A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e os sindicatos filiados repudiaram a condução e o formato do debate presidencial realizado pela Band no domingo (18) entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Em nota oficial, a entidade afirma que um espaço que deveria servir para o confronto de ideias, apresentação de propostas e esclarecimento dos eleitores acabou transformado em um espetáculo marcado por provocações, bordões e ataques pessoais.
Para a Fenaj, a responsabilidade de uma emissora que promove um debate eleitoral não termina na divisão igual do tempo entre os candidatos. O jornalismo também deve confrontar versões, contextualizar informações e impedir que afirmações comprovadamente falsas sejam apresentadas ao público em condições semelhantes às dos fatos.
“Debate eleitoral não é entretenimento. Jornalismo não é espetáculo”, afirma a entidade.
A crítica encontra exemplos no próprio debate da Band. Durante o confronto, diferentes afirmações falsas ou distorcidas circularam sem correção imediata dos mediadores.
Checagem realizada em tempo real pelo Aos Fatos classificou como falsas, entre outras declarações, as afirmações de Flávio de que o Careca do INSS teria integrado o governo Lula, de que a Polícia Federal não investigaria Fábio Luís Lula da Silva, de que Lula e Janja teriam gasto R$ 7 bilhões em viagens e de que o governo atual seria recordista em criminalidade. A agência também identificou erros de Lula, como a afirmação de que o Brasil só voltou a crescer acima de 3% depois de seu retorno à Presidência e a declaração sobre a maior demarcação de terras indígenas da história.
O problema apontado pela Fenaj, portanto, não está em qual candidato apresentou a informação incorreta, mas na ausência de mecanismos dentro do próprio debate capazes de impedir que desinformação permaneça diante do eleitor como se fosse apenas mais uma versão política.
Globo interrompeu Flávio ao citar caso Vorcaro
Um episódio ocorrido dois dias antes do debate mostra uma diferença de postura editorial.
Durante entrevista à TV Globo, conduzida por Renata Lo Prete na sexta-feira (16), Flávio Bolsonaro tentou usar contra Lula um áudio atribuído ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Flávio afirmou que Vorcaro teria falado sobre R$ 30 milhões pagos “por fora” relacionados ao filme sobre Lula.
Renata interrompeu o candidato e explicou que estava conduzindo a entrevista com base em informações respaldadas por investigações de órgãos competentes ou por apurações jornalísticas confirmadas. Disse que aquele assunto não oferecia “terreno firme” para ser apresentado como fato.
Flávio insistiu e afirmou que a informação estaria confirmada pela Polícia Federal.
A jornalista voltou a intervir: “Não está confirmado pela Polícia Federal.”
A correção era necessária porque a PF havia informado que Vorcaro não prestou depoimento com aquele conteúdo nem entregou documentos com as informações divulgadas. A defesa do ex-banqueiro também havia afirmado não reconhecer a origem, autenticidade e integridade do material.
Além disso, o áudio divulgado não contém a afirmação, da maneira apresentada por Flávio, de que R$ 30 milhões teriam sido pagos ao Instituto Lula. A referência ao valor aparecia em material escrito atribuído a Vorcaro, cuja existência e incorporação às propostas de colaboração não foram confirmadas pela PF.
O episódio mostra a diferença entre permitir que um candidato apresente sua versão e deixar uma informação já contestada pelas autoridades circular sem qualquer contextualização.
Na entrevista da Globo, Flávio pôde defender sua posição e insistir na acusação, mas o público também recebeu imediatamente a informação de que aquilo que estava sendo apresentado como confirmação da Polícia Federal não correspondia à posição da corporação.
No debate da Band, o mesmo tipo de intervenção editorial não ocorreu.
Formato abriu espaço para encenação
Outro ponto questionado pela Fenaj foi o próprio formato escolhido pela Band.
Nos momentos de confronto direto, os candidatos administravam livremente o tempo e podiam circular pelo estúdio. A dinâmica havia sido definida previamente nas regras do debate.
Flávio utilizou essa liberdade em vários momentos para permanecer atrás de Lula enquanto o presidente respondia, fazendo gestos, expressões e sinais de discordância diante das câmeras. A movimentação passou a disputar a atenção visual com a fala do adversário.
A regra era permitida pela própria organização do programa. O problema levantado pela discussão posterior é se esse tipo de formato ajuda o eleitor a compreender propostas ou se estimula justamente a produção de cenas, provocações e imagens destinadas às redes sociais.
A própria Band havia anunciado o encontro como uma oportunidade para ajudar o eleitor na tomada de decisão e informou que haveria análises e checagens em tempo real por meio de sua Sala Digital.
Na prática, porém, o confronto direto permitiu longos períodos de bate-boca, interrupções, deslocamentos pelo cenário e acusações sucessivas, enquanto temas como saúde, educação, emprego, renda, meio ambiente e políticas públicas tiveram espaço menor.
