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Home Colunas

LARGO DO BOTICÁRIO, CHARME E HISTÓRIA

Por Ediel Ribeiro
16 de setembro de 2022 - 10:58
em Colunas

Reprodução - 

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Rio de Janeiro – Apenas sete casas da rua Cosme Velho, 822,  compõem o Largo do Boticário, um dos mais belos cartões postais do Rio de Janeiro.

Encravado aos pés do Corcovado e no coração do Cosme Velho  – bairro cujo nome se origina de  um dos primeiros moradores da região, o comerciante Cosme Velho Pereira,  estabelecido na Rua da Direita, hoje Primeiro de Março – o local é muito procurado por turistas e moradores do Rio de Janeiro.

Após a morte do comerciante, em princípios do século XIX, a chácara foi dividida em terrenos menores pela nobreza da época. Um dos nobres a se estabelecerem no local foi o sargento-mor da Colônia, Joaquim da Silva Souto, militar reformado famoso pelo preparo de ungüentos e xaropes e, por isso, conhecido como ‘boticário’. Amigo da Família Imperial, por causa dele, em 1831, o lugar foi nomeado ‘Largo do Boticário’.

Banhado pelo Rio Carioca, este pequeno largo, quase escondido no Cosme Velho e cercado pela mata atlântica, é um dos lugares mais bonitos e charmosos do Rio. São casas coloridas, em estilo neocolonial, com telhões pintados a mão em porcelana de Delft, azulejos portugueses, mármores Lioz, calçamento estilo pé-de-moleque e árvores centenárias que transmitem uma sensação de calma e tranquilidade.

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O casario tem projeto arquitetônico de Lucio Costa, jardins de Burle Marx e como quintal, parte da Floresta da Tijuca, onde há diversas espécies raras da Mata Atlântica e onde havia, originalmente, uma fonte d’água do século 19.

A primeira casa, hoje de número 32, foi construída em 1846, pelo Marechal Joaquim Alberto de Souza da Silveira, que trabalhou para o Imperador Dom Pedro II e era o padrinho de Machado de Assis. 

Nos anos 20, o empresário Edmundo Bittencourt, fundador do jornal ‘Correio da Manhã’ – um periódico brasileiro, que em sua primeira fase foi publicado no Rio de Janeiro, entre 15 de junho de 1901 a 8 de julho de 1974 – comprou os terrenos disponíveis e resolveu ali construir as primeiras casas em estilo neocolonial, mudando a paisagem do Largo. O arquiteto Lúcio Costa projetou a unificação das casas 20 e 22, transformadas em uma mansão da família Bittencourt.

Outro morador ilustre foi o pintor Augusto Rodrigues. O artista foi um dos personagens mais importantes na história do lugar. Morador  da antiga casa 1, Rodrigues lutou até sua morte pela preservação e tombamento do casario.

Outro dono foi Rodolfo Gonçalves de Siqueira, o Ruddy, colecionador e diplomata, que mudou-se para lá nos anos 30.  A partir de 1942, essa casa pertenceu a Magu Leão, muito culta, amiga de vários artistas e intelectuais, como Burle Marx, Oscar Niemeyer, Candido Portinari, Manuel Bandeira, Lucio Costa, José Lins do Rego, Tarsila do Amaral, Le Corbusier, Bruno Giorgio e a crítica teatral Bárbara Heliodora.

Na época, o largo era um lugar bucólico, um espaço de beleza e charme. Foi morada de artistas plásticos, intelectuais, estrangeiros, cariocas cultores do belo e da boa arte, além de palco de festas memoráveis num tempo de requinte e glamour quando o Rio era capital do Brasil e sede de embaixadas do mundo todo.  Entre as grandes festas estão o jantar “black-tie” que Beki e Vanda Klabin ofereceram para Charles Aznavour e as reuniões com artistas e intelectuais, na casa do pintor Augusto Rodrigues. 

Em 1973 o lugar serviu de cenário para a chamada de fim de ano da TV Globo e, em 1979, foi escolhido como um dos cenários do filme do agente secreto James Bond, “007 Contra o Foguete da Morte”, com Roger Moore. 

Em 1986, o Largo foi declarado área de proteção ambiental e Cultural do Cosme Velho e, em 1990, esses imóveis foram tombados pelo INEPAC.

Sylvia Bittencourt era a proprietária das sete casas tombadas, que foram vendidas e recuperadas pela rede de hotéis Accor, que transformou o local em uma unidade do ‘Jo&Joe’, um hostel da marca, com sedes no Rio de Janeiro; em Hossegor, na costa de Landes; em Viena,  capital austríaca; em Medellín e duas unidades em Paris. 

Segundo a historiadora Vanda Klabin, Sylvia – a primeira jornalista brasileira a receber o prêmio ‘Maria Moors Cabot’ como correspondente de guerra da United Press –  é a autora da antiga placa de bronze no centro do Largo do Boticário, onde escreveu: “Vós, que morais neste recanto, sob a bênção da água e do silêncio, lembrai-vos que de vós depende o encanto daqui”.

Tags: ColunaEdiel RibeiroLARGO DO BOTICÁRIORio de Janeiro
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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