O Ministério das Relações Exteriores repudiou as declarações do presidente da Argentina, Javier Milei, sobre a eleição brasileira e classificou como “nova e inaceitável tentativa de ingerência externa” a manifestação do argentino às vésperas do segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Milei publicou nas redes sociais ataques contra Lula e colocou sob suspeita, sem apresentar provas, a lisura da eleição marcada para domingo (25). Ao compartilhar um trecho de entrevista do presidente brasileiro, afirmou esperar que a reta final da campanha não incluísse uma tentativa de “roubar a eleição”. Também voltou a atacar Lula em outra publicação relacionada ao debate presidencial.
Na nota, o Itamaraty afirmou que as declarações atingem o Poder Judiciário e o sistema eletrônico de votação e reiteram acusações já feitas contra as urnas sem comprovação. A pasta ressaltou que cabe exclusivamente aos brasileiros decidir o futuro do país e reafirmou a segurança do processo eleitoral.
A manifestação de Milei ocorre em um contexto diferente de uma simples opinião de um chefe de Estado estrangeiro sobre a política brasileira. O argentino declarou publicamente apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro e participou, em julho, da convenção nacional do PL que oficializou o senador como candidato à Presidência.
No evento, realizado em São Paulo, Milei fez campanha aberta contra Lula, apresentou Flávio como alternativa para derrotar a esquerda brasileira e discursou sobre a importância de sua eleição para uma mudança política na América Latina.
A presença do presidente argentino na convenção já havia provocado reação diplomática. No dia seguinte, o Itamaraty convocou o embaixador argentino para transmitir a “repulsa” do governo brasileiro às declarações feitas por Milei em território nacional e chamou o embaixador brasileiro em Buenos Aires para consultas.
Em agosto, depois de novos ataques, o Brasil rebaixou o nível da representação diplomática em Buenos Aires e passou a manter no país um encarregado de negócios, em vez de um embaixador.
Argentina enfrenta aumento da pobreza e perda de força da economia
As novas manifestações de Milei também ocorrem enquanto seu governo enfrenta dificuldades econômicas e sociais dentro da própria Argentina.
Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística e Censos argentino (Indec) mostram que 32,3% da população dos 31 principais aglomerados urbanos estava abaixo da linha de pobreza no primeiro semestre de 2026. No mesmo período de 2025, eram 31,6%.
A indigência, que identifica pessoas com renda insuficiente para adquirir a cesta básica alimentar, também aumentou. Passou de 6,9% da população no primeiro semestre de 2025 para 7,5% no mesmo período deste ano.
O mercado de trabalho seguiu movimento semelhante. A taxa de desemprego chegou a 7,9% no segundo trimestre de 2026, contra 7,6% no mesmo período do ano passado.
A atividade econômica também perdeu força recentemente. O PIB argentino cresceu 2% no segundo trimestre na comparação com igual período de 2025, mas recuou 0,6% em relação aos três primeiros meses deste ano. Em julho, o indicador mensal de atividade caiu 1,4% frente a julho de 2025 e 2,9% na comparação com junho.
O consumo nos supermercados mostra outra pressão sobre as famílias. As vendas em termos reais recuaram 2,1% em julho na comparação anual e acumulavam queda de 2,7% de janeiro a julho.
Brasil tem desemprego menor e segue fora do Mapa da Fome
No Brasil, os indicadores mais recentes apresentam uma trajetória diferente em vários desses pontos.
A taxa de desemprego ficou em 5,3% no trimestre encerrado em agosto, abaixo dos 5,6% registrados no mesmo período de comparação anterior da pesquisa. Em 2025, a taxa média anual havia chegado a 5,6%, menor nível da série histórica iniciada em 2012.
O emprego com carteira assinada também continuou crescendo. Entre janeiro e agosto de 2026, o país criou 1,13 milhão de postos formais, elevando o estoque para mais de 48,2 milhões de vínculos.
A economia brasileira cresceu 0,5% no segundo trimestre em relação ao trimestre anterior e 2% na comparação com o mesmo período de 2025. No acumulado de quatro trimestres, o avanço foi de 1,9%.
A inflação acumulada em 12 meses estava em 4,58% em setembro, segundo o IBGE.
Na área social, o relatório mundial sobre segurança alimentar divulgado pela FAO em julho confirmou que o Brasil permanece fora do Mapa da Fome. A prevalência de subnutrição ficou abaixo de 2,5% da população, limite usado pelas Nações Unidas para essa classificação. O relatório de 2026 apontou ainda queda da insegurança alimentar severa no país.
Os dados de pobreza e insegurança alimentar de Brasil e Argentina não são diretamente equivalentes, porque os países e organismos internacionais utilizam metodologias e períodos diferentes. Ainda assim, os indicadores oficiais permitem observar trajetórias recentes distintas em áreas como mercado de trabalho, atividade econômica e condições sociais.
Apoio a Flávio é público
A ligação política de Milei com a candidatura de Flávio não começou nas manifestações desta semana.
Em julho, o argentino viajou ao Brasil para a convenção que lançou oficialmente o candidato do PL. No discurso, atacou Lula e defendeu abertamente a eleição de Flávio, apresentando a disputa brasileira como parte de um movimento regional de governos de direita.
Milei e Flávio também apareceram juntos antes da convenção e divulgaram mensagens nas redes sociais destacando a proximidade política entre os dois.
É nesse contexto que o Itamaraty classificou as novas declarações sobre possível fraude como tentativa de interferência externa.
As relações entre Brasil e Argentina têm peso que ultrapassa as divergências entre seus presidentes. Os dois países são os principais integrantes do Mercosul, possuem cadeias industriais integradas e mantêm mais de dois séculos de relações diplomáticas.
Na nota divulgada após os novos ataques, o governo brasileiro voltou a defender que a definição sobre quem ocupará a Presidência a partir de 2027 pertence exclusivamente aos eleitores brasileiros.


