Uma fila que começa a se formar ainda pela manhã na porta de um açougue de Cuiabá, em Mato Grosso, tornou-se nos últimos dias um dos retratos mais duros do avanço da fome no Brasil. Sem dinheiro para comprar carne, centenas de pessoas aguardam durante horas para receber gratuitamente ossos e restos da desossa de bois.
As cenas registradas no Atacadão da Carne, no bairro CPA 2, ganharam repercussão nacional. A distribuição não é nova. Os proprietários do estabelecimento afirmam que doam os ossos há cerca de dez anos. O que mudou foi o tamanho da fila.
Antes da pandemia, entre 20 e 30 pessoas procuravam o açougue. Agora, segundo o proprietário Edivaldo Oliveira, o número chega a cerca de 200. Há moradores que chegam antes das 9h e permanecem no local durante horas à espera de uma sacola com aproximadamente um quilo a um quilo e meio de ossos.
Para muitas famílias, o que antes poderia ser descartado após a retirada da carne passou a representar a possibilidade de colocar alguma coisa na panela.
Os relatos de quem enfrenta a fila mostram uma realidade marcada pelo desemprego e pela perda de renda. Há pessoas que atravessam a cidade para buscar os ossos e famílias que já não conseguem comprar carne regularmente. A procura aumentou a ponto de o estabelecimento encontrar dificuldades para atender todos que chegam em busca da doação.
A chamada “fila do osso” surge justamente em Mato Grosso, um dos principais estados produtores de carne bovina do país, e dá dimensão concreta a números que já vinham apontando o agravamento da situação alimentar dos brasileiros.
19 milhões de brasileiros passam fome
Levantamento da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), divulgado neste ano, aponta que 19,1 milhões de brasileiros estão em situação de insegurança alimentar grave, condição caracterizada pela falta de alimentos e pela fome.
Ao todo, 116,8 milhões de pessoas, o equivalente a 55,2% da população, convivem com algum grau de insegurança alimentar. Desse contingente, 43,4 milhões não dispõem de alimentos em quantidade suficiente.
Os dados foram coletados em dezembro de 2020, em 2.180 domicílios das cinco regiões brasileiras, e mostram uma forte deterioração das condições de acesso à alimentação. Em 2018, 36,7% da população estava em situação de insegurança alimentar.
A dificuldade para comprar comida ocorre em meio à combinação de desemprego elevado, redução da renda e aumento do custo de vida.
Dados mais recentes do IBGE mostram que o desemprego atingiu 14,7% no primeiro trimestre deste ano, maior taxa da série histórica iniciada em 2012. O país tinha 14,8 milhões de pessoas procurando trabalho. Outros 33,2 milhões estavam subutilizados, também recorde da série.
Ao mesmo tempo, os alimentos continuam pressionando o orçamento das famílias. O IPCA-15 de julho mostra que o grupo alimentação e bebidas subiu 0,49% no mês. A prévia da inflação acumula alta de 8,59% nos últimos 12 meses.
A combinação pesa principalmente sobre as famílias de baixa renda, que destinam parcela maior do orçamento à alimentação.

Auxílio emergencial menor em 2021
O cenário ocorre durante o terceiro ano do governo do presidente Jair Bolsonaro e ainda sob os efeitos econômicos e sociais provocados pela pandemia de Covid-19.
O auxílio emergencial, criado em 2020 para reduzir os impactos da crise, voltou a ser pago neste ano com valores menores. O benefício é de R$ 250 para a maior parte dos beneficiários, R$ 150 para quem mora sozinho e R$ 375 para mulheres chefes de famílias monoparentais.
Em 2020, o auxílio começou em R$ 600, chegando a R$ 1.200 para mães chefes de família, e posteriormente foi reduzido para R$ 300 e R$ 600, respectivamente.
No início deste mês, o governo federal prorrogou o auxílio emergencial de 2021 por mais três meses, mantendo os valores atuais.
Enquanto os indicadores econômicos e sociais mostram o tamanho da crise, em Cuiabá ela aparece de maneira muito mais simples e visível: pessoas chegam cedo, sentam-se na calçada e esperam a abertura de uma porta lateral do açougue para levar para casa aquilo que restou depois que a carne foi retirada dos ossos.


