego. Opositores o comparam ao Lula, no estilo “sindicalismo de resultado”. Ou seja, ignora a questão política ideológica como formação primordial para evolução dos trabalhadores, praticando ações sindicais apenas em favor de conquistas de benefícios assistencialistas.

– A oposição, Athaliba, é incompetente. E boa parcela da sociedade de Alucard tem culpa no cartório.

– Ora, Marineth, a conduta do povo tem a ver com o personagem Tutu Caramujo. Não conhece a história dele? O poeta Antônio Crispim o retrata num poema: “Cada um de nós tem seu pedaço no Pico do Cauê/Na cidade toda de ferro/As ferraduras batem como sinos/Os meninos seguem para a escola/Os homens olham para o chão/Os ingleses compram a mina/Só, na porta da venda, Tutu Caramujo cisma na derrota incomparável”.

– Que trem doido é esse de Tutu Caramujo, heim!

– O apelido dele decorre do jeito de ser pessoa reservada, desconfiada. Ficou a herança de pessimista, registrada na história oral da cidade. É símbolo do ceticismo. Desconfiou do desenvolvimento de Alucard, mesmo quando se anunciou a existência em seu subsolo de mais de um bilhão de toneladas de pura hematita, no Pico do Cauê.

– Como Alucard poderá se livrar dessa pecha negativa?

– Bem, Marineth, a salvação para Alucard se livrar da herança maldita passa por jovens e estudantes que atuam no Parlamento Jovem, por exemplo. Além de outras ações políticas. Nas ruas e bares, de maneira surda, já se ouve repúdio à atitude do PS da Yale e do Boca de Caçapa. E se discute proposta de impetrar ação popular para questionar a dupla função dos dois vereadores. Alucard ainda ostentará, com orgulho, a condição de berço de um dos maiores poetas do país, autor de A flor e a náusea, onde se analisa da seguinte maneira: “Pôr fogo em tudo, inclusive em mim/Ao menino de 1918 chamavam anarquista/Porém meu ódio é o melhor de mim/Com ele me salvo/E dou a poucos uma esperança mínima”.

– É, Athaliba, a esperança de mudança está na juventude. Viva o poder jovem!!!

– Pois é, Marineth. Como disse um grande revolucionário latinoamericano, “Hay que endurecerse, pêro sin perder la ternura jamás”. Bem, vamos abraçar o busto do poeta Antônio Crispim, entre nós, que quero declamar o poema Pico do amor, em memória dele.

 

Da janela, à esquerda, avisto o Pico do Amor,

Destacando-se a cruz de madeira moribunda,

Esfarrapada; nenhum sentido de ali se expor,

Num penhasco sem flores, liso como a bunda.

 

Ainda ontem lá estive: o descaso causou furor,

Ao legado que deixas-te de maneira profunda

A Alucard, berço natal que desdenha teu valor,

Como cravando teus versos numa cova funda.

 

Ah, poeta, que gente institucional Alucard tem,

De picuinhas e mazelas não consegue ver além,

A fome cultural que fagulha nos olhos do povo.

 

Se possível for de outra dimensão vir de novo,

Cuida que a ternura abrolhe na forma de ovo,

Expurgando maus políticos, assim seja, amém!

 

*Lenin Novaes, jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som – MIS.

Redação

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