Um dos momentos de maior tensão do debate presidencial da TV Globo, na noite de sexta-feira (23), ocorreu quando Flávio Bolsonaro (PL) foi questionado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre sua atuação na defesa do policial militar acusado pela morte de Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos.
A mãe da menina, Cristiane Gomes da Silva, acompanhava o debate na primeira fila da plateia, usando uma camiseta com a fotografia da filha e a frase “Justiça por Ana Clara”.
Lula perguntou a Flávio por que, na condição de senador, havia participado da defesa do cabo da PM Bruno Dias Delaroli, único acusado no processo pela morte da criança.
“O que leva um senador a defender um policial que deu um tiro de fuzil numa menina de 5 anos? Que segurança é essa? Que território é esse? O território da bala?”, questionou Lula.
Ao iniciar a resposta, Flávio se dirigiu a Cristiane, mas a chamou pelo nome da filha morta.
“Ana Clara, eu quero falar para a senhora, prestar de verdade a minha solidariedade. Foi uma tragédia o que aconteceu. Eu não consigo imaginar o que é perder uma filhinha de 5 anos de idade”, disse.
A reação veio imediatamente da plateia.
“Ela está morta”, gritou Cristiane ao ouvir o candidato pronunciar o nome da filha como se estivesse se dirigindo a ela.
Flávio prosseguiu dizendo que queria ajudar a mãe a descobrir quem havia feito o disparo que matou a menina.
“Eu quero ajudar a senhora, inclusive, a saber quem foi o autor desse disparo. Porque eu tenho a confiança que não foi esse policial”, afirmou.
O candidato também sustentou que teria ocorrido uma troca de tiros na comunidade.
“Era uma troca de tiros em uma comunidade conflagrada. A senhora sabe que tem o tráfico de drogas aí”, declarou.
Cristiane contestou a versão ainda durante o debate e, no intervalo, voltou a criticar a resposta.
“Não teve resposta. Não tive a resposta que eu quero. Ele não respondeu porque defendeu o assassino da minha filha. Ele inventou um confronto, como o policial inventou”, afirmou. Também disse que estava no local e que não havia traficantes no momento em que a filha foi atingida.
Perícia não encontrou sinais da troca de tiros alegada pela defesa
Ana Clara morreu em 2 de fevereiro de 2021, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio. A menina brincava perto de casa com o irmão, de 2 anos, quando foi atingida durante uma ação policial.
Segundo a denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro, Bruno Dias Delaroli disparou um fuzil calibre 7,62 em direção a uma área residencial e continuou atirando mesmo depois de moradores alertarem para a presença de pessoas no local.
O Ministério Público afirmou que não houve confronto. A perícia recolheu no local estojos de munição de fuzil calibre 7,62, compatíveis com as armas utilizadas pelos policiais, e não encontrou estojos de pistola, arma que, segundo a versão apresentada pelo PM, teria sido usada pelos criminosos.
Delaroli foi preso em flagrante e denunciado por homicídio. Desde novembro de 2021, responde ao processo em liberdade, sob medidas cautelares.
Flávio passou a integrar a defesa do policial em 2024. Seu nome aparece entre os advogados em recurso apresentado ao Superior Tribunal de Justiça para tentar reverter a decisão que determinou o julgamento do PM pelo Tribunal do Júri. O recurso foi rejeitado pela Quinta Turma do STJ por 3 votos a 2.
O processo passou posteriormente pelo STF, que também manteve a realização do júri. A decisão sobre o envio do policial ao Tribunal do Júri tornou-se definitiva em 2025.
O julgamento estava marcado para 21 de outubro deste ano, mas foi remarcado para 5 de maio de 2027.
Durante o debate, Flávio reafirmou sua confiança na inocência do policial.
“Tenho confiança que não foi esse policial, que sequer foi julgado”, declarou.
Depois da discussão sobre Ana Clara, o debate seguiu no tema da segurança pública. Flávio defendeu redução da maioridade penal, classificação de organizações criminosas como narcoterroristas e endurecimento das penas. Lula voltou a defender a criação do Ministério da Segurança Pública e o fortalecimento da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal.


