O primeiro debate frente a frente entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições de 2026 foi marcado por ataques, acusações de corrupção, provocações pessoais e momentos em que propostas para os próximos quatro anos ficaram em segundo plano.
Realizado pela Band na noite deste domingo (18), a uma semana do segundo turno, o encontro colocou no centro da discussão o Banco Master, as investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, segurança pública, saúde, economia, escala 6×1 e a relação do Brasil com os Estados Unidos.
O clima de confronto começou antes mesmo de os candidatos entrarem no estúdio. Flávio disse na chegada que seria “prazeroso esfregar verdades na cara” do adversário. Lula afirmou esperar que o debate fosse “uma aula de civilidade” e disse que estava ali para “discutir o Brasil”.
Na prática, os dois rapidamente abandonaram o tom anunciado por Lula e passaram para o confronto direto.
Flávio adotou desde o primeiro bloco uma postura agressiva, com ironias, acusações e tentativas de colocar o presidente na defensiva. Lula teve dificuldades iniciais com o controle do tempo e chegou a se dirigir à câmera errada, mas depois passou a concentrar seus ataques principalmente na relação de Flávio com Daniel Vorcaro e no financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.
Vorcaro e Lulinha dominam primeiro confronto
Flávio levou para o debate as declarações da lobista Roberta Luchsinger, que havia afirmado em entrevista à CNN que Lula sabia de encontros mantidos por seu filho Fábio Luís com integrantes do governo.
“Lula, você conhece Roberta Luchsinger? Fez acusações graves contra você ontem”, perguntou.
Lula respondeu:
“A Roberta é uma questão da Polícia Federal, e a Polícia Federal vai cuidar.”
Flávio também questionou a situação de Lulinha e disse que o filho do presidente estaria vivendo na Espanha enquanto é investigado.
Lula afirmou que acredita na inocência do filho, mas disse que ele deverá responder às investigações.
“O meu filho abriu a conta bancária dele e abriu o telefone para ser investigado. Porque eu não sou um pai que protege o filho como você foi protegido pelo seu pai. Se tiver investigação, se tiver problema, será investigado. No meu mundo, ninguém se esconde”, afirmou.
O presidente então voltou o debate para Daniel Vorcaro.
Lula cobrou diversas vezes explicações sobre os R$ 134 milhões negociados para financiar o filme Dark Horse, dos quais cerca de R$ 61 milhões teriam sido efetivamente transferidos.
“Você só pode ajudar quando explicar os R$ 134 milhões. Você pegou os R$ 134 milhões e mentiu para a sociedade brasileira? O que você fez? É só explicar”, afirmou Lula.
Flávio evitou responder detalhadamente sobre o destino dos recursos durante o confronto e disse que o dinheiro foi destinado ao filme.
“Já expliquei várias vezes, vou explicar quando for necessário”, afirmou.
Em outro momento, ironizou Lula:
“Você vai aplaudir o filme do presidente Bolsonaro, que você vai amar.”
Lula propõe abertura dos sigilos
Um dos momentos de maior tensão ocorreu no terceiro bloco, quando Lula respondeu às acusações de corrupção lançando um desafio público ao adversário.
“Flávio, tenho um desafio para você: amanhã, abriremos nossas contas bancárias, sigilos telefônicos, para que o povo brasileiro descubra quem é o ladrão neste país”, disse.
O presidente ampliou a proposta:
“Eu abro de toda minha família, e você abre da sua família.”
Segundo Lula, os dados poderiam ser entregues aos presidentes do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral antes da eleição.
Flávio não aceitou a proposta durante o debate.
“Eu não tenho absolutamente nada a esconder. Só que a questão, Lula, é que o seu dinheiro é por fora sempre. Não está na sua conta, está em algum outro lugar”, respondeu.
“Quero distância de miliciano”
O confronto pessoal aumentou quando Flávio convidou Lula a se aproximar dele no palco.
“Fica do seu lado, vamos conversar juntos”, disse.
Lula recusou:
“Não quero ficar perto de você. Família Bolsonaro, quero distância. Quero distância de miliciano.”
