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Home Colunas

Fernando Sabino: 100 anos

Por Lenin Novaes
22 de setembro de 2023 - 08:25
em Colunas

Isolamento concentrado era tática de Fernando Sabino para escrever seus livros. (Foto: Arquivo Nacional)

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– Marineth, apoiado na dinâmica de trabalho para escrever, instruída por Fernando Sabino, cheguei perto da finalização do romance Filho dos deuses. Falta pouco, bem pouquinho, para a conclusão do livro. Tive período de ritmo intenso, mas, devido às circunstâncias adversas que nos contrariam desejos – às vezes, até, a concepção política-ideológica -, engavetei o texto. E, na releitura do que já tenho escrevinhado, lembrei-me dele, agora, às vésperas do seu centenário de nascimento, celebrado no Dia das Crianças, em 12 de outubro.

– Qual a estratégia que ele lhe ensinou para concentrar-se em escrever livro, Athaliba?

– A tática é simples, Marineth. Exige disciplina. Ocê deve se concentrar designadamente na tarefa, centrada na rotina diária de se trancar no escritório por três horas. Deve colocar a lauda na máquina de escrever (epa!, instrumento da época, antes do advento do computador doméstico) e deixar a imaginação fluir. Não deve ter a obrigação de escrever, duas, cinco ou nove laudas. E, ainda, o fato de não escrever uma lauda sequer não deve te desestimular do objetivo central.

– Interessante à estratégia, Athaliba. Ocê precisa retomar o texto do livro de uma vez por todas. E, assim, quem sabe, possa conseguir o êxito de O encontro marcado, obra magistral de Fernando Sabino. Conta-me sobre a trajetória dele, principalmente, na literatura.

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– Ele, Marineth, é mineiro de Belo Horizonte, nascido em 1923. Faleceu 11/10 de 2004, no Rio de Janeiro. Ingressou na Faculdade de Direito, em Minas Gerais, na década de 1940. Mas, bandeou-se para o jornalismo, capitaneado pelo escritor Murilo Rubião, que o fez redator do jornal Folha de Minas. Em 1939, integrando o Minas Tênis Clube, sagrou-se campeão sul-americano em nado de costas, modalidade esportiva que bateu vários recordes. E, ainda naquele ano, ficou em 2º lugar na Maratona Nacional de Português e Gramática Histórica.

– Qual o primeiro livro dele, Athaliba?

– Aos 18 anos, Marineth, ele lançou Os grilos não cantam mais, livro de contos, em 1941. A publicação, inclusive, tem alguns contos que ele escreveu quando tinha 14 anos de idade. Na época conheceu João Etienne Filho, Guilhermino César e Marques Rebêlo, com os quais trocou informações. Porém formou patota com Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino, Wilson Figueiredo e Paulo Mendes Campos, que ficou conhecida como Grupo dos Vintanistas. É que eles estavam na casa dos 20 anos.

– Athaliba, que outro jornal ele trabalhou?

– Marineth, quando ele se mudou para o Rio de Janeiro, em 1944, passou a colaborar para o Correio da Manhã. Trata-se do jornal, inclusive, no qual iniciei a minha atividade jornalística, claro, mais de duas décadas depois. E, naquele ano, publicou a novela A marca. Finalmente, em 1946, concluiu o curso na Faculdade Nacional de Direito. Escreveu crônicas para o Diário Carioca e O Jornal, que reuniu, depois, no livro A cidade vazia.

– Athaliba, ele escreveu crônica diária para o Jornal do Brasil, né?

– Sim, Marineth. E, mês-a-mês, para a revista Senhor. O livro O homem nu, publicado em 1960, foi vinculado à Editora do Autor, fundada por ele, Rubem Braga e Walter Acosta. A mulher do vizinho, de 1962, lhe rendeu o Prêmio Fernando Chinaglia, do Pen Club do Brasil. Foi adido cultural junto à Embaixada do Brasil, quando se mudou para Londres, na Inglaterra, em 1964.

– O livro O grande mentecapto, de 1979, deu a ele, Athaliba, o Prêmio Jabuti.

– Pois é, Marineth. O livro foi adaptado para o cinema, em 1989, e também para o teatro. A seguir publicou O menino no espelho, A faca de dois gumes e O tabuleiro de damas, que é considerado autobiográfico. Pelo conjunto de sua obra, em 1999, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras. Publicou Cartas sobre a mesa, em 2002 e, no ano que morreu, 2004, às vésperas de completar 81 anos, Os movimentos simulados.

– Athaliba, na lápide do túmulo, conforme a vontade dele, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, tem o seguinte epitáfio: “Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino!”.

– Marineth, em 2005, por iniciativa da família do consagrado escritor mineiro, foi criado o Instituto Fernando Sabino, cujo objetivo é incentivar a prática da leitura a partir da obra dele. Em Belo Horizonte, desde o ano de 2018, existe área de exposição permanente com o nome Espaço Cultural Encontro Marcado. Salve Fernando Sabino, operário dedicado da literatura brasileira!

Tags: ColunaLenin Novaes
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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