A decisão do governo federal de proibir as bets no Brasil provocou forte reação do futebol e das empresas do setor, que começaram a calcular o tamanho do impacto financeiro provocado pelo encerramento das casas de apostas.
A principal preocupação está nos clubes. As bets se transformaram nos últimos anos em uma das maiores fontes de patrocínio do futebol brasileiro e ocupam atualmente os espaços mais valiosos das camisas de boa parte das equipes da Série A.
Dos 20 clubes que disputam a primeira divisão do Campeonato Brasileiro, 14 possuem casas de apostas como patrocinadoras máster. Somente esses contratos representam pelo menos R$ 910 milhões em 2026.
Com a medida provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, as marcas terão de desaparecer das camisas, estádios, campanhas publicitárias e demais espaços de divulgação.
O prazo estabelecido pelo governo termina em 5 de outubro.
Clubes falam em contratos e prejuízos
A reação dos clubes começou ainda nas primeiras horas depois do anúncio.
Dirigentes passaram a discutir os efeitos da decisão sobre contratos que foram assinados quando a atividade era autorizada e regulamentada pelo próprio governo federal.
Uma das principais críticas é justamente ao prazo para encerramento dos acordos.
Os clubes argumentam que montaram seus orçamentos para a temporada considerando receitas de patrocínio já contratadas e que a retirada das bets no decorrer do campeonato cria um problema financeiro imediato.
O impacto não se limita ao patrocínio principal das camisas.
Casas de apostas também investem em placas nos estádios, propriedades comerciais durante transmissões, conteúdos digitais, competições e outras ações de marketing.
Em 2025, as bets destinaram cerca de R$ 1,14 bilhão aos clubes da Série A, o equivalente a 7,9% de toda a receita das equipes da primeira divisão naquele ano.
A preocupação agora é encontrar novos patrocinadores capazes de substituir esses valores.
CBF e competições também serão atingidas
A mudança alcança ainda as próprias competições.
O Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil possuem atualmente acordos comerciais relacionados ao setor de apostas. Com a proibição da publicidade, essas marcas também terão de ser retiradas.
A discussão dentro do futebol envolve ainda o destino dos contratos já assinados.
A medida provisória determina o fim da exposição das marcas, mas as consequências financeiras do rompimento dos acordos privados deverão ser discutidas entre clubes e empresas.
O setor esportivo também avalia possíveis medidas jurídicas relacionadas aos contratos e aos investimentos realizados com base na regulamentação que estava em vigor.
Empresas criticam mudança de regra
As casas de apostas também reagiram.
Representantes do setor argumentam que as empresas passaram por um processo de regulamentação, pagaram R$ 30 milhões por autorização e fizeram investimentos para atender às exigências estabelecidas pelo Ministério da Fazenda.
Foram concedidas 85 autorizações, movimentando cerca de R$ 2,55 bilhões somente em outorgas.
A nova medida estabelece que o encerramento das autorizações ocorre por interesse público e não garante às empresas devolução dos valores pagos nem indenização pelos investimentos realizados.
Entidades do setor também afirmam que a proibição pode produzir um efeito contrário ao pretendido pelo governo: a migração dos apostadores para sites clandestinos sediados no exterior.
O argumento é que as empresas autorizadas estavam sujeitas a identificação dos jogadores, pagamento de impostos, regras de publicidade e mecanismos de prevenção ao jogo problemático, enquanto plataformas ilegais não seguem essas exigências.
Governo cita impacto social das apostas
O governo sustenta uma avaliação diferente.
Ao anunciar a medida, ministros destacaram o crescimento dos problemas associados às apostas, como endividamento, dependência, conflitos familiares e impactos sobre a saúde mental.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a regulamentação permitiu ao governo conhecer melhor o tamanho e o funcionamento do mercado, mas que os dados obtidos levaram a uma mudança de posição.
O governo também argumenta que as regras impostas às empresas não foram suficientes para conter os efeitos sociais das apostas e que houve descumprimentos identificados durante a fiscalização.
A decisão representa uma mudança significativa em relação à política adotada até agora.
As apostas esportivas de quota fixa foram autorizadas em 2018, durante o governo Michel Temer. O setor permaneceu sem regulamentação completa durante o governo Jair Bolsonaro e passou por um processo de regulamentação a partir de 2023, já no governo Lula.
Desde janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas pelo Ministério da Fazenda poderiam operar nacionalmente.
Agora, menos de dois anos depois da implantação completa desse modelo, o governo decidiu encerrar a atividade.
Setor teme crescimento das bets ilegais
O mercado clandestino tornou-se um dos principais argumentos dos críticos da medida.
Entidades que representam as casas de apostas sustentam que a demanda continuará existindo mesmo depois da proibição e que operadores estrangeiros poderão tentar ocupar o espaço deixado pelas empresas legalizadas.
O governo reconhece que o combate às plataformas ilegais será um dos principais desafios.
A medida provisória prevê bloqueio de sites e aplicativos, proibição de transações financeiras e responsabilização de empresas que facilitem a operação das plataformas clandestinas.
Bancos e instituições de pagamento terão de impedir movimentações destinadas às bets, enquanto Anatel, provedores de internet, redes sociais e lojas de aplicativos participarão do bloqueio e da retirada das plataformas.
O embate agora também chegará ao Congresso.
Por ter sido adotada por meio de medida provisória, a proibição já está em vigor, mas precisa ser analisada por deputados e senadores para continuar valendo definitivamente.
É nesse processo que clubes, empresas de apostas e entidades ligadas ao esporte deverão concentrar a pressão para tentar modificar ou derrubar pontos da nova regra.


