O deputado federal André Janones (Rede-MG) criticou nesta quarta-feira (14) o tratamento dado pela Justiça Eleitoral ao canal de WhatsApp “Exército do Lula” e comparou a situação com a estrutura digital montada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) em apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro.
Em entrevista ao Estúdio i, da GloboNews, Janones afirmou que, embora não seja candidato à Presidência nem integrante formal da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva, o Tribunal Superior Eleitoral exigiu que o canal fosse registrado pela coligação do presidente para continuar funcionando.
Após o registro, o “Exército do Lula” ainda teve que permanecer 48 horas sem novas atividades antes de ser liberado, em cumprimento à determinação do presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques.
Janones questionou por que exigência semelhante ainda não havia sido aplicada à “Tropa do Flávio”, canal criado no WhatsApp e divulgado por Nikolas Ferreira para mobilizar apoiadores e distribuir conteúdos favoráveis a Flávio Bolsonaro.
A “Tropa do Flávio” surgiu justamente no segundo turno e foi apresentada por Nikolas como uma resposta à mobilização organizada por Janones.
Na avaliação do deputado mineiro, os dois casos deveriam receber o mesmo tratamento da Justiça Eleitoral.
“Eu não sou candidato”
Janones argumentou durante a entrevista que sua condição é semelhante à de Nikolas: ambos são parlamentares que apoiam candidatos à Presidência e utilizam suas próprias redes para organizar militantes.
O deputado afirmou considerar irregular a exigência de vincular formalmente seu canal à campanha presidencial.
Apesar da discordância, disse que decidiu cumprir a ordem para impedir que o grupo permanecesse fora do ar.
“A gente está vendo a censura acontecer diante dos nossos olhos, devagarinho”, afirmou Janones ao Estúdio i.
A campanha de Lula registrou o “Exército do Lula” no TSE, embora sustente que o canal tenha sido criado e administrado diretamente por Janones, sem controle da estrutura oficial da candidatura.
O canal ultrapassou 4 milhões de integrantes durante o segundo turno.
Pedido para aplicar mesma regra a Nikolas
A diferença de tratamento citada por Janones também chegou formalmente ao TSE.
A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) acionou a Corte pedindo que a “Tropa do Flávio” seja submetida às mesmas regras aplicadas ao “Exército do Lula”.
Ela argumenta que, se um canal administrado por um parlamentar apoiador precisa ser registrado oficialmente pela campanha, o mesmo entendimento deveria valer para a estrutura coordenada por Nikolas Ferreira.
Até a entrevista de Janones, não havia sido imposta à “Tropa do Flávio” a mesma suspensão de 48 horas aplicada ao canal pró-Lula.
Relatório do TSE não encontrou fake news
Outro ponto abordado por Janones foi a acusação da campanha de Flávio Bolsonaro de que o “Exército do Lula” seria utilizado para disseminar informações falsas.
Uma análise técnica realizada pelo próprio Tribunal Superior Eleitoral não encontrou fake news nas mensagens examinadas no canal entre os dias 2 e 11 de outubro.
O relatório, entretanto, apontou que algumas mensagens anteriores haviam sido apagadas ou editadas, o que impossibilitou a análise integral de todo o conteúdo publicado. A campanha de Flávio sustenta que possui registros de mensagens excluídas que considera falsas.
Janones confirmou ao Estúdio i que apaga algumas publicações, mas afirmou que se trata principalmente de orientações temporárias de mobilização.
Segundo ele, são mensagens utilizadas para organizar o que chama de “missões”, como ampliar seguidores de determinado perfil ou divulgar determinada publicação.
“Quando essa missão é cumprida, eu apago esse áudio porque eu não vou perder o tempo dos novos membros ouvindo algo que não faz mais sentido”, explicou.
Janones diz que não usará canal para atacar instituições
Durante a entrevista, Janones também buscou estabelecer uma diferença entre a estratégia que pretende adotar e o modelo de comunicação utilizado por setores ligados ao bolsonarismo.
O deputado afirmou que seus canais não serão utilizados para atacar o Judiciário, a imprensa ou outras instituições, nem para disseminar informações que classifica como falsas.
Ele citou como exemplo a campanha de desinformação envolvendo uma suposta taxação do Pix, que ganhou grande alcance nas redes sociais em 2025 após um vídeo de Nikolas Ferreira.
Na ocasião, Nikolas não afirmou diretamente que o governo havia criado um imposto sobre o Pix, mas insinuou que uma taxação poderia ocorrer. A publicação ampliou significativamente a circulação de conteúdos falsos que afirmavam que transferências via Pix seriam tributadas.
A Receita Federal esclareceu à época que a norma tratava de informações financeiras enviadas pelas instituições e não criava imposto sobre transações via Pix. Agência de checagem Aos Fatos concluiu que o vídeo de Nikolas alimentou a disseminação da informação falsa sobre a suposta taxação.
Janones afirmou que pretende atuar de maneira combativa nas redes, mas respeitando os limites institucionais.
Segundo ele, há diferença entre organizar militância digital e utilizar grande alcance nas redes para atacar instituições ou espalhar informações falsas.
Embate com advogada de Flávio
A participação de Janones ocorreu depois de o Estúdio i entrevistar Maria Cláudia Bucchianeri, advogada da campanha de Flávio Bolsonaro.
Ela afirmou que a equipe jurídica do candidato possui provas de que mensagens falsas teriam sido publicadas e posteriormente apagadas do “Exército do Lula”.
Janones reagiu dizendo que pretende processá-la por calúnia.
“A doutora cometeu um crime. Os advogados meus já irão acioná-la porque ela afirmou que eu pratiquei crimes que eu não pratiquei. Isso chama calúnia”, afirmou.
O deputado também descartou um acordo político com a campanha adversária para encerrar a disputa envolvendo os canais.
“A gente não quer acordo com essa gente. A gente quer que a Justiça prevaleça”, declarou ao Estúdio i.
Disputa digital cresce no segundo turno
A controvérsia ocorre em meio à ampliação da disputa entre as duas campanhas no WhatsApp e em outras plataformas.
Além do “Exército do Lula” e da “Tropa do Flávio”, parlamentares, influenciadores e grupos partidários passaram a organizar redes próprias para compartilhar conteúdos e orientar apoiadores.
A própria “Tropa do Flávio” já foi envolvida em outra controvérsia nesta semana. O canal divulgou um vídeo de uma jovem supostamente usando cocaína e associou as imagens a um ato pró-Lula realizado em São Paulo.
A gravação, no entanto, circulava desde junho em perfis argentinos e não havia sido feita na manifestação brasileira.
Para Janones, a Justiça Eleitoral deverá estabelecer critérios que sejam aplicados igualmente às redes de apoiadores dos dois candidatos.


