Há exatos 50 anos, em 22 de agosto de 1976, o Brasil perdia um dos personagens mais importantes de sua história política. Juscelino Kubitschek de Oliveira, o JK, morreu aos 73 anos em um acidente automobilístico na Via Dutra, quando viajava de São Paulo para o Rio de Janeiro.
Antes de se tornar presidente da República e ter seu nome definitivamente associado à construção de Brasília, JK percorreu uma trajetória que começou longe dos grandes centros políticos do país.
Juscelino nasceu em Diamantina, no interior de Minas Gerais, em 12 de setembro de 1902. Filho de João César de Oliveira e da professora Júlia Kubitschek, perdeu o pai ainda criança e foi criado pela mãe. A origem relativamente modesta marcou os primeiros anos de sua formação.
Estudou no Seminário de Diamantina e, ainda jovem, mudou-se para Belo Horizonte. Para ajudar a custear os estudos, trabalhou como telegrafista enquanto cursava Medicina. Em 1927, formou-se pela Faculdade de Medicina de Minas Gerais, instituição que posteriormente seria incorporada à UFMG.
A profissão não foi apenas uma passagem antes da política. JK exerceu efetivamente a medicina.
Trabalhou na Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte e seguiu para a Europa, onde se especializou em urologia, com estudos em Paris. De volta a Minas, abriu consultório e passou a integrar o corpo médico do Hospital Militar da Força Pública do Estado.
Durante a Revolução Constitucionalista de 1932, atuou como médico no atendimento aos feridos na região da divisa entre Minas Gerais e São Paulo. A experiência também contribuiu para aproximá-lo das lideranças políticas mineiras.
No ano seguinte, JK tornou-se chefe de gabinete do interventor Benedito Valadares. Em 1934, foi eleito deputado federal, iniciando uma carreira política que o levaria aos principais cargos públicos do país. Com o fechamento do Congresso pelo Estado Novo, em 1937, perdeu o mandato e voltou à medicina.
De prefeito de BH à Presidência
Em 1940, Benedito Valadares nomeou Juscelino prefeito de Belo Horizonte.
Foi na capital mineira que começou a ganhar projeção como administrador. JK abriu e ampliou avenidas, promoveu intervenções nas redes de água e esgoto e iniciou uma transformação urbana que teria na Pampulha sua principal marca.
O então prefeito encomendou ao jovem arquiteto Oscar Niemeyer o projeto do conjunto arquitetônico da Pampulha. A iniciativa reuniu arquitetura, paisagismo e arte e tornou-se décadas depois Patrimônio Cultural da Humanidade reconhecido pela Unesco.
Mesmo prefeito, Juscelino não abandonou imediatamente a medicina. Continuou atuando no Hospital Militar e também chefiou o Serviço de Urologia da Santa Casa.
Após deixar a Prefeitura, voltou à Câmara dos Deputados. Em 1950, foi eleito governador de Minas Gerais.
No governo mineiro, adotou como eixo o chamado binômio “energia e transportes”, defendendo investimentos em infraestrutura como caminho para acelerar o desenvolvimento econômico do Estado. A experiência serviria de base para um projeto ainda mais ambicioso alguns anos depois.
Em 1955, JK venceu a eleição presidencial pela aliança PSD-PTB, tendo João Goulart como vice. Depois de uma grave crise política em torno de sua posse, assumiu a Presidência em 31 de janeiro de 1956.
No Palácio do Catete, apresentou o Plano de Metas, associado ao lema “50 anos em 5”. O governo buscava acelerar a industrialização brasileira com investimentos em energia, transportes, indústria, alimentação e educação.
Foi nesse período que a indústria automobilística ganhou impulso no país, rodovias foram abertas e grandes projetos de infraestrutura avançaram.
Mas nenhuma realização se tornou tão associada a JK quanto Brasília.
A transferência da capital federal para o interior estava prevista constitucionalmente havia décadas, mas foi Juscelino quem transformou o projeto em realidade. A nova capital, planejada por Lúcio Costa e marcada pela arquitetura de Oscar Niemeyer, foi inaugurada em 21 de abril de 1960.
JK deixou a Presidência em janeiro de 1961 e depois assumiu mandato de senador por Goiás. Seus planos políticos, entretanto, seriam interrompidos pelo golpe militar de 1964.
O ex-presidente teve o mandato cassado e os direitos políticos suspensos por dez anos. Passou períodos fora do Brasil e, mesmo afastado formalmente da vida eleitoral, continuou sendo uma das figuras políticas mais conhecidas do país.

A morte na Via Dutra
Em 22 de agosto de 1976, Juscelino viajava em um Chevrolet Opala pela Rodovia Presidente Dutra quando o automóvel conduzido por seu motorista, Geraldo Ribeiro, envolveu-se em uma colisão na altura de Resende, no Rio de Janeiro. Os dois morreram.
As circunstâncias da morte alimentaram durante décadas suspeitas de que JK pudesse ter sido vítima de um atentado durante a ditadura militar.
O episódio foi objeto de diferentes investigações. A Comissão Nacional da Verdade voltou a analisar documentos, perícias e depoimentos e concluiu, em seu relatório final, que JK e Geraldo Ribeiro morreram em decorrência das lesões provocadas pelo acidente automobilístico, sem encontrar elementos materiais que comprovassem assassinato.
Cinquenta anos depois, Juscelino continua ocupando um espaço singular na memória política brasileira.
Sua trajetória passou praticamente por todos os níveis da vida pública: foi deputado federal, prefeito de Belo Horizonte, novamente deputado, governador de Minas Gerais, presidente da República e senador.
Mas antes de Brasília, do Palácio do Catete e das grandes obras, havia o jovem de Diamantina que deixou o interior de Minas, trabalhou como telegrafista para estudar e tornou-se médico.
Uma trajetória que começou nas montanhas mineiras e terminou inscrita definitivamente na história do Brasil.