Flávio respondeu com outra provocação:
“Estou sem a carteira aqui, fica tranquilo. Pensando bem, melhor ficar longe mesmo, que minha carteira pode ser roubada.”
Em outro momento, Lula chamou Flávio de “malandro carioca”. A Band concedeu direito de resposta ao candidato do PL.
Segurança pública vira um dos principais embates
Na segurança, Flávio prometeu uma política de enfrentamento mais duro às organizações criminosas.
“A partir de janeiro do ano que vem eu vou declarar guerra ao narcotráfico. Eu vou classificar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações narcoterroristas”, afirmou.
Também prometeu construir mais de 500 mil vagas no sistema penitenciário, defendeu castração química para estupradores e redução da maioridade penal para 14 anos em crimes hediondos.
“Quem é menor de idade e comete crime de adulto tem que responder como adulto”, disse.
Lula defendeu maior atuação do governo federal na segurança e voltou a cobrar a aprovação da PEC encaminhada ao Congresso.
“O candidato poderia ter votado a emenda constitucional que eu mandei para dar ao governo federal as condições de interferir na questão da segurança pública”, afirmou.
Sobre as saídas temporárias de presos, Lula defendeu a manutenção do benefício para detentos do regime semiaberto que cumpram os requisitos legais.
“Se a pessoa tiver tido um comportamento decente, se a pessoa estiver se recuperando, é injusto que a pessoa não saia para ver a sua família. Aquele que praticou estupro não sai. Aquele que praticou violência contra a mulher não sai.”
Flávio também perguntou por que “73% dos presidiários” teriam votado em Lula.
O presidente respondeu com uma das provocações mais repercutidas da noite:
“Eu quero que votem 100%. Até teu pai. Teu pai pode votar em mim.”
Aos Fatos classificou como distorcida a afirmação de Flávio sobre os 73% dos presos, já que os dados citados não representam todo o sistema prisional brasileiro.
Flávio faz mea-culpa pela saúde no governo Bolsonaro
Na área da saúde, Flávio anunciou que convidou o médico Claudio Lottenberg, ex-presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, para comandar o Ministério da Saúde em eventual governo.
“Eu quero colocar padrão Einstein no SUS, aquele mesmo atendimento com tecnologia, com médicos, com hora marcada, sem fila, que tem na rede privada”, declarou.
Também prometeu criar um prontuário eletrônico integrado ao CPF.
Lula reagiu:
“Será que ele quer privatizar o SUS?”
O presidente voltou então à pandemia de Covid-19 e criticou a gestão de Jair Bolsonaro.
“A única coisa que ele tinha que fazer era escutar os médicos. Não podia tomar cloroquina, não podia faltar vacina”, afirmou.
Flávio reconheceu problemas na atuação do governo de seu pai.
“De fato, a saúde não foi uma área que teve melhor resultado na gestão Bolsonaro. Faço aqui mea-culpa”, disse.
Em seguida, porém, defendeu Jair Bolsonaro e afirmou que o ex-presidente “deu o seu melhor”.
6×1 volta ao debate
O fim da escala 6×1 também colocou os candidatos em confronto.
Flávio, que inicialmente criticava a proposta e depois votou a favor no Senado, disse ter mudado de posição depois de ouvir trabalhadores.
“Sei ouvir, sei escutar, e assim vou conduzir esse governo”, afirmou.
Em outro momento, explicou:
“Eu sou uma pessoa que, se for convencida, posso melhorar a minha opinião, se isso for melhor também para os cidadãos brasileiros.”
Lula respondeu atacando a relação do adversário com o mundo do trabalho.
“Ele conhece ônibus por literatura porque ele nunca entrou num ônibus. Conhece trabalhador por literatura. Ele nunca trabalhou”, afirmou.
Economia e dívida das famílias
Na economia, Lula defendeu sua política de valorização do salário mínimo, distribuição de renda, investimentos públicos e incentivo à indústria.
“Muito dinheiro na mão de poucos significa pobreza e miséria. E pouco dinheiro na mão de muitos significa distribuição de riqueza, distribuição de renda”, afirmou.
O presidente também citou o MEI, a Nova Indústria Brasil e investimentos em formação técnica e superior.
Flávio concentrou sua proposta econômica na redução do custo de vida e no endividamento das famílias.