É exatamente esse modelo que a Fenaj questiona.
Na avaliação da entidade, quando o debate privilegia slogans, ataques pessoais e performances, temas fundamentais para a escolha do eleitor acabam relegados a segundo plano.
“Neutralidade diante da desinformação não representa imparcialidade”
A Fenaj também contesta a ideia de que a emissora deva permanecer passiva diante de qualquer declaração feita pelos candidatos em nome da imparcialidade.
Segundo a entidade, pluralidade não significa dar à mentira o mesmo tratamento concedido aos fatos. A Federação defende que as emissoras adotem regras que permitam respostas objetivas, intervenção diante de informações comprovadamente falsas e responsabilização pelo descumprimento das normas.
O objetivo, segundo a nota, não é impedir o contraditório nem dizer ao eleitor em quem votar, mas garantir que a decisão seja tomada a partir de informações que possam ser verificadas.
A Federação também ressalta que debates eleitorais não devem ser planejados prioritariamente para gerar audiência ou produzir cortes destinados às redes sociais.
Para a entidade, cabe ao jornalismo perguntar, cobrar respostas, confrontar versões e contextualizar fatos, especialmente em uma eleição presidencial.
“A informação é um direito da sociedade”, afirma a nota.
A Fenaj encerra o documento defendendo uma revisão dos modelos adotados pelas emissoras brasileiras para os próximos debates e afirma que a sociedade merece discussões “à altura de seus desafios”.
Leia a íntegra da nota:
Debate eleitoral não é espetáculo. Jornalismo exige compromisso com a verdade e a democracia!
A Federação Nacional dos Jornalistas e seus Sindicatos filiados manifestam indignação com a condução e o formato do debate eleitoral promovido pela TV Bandeirantes, na noite do último domingo (18/10). O que deveria ser um espaço democrático de confronto de ideias, apresentação de propostas e esclarecimento dos eleitores transformou-se em um espetáculo de provocações, bordões e ataques, em prejuízo da informação e interesse público.
O jornalismo não pode ser refém da lógica do espetáculo, da audiência a qualquer preço ou das estratégias de candidatos que desprezam o diálogo democrático. Quando perguntas não são respondidas, afirmações falsas deixam de ser confrontadas e argumentos são substituídos por encenações, quem perde é a população brasileira.
Liberdade de expressão não significa liberdade para transformar um debate jornalístico em instrumento de manipulação. E pluralidade não significa conceder às mentiras o mesmo tratamento dispensado aos fatos.
Reconhecemos a trajetória dos profissionais responsáveis pela mediação, mas questionamos a responsabilidade editorial da emissora, a fragilidade das regras e a ausência de mecanismos capazes de assegurar a finalidade do debate. Não basta oferecer tempo igual aos candidatos. É indispensável garantir informações relevantes, fundamentadas e passíveis de verificação.
O jornalismo não pode abdicar de sua responsabilidade de perguntar, confrontar versões, contextualizar acontecimentos e exigir respostas. A neutralidade diante da desinformação não representa imparcialidade. Ao contrário, pode contribuir para sua legitimação.
É grave quando um debate favorece slogans e ataques pessoais, relegando a segundo plano temas fundamentais como saúde, educação, emprego, renda, desigualdade, segurança, soberania nacional, meio ambiente e direitos sociais. O futuro do país exige propostas concretas, não encenações destinadas à produção de cortes para as redes sociais.
Defendemos que as emissoras revejam seus modelos de debates eleitorais, com regras efetivas que assegurem respostas objetivas, intervenção editorial diante de informações comprovadamente falsas e responsabilização pelo descumprimento das normas.
Não se trata de restringir o contraditório ou tutelar o pensamento dos eleitores, mas de assegurar o direito constitucional à informação de qualidade e impedir que a desinformação comprometa a liberdade de escolha.
O Brasil conhece as consequências da normalização da mentira, da violência verbal e dos ataques às instituições democráticas. O jornalismo não pode ignorar essa experiência nem repetir práticas que transformaram a agressividade e a desinformação em instrumentos de disputa política.
Cabe às empresas de comunicação, aos profissionais e às entidades representativas reafirmar os princípios éticos do jornalismo. A informação é um direito da sociedade, não uma mercadoria subordinada aos interesses comerciais ou à busca de audiência.
Reafirmamos nosso compromisso histórico com a liberdade de imprensa, a ética profissional, o direito à informação e a defesa intransigente da democracia.
Debate eleitoral não é entretenimento. Jornalismo não é espetáculo. Democracia não se constrói com mentiras. A sociedade brasileira merece debates à altura de seus desafios. E o jornalismo tem o dever de estar à altura de sua responsabilidade.
Brasília, 19 de outubro de 2026
Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e Sindicatos de Jornalistas Filiados


