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Home Colunas

Delírios no paraíso vermelho

Por Lenin Novaes
5 de dezembro de 2022 - 07:31
em Colunas

Logomarca do enredo da Acedemicos do Salgueiro para o Carnaval de 2023. Divulgação- 

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– Marineth, a cor vermelha significa paixão. Tá no sangue do nosso corpo. Tá, também, na fogueira junina. No vulcão que brota da profundeza da terra. Tá lá no por do sol, demarcando o infinito. Enfim, surgiu no big bang que molda a criação contínua do universo, que integra nosso planeta. É na variedade da matiz que a Acadêmicos do Salgueiro desfilará com o tema Delírios de um paraíso vermelho. Seja como for, abaixo do Pico do Amor, em Itabira do Mato Dentro, berço do poeta Carlos Drummond de Andrade; seja na base da Serra da Tiririca, no Engenho do Mato, em Niterói; ou seja, na pista do sambódromo, vou nadar no turbilhão do oceano de emoção que o Salgueiro levará à Marques de Sapucaí. Quem viver verá!

– Athaliba, ocê, por favor, acena devagar com o vermelho, nesses tempos em que a cor é tida como ameaça à institucionalidade da conjuntura brasileira. Alguns dos adeptos que idolatram o mito pés de barro (ele diz ser líder da direita no país e perdeu as eleições presidenciais) vêm propagando que o Brasil pode avermelhar. Oxalá, antes fosse. Qualquer semelhança com o ano de 1964 não será mera coincidência, quando João Goulart visitou a China. E, por falar da China, a bandeira vermelha do país está hasteada lá no lado oculto da lua. Em pouco mais de 50 anos, mais do dobro da população do Brasil foi tirada da linha da pobreza, no eficiente sistema político vigente na China.

– Marineth, agora, após eliminar catarata num dos olhos, enxergo com nitidez o brilho das cores. Isso me remete ao fato de um editor de jornal de sindicato filiado à CUT – Central Única dos Trabalhadores – exigir de uma gráfica impressão em vermelho puro sangue da publicação. Na ocasião percebia a diferença nas tonalidades das cores. Ou seja, a cor do azul celeste do azul rei; do verde abacate em relação ao verde piscina, etecetera e tal.

– Athaliba, ocê avalia, independentemente de ser salgueirense, que a agremiação pode ser campeã do carnaval, com aquele enredo?

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– Marineth, antes de tudo é preciso que saiba que sempre mantive plena isenção em tantos anos cobrindo desfiles de escolas de samba, desde os tempos do jornal Última Hora. Ao final de alguns desfiles já previa a escola que ganharia o título de campeã. Acertava na mosca. O enredo Delírios de um paraíso vermelho é a cara escancarada do Salgueiro. Idealize, por exemplo, que no princípio da vida, na visão cristã, a maçã, fruta vermelha, virou símbolo do pecado. A sedução explodiu o Éden. Dai tudo vale, resguardadas as devidas precauções para não cair no abismo.

– Então, Athaliba, ocê acha que o carro abre-alas do Salgueiro vai mostrar a transformação nua e crua do processo que eclodiu na evolução da sociedade?

– Marineth, o roteiro é responsabilidade do carnavalesco Edson Pereira, que tem auxílio do Lucas Abelha, Ruan Rocha e Victor Brito. Ele, explicando o enigmático tema, diz que “o paraíso, ao contrário do que relatam livros, expande em tons de vermelho, em ricas cores vivas, fortes e sedutoras, que tingem a terra e o céu”. Bem, o samba, embora, melodicamente, fora dos padrões convencionais, é de fácil assimilação. A direção da escola não duvida que o samba vá estimular um desfile de deixar saudade. Aliás, isso é marca registrada da agremiação, que consagrou outros sambas em diversos carnavais.

– Athaliba, há mais de uma década a escola originária do Morro do Salgueiro não conquista um título. É ainda uma das principais agremiações na preferência do público?

– Marineth, a escola soma nove títulos de campeã do Carnaval carioca, no Grupo Especial. É uma das maiores vencedoras do Estandarte de Ouro, premiada por oito vezes como a melhor escola. Conquistou por seis vezes o principal prêmio Tamborim de Ouro. É a maior vencedora. A escola nunca foi rebaixada do grupo e a pior colocação foi 11º lugar, em 2006. Muito embora não venha conquistando título de campeã nos últimos anos, a Acadêmicos do Salgueiro fascina a sua legião de admiradores a cada desfile. Isso está no lema da agremiação: “Nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente”.

– Athaliba, desejo que novas gerações possam celebrar a vitória da escola em 2023.

– Marineth, que assim seja. Minha neta Caroline é salgueirense. As duas outras, Giovanna e Luna, ainda não manifestaram preferência. Na celebração do título, em memória do saudoso carnavalesco Fernando Pamplona, irei cantarolar: “Explode coração/Na maior felicidade/É lindo o meu Salgueiro/Contagiando, sacudindo essa cidade”.

Tags: ColunaLenin Novaes
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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