Prometeu criar um Ministério da Prosperidade e apresentou um programa no qual o governo compraria dívidas dos bancos, com congelamento por seis meses para pessoas físicas e carência de um ano para empresas.
“No meu governo, a gente vai comprar a sua dívida dos bancos”, disse.
Estados Unidos também entram no confronto
No último bloco, Lula questionou a proximidade política da família Bolsonaro com o governo dos Estados Unidos e citou a atuação de Eduardo Bolsonaro no exterior.
“É notável e é notado pelo povo brasileiro que a família Bolsonaro está subordinada aos interesses americanos”, afirmou.
Flávio classificou a acusação como “fake news”, negou intenção de entregar recursos minerais brasileiros aos Estados Unidos e disse ter viajado ao país para defender empresas brasileiras das tarifas impostas por Donald Trump.
Também defendeu o chamado Escudo das Américas como um mecanismo de cooperação internacional contra o narcotráfico.
Flávio circula atrás de Lula e plateia interrompe debate
O comportamento dos candidatos também se tornou parte do próprio debate.
Flávio circulou pelo estúdio enquanto Lula respondia e, em vários momentos, posicionou-se atrás do presidente para aparecer no enquadramento das câmeras, fazendo gestos e reagindo às falas.
Integrantes da campanha de Flávio disseram depois que a movimentação foi uma estratégia deliberada para ampliar sua presença nas imagens e tentar desestabilizar Lula. A atitude provocou reclamações da equipe petista.
Lula, por sua vez, começou o programa com dificuldades para administrar o tempo e o posicionamento diante das câmeras e foi pressionado inicialmente pelas perguntas sobre Roberta Luchsinger e Lulinha. Com o avanço do debate, passou a formular perguntas mais diretas sobre o Banco Master e os sigilos de Flávio.
A tensão se estendeu às comitivas.
Durante um intervalo, o ministro Sidônio Palmeira, responsável pelo marketing da campanha de Lula, e Fábio Portela, da campanha de Flávio, discutiram no estúdio. Houve ainda provocações envolvendo apoiadores dos dois candidatos.
Nas considerações finais, gritos, risadas e assobios da plateia chegaram a interromper o programa.
A mediadora Adriana Araújo parou o cronômetro de Lula e pediu silêncio.
“A plateia não é parte do debate”, advertiu.
Ela também pediu a Flávio que deixasse de circular atrás de Lula enquanto o presidente fazia suas considerações finais.
“Você pode circular, mas, por favor, estou pedindo a gentileza com Lula, e ele fará o mesmo com você”, disse a jornalista.
Checagens encontram erros dos dois candidatos
Agências especializadas verificaram dezenas de declarações feitas ao longo das duas horas.
O Aos Fatos classificou como falsas ou distorcidas afirmações de Flávio de que a criminalidade teria “explodido” no atual governo, que 73% dos presos brasileiros votaram em Lula, que Lula e Janja teriam gasto R$ 7 bilhões em viagens e que o governo federal nada fez contra as tarifas impostas pelos Estados Unidos.
Também foram identificadas imprecisões de Lula. O presidente errou ao afirmar que, depois de seu segundo mandato, o Brasil só voltou a crescer acima de 3% quando ele retornou ao governo. Também atribuiu a si a prisão de Daniel Vorcaro, embora a prisão tenha ocorrido por decisão judicial, e disse que Flávio comprou uma casa de R$ 10 milhões, quando o imóvel custou R$ 6 milhões.
Outras declarações de Lula foram confirmadas pela checagem, entre elas a de que Flávio foi o único deputado estadual do Rio a votar, em 2009, contra a ampliação da licença-maternidade para servidoras estaduais e a de que o senador atuou para evitar a prisão de um policial acusado de matar Ana Clara, de cinco anos.
O resultado foi um debate em que os dois candidatos conseguiram expor diferenças em segurança, saúde, economia e política externa, mas no qual as investigações, as acusações pessoais e as provocações ocuparam grande parte das quase duas horas de confronto.
Lula e Flávio disputam o segundo turno no próximo domingo, 25 de outubro. O último debate está previsto para sexta-feira (23), na TV Globo.


