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Home Colunas

Dono da verdade

Por João Baptista Herkenhoff
12 de agosto de 2020 - 10:29
em Colunas

Crédito: Lidia Neves/Ufes

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Não sou dono da verdade.

Aceito com a mesma tranquilidade opiniões favoráveis ao que escrevo e opiniões contrárias a meu pensamento.

Minha única preocupação é ser fiel às ideias em que acredito.

As proposições das quais discordamos podem revelar verdades que não conhecíamos.

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Quando um texto, escrito por este ou por aquele, provoca controvérsias, isto prova que o autor disse alguma coisa.

Quando ninguém se manifesta, nem a favor, nem contra, o autor deve ficar desapontado porque, com toda certeza, discorreu sobre o sexo dos anjos.

O debate contribui para o avanço de um povo.

Alguns textos que escrevi foram rebatidos, na coluna de Cartas dos Leitores, o mais democrático espaço dos jornais.

Muitos outros foram elogiados e compartilhados.

Nasci em Cachoeiro de Itapemirim, uma cidade onde o pensamento divergente sempre circulou como senha de inteligência.

Newton Braga, símbolo de minha terra, foi um alternativo, no seu modo de viver.

Renunciou a um cartório – vida financeira tranquila – porque um juiz de poucas luzes quis obrigá-lo a usar gravata durante todo o expediente.

Recusou-se a sair de Cachoeiro para tornar-se tão famoso quanto o irrmão (Rubem Braga) porque não podia viver longe do marulho das águas de seu rio (o Itapemirim).

Criou uma festa, que é mais que uma festa – é um poema: o Dia de Cachoeiro.

Uma festa alternativa porque baseada:

no afeto mais puro (uma festa de amor e de doçura);

na igualdade das pessoas (receberam o título de Cachoeirense Ausente Número –  um tipógrafo,  Trófanes Ramos; um cantor famoso, Roberto Carlos; um empresário, David Cruz).

De minha parte, considero esse troféu o mais importante que poderia ter recebido durante toda a existência.

Para um escritor, nascido na cidade guardada pelo Itabira (uma pedra que é um símbolo) , ser Cachoeirense Ausente Número Um é mais significativo do que ingressar na Academia Brasileira de Letras.     

Quem não é cachoeirense supõe que isto seja um exagero, mas exagero não é.

Na Academia entram gregos e troianos.

Entram escritores e pseudo-escritores.

Registre-se que a Academia rejeitou o ingresso do grande poeta capixaba Geir Campos, rejeição que deslustrou a entidade e em nada diminuiu o brilho e o mérito do poeta que escreveu estes versos:

“Morder o fruto amargo e não cuspir mas avisar aos outros quanto é amargo. Cumprir o trato injusto e não falhar mas avisar aos outros quanto é injusto.”

Tenho a honra de ter sido Juiz de Direito em São José do Calçado, cidade natal de Geir Campos.

João Baptista Herkenhoff

João Baptista Herkenhoff

JOÃO BATISTA HERKENHOFF, é Juiz de Direito aposentado. Foi um dos fundadores e primeiro presidente da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Vitória e também um dos fundadores do Comitê Brasileiro da Anistia (CBA/ES). Por seu compromisso com as lutas libertárias, respondeu a processo perante o Tribunal de Justiça (ES), tendo sido o processo arquivado graças ao voto de um desembargador hoje falecido, porém jamais esquecido. Autor de Direitos Humanos: uma ideia, muitas vozes (Editora Santuário, Aparecida, SP).

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