“Eu não sei se bate boca, discussão ou coisa assim/
É o começo das coisas ou o princípio do fim/
É melhor brigarmos juntos que te ver longe de mim/
É melhor brigarmos juntos que te ver longe de mim/
Quem entende não precisa ouvir muita explicação/
Flor beijada pela brisa sempre me parece “p” de perdão/
Eu sou como uma pedra lisa das águas do ribeirão/
A vida me bateu tanto que eu decorei a lição/
Eu não sei se bate boca, discussão ou coisa assim/
É o começo das coisas ou o princípio do fim/
É melhor brigarmos juntos que te ver longe de mim/
Lagartixa sabe ao certo em que pau mete a cabeça/
Tem quem corte mais por perto, muito antes que o mal cresça”
– Marineth, parte dos versos de “Lição de vida”, música-título do LP da inigualável cantora Elza Soares, lançado há 50 anos, figurativamente, pode traduzir viés da trajetória de sua vida. Pois, desde o início da carreira, quando indagada por Ary Barroso de que planeta tinha vindo, ao vencer teste no programa dele, Calouros em desfile, ela disse: – “Vim do planeta fome”. E isso, creia, considerando aspectos conturbados da sua existência, nos levou a intitular Cantando para não enlouquecer o livro biográfico dela, escrito pelo saudoso amigo José Louzeiro e por mim.
– Athaliba, no teste musical, em 1953, na Rádio Tupi, ela cantou “Lama” de Paulo Marques e Alice Chaves. Aí, o Avelino, irmão dela, integrante da Orquestra Garam, fez comentário do caso ao maestro Joaquim Naegele. Ele a contratou como crooner da orquestra recordista de realização de bailes, até 1954. Vale ressaltar que Ary Barroso é autor de “Aquarela do Brasil” e foi o primeiro brasileiro indicado ao Oscar pela música “Rio de Janeiro”, tema do filme Brazil, de 1944. O filme foi indicado ainda a Melhor Mixagem de Som e Melhor Trilha Sonora.
– Bem lembrado, Marineth. Como é bom ter sua cumplicidade às minhas manifestações. O disco traz, no repertório, um dos maiores expoentes da MPB: Jorge Aragão, que é considerado o Poeta do Samba. A Elza gravou a primeira música dele, “Malandro”, composta junto com João Batista de Alcântara, o Jotabê. Têm ainda as músicas “Cipriano”, “Pinta e borda”, “Rainha dos sete mares”, “A rosa”, “Curumbandê”, “Nó na tristeza”, “Deus e viola”, “Estou com raiva de você”, “Samba, minha raiz” e o pot-pourri “Sal e pimenta”/”Mulata assanhada”/”Beija-me”.
– Athaliba, as orquestrações e regências do disco Lição de vida são de Ed Lincoln e Paulo Moura. O Ed Lincoln – Eduardo Lincoln Barbosa de Sabóia – ficou conhecido como Rei do Baile, à frente de banda de grande sucesso nos anos 1960. Ele ajudou a definir o som sambalanço e da música dançante no país. No órgão Hammond executava arranjos modernos, misturando samba, jazz e influências latinas. Lançou discos memoráveis pela gravadora Musidisc e projetou na MPB grandes músicos como Durval Ferreira, Luís Alves, Bebeto Castilho e Wilson das Neves.
– Marineth, o talento da Elza excedia os limites até então estabelecidos no cenário artístico brasileiro. Foi diplomada como Embaixatriz do Samba pelo então governador do antigo Estado da Guanabara, Negrão de Lima. Título recomendado pelo Conselho de Música Popular do Museu da Imagem e do Som – MIS -, em iniciativa do então presidente Ricardo Cravo Albin. De Caetano Veloso mereceu admiração, ao cantar com ele “Língua”, de autoria do artista, no disco Velô. E no ano seguinte, 1985, Caetano e Lobão produziram o disco dela intitulado Somos todos iguais.
– Athaliba, que recordação ocê tem da preparação do livro biográfico dela, Cantando para não enlouquecer? – Marineth, trago saudades do José Louzeiro, além dos encontros na Rua Coelho Neto, em Laranjeiras, durante meses escrevendo o livro, com a participação, às vezes, da própria Elza. Ela se perpetuou na minha memória, com inesquecíveis detalhes de sua vida. Ainda, recentemente, o estimado amigo e pesquisador da MPB, Eduardo Pontin – ele é autor do livro Vamô vadiá nesta lezeira, em parceria com sua mulher, a fotógrafa Francisca Sousa – leu a biografia e me enviou a seguinte mensagem: “Acabo de ler o trecho do seu livro sobre a Elza Soares em que vocês descrevem a participação dela no programa do Ary Barroso. Emocionante. Chorei. Obrigado por isso!”. O episódio é comovente. E Pontin captou com sua sensibilidade aguçada.


