A liderança nas pesquisas não foi suficiente para transformar Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) em candidato ao Governo de Minas. Depois de meses alternando sinais de que poderia entrar na disputa com novos recuos, o Republicanos chegou à convenção estadual sem que Cleitinho assumisse formalmente o compromisso de concorrer ao Palácio Tiradentes.
A indefinição manteve aliados, dirigentes partidários e possíveis companheiros de chapa à espera de uma resposta. Sem a manifestação definitiva do senador, o Republicanos realizou sua convenção no último sábado (25), mas não homologou o nome de Cleitinho para o governo estadual.
Agora, ao declarar apoio ao ex-secretário de Governo Marcelo Aro (PP), o partido encerra esse capítulo e muda o equilíbrio da eleição mineira. Sem o nome que aparecia isolado na liderança, a disputa volta a ficar aberta e tende a se acirrar entre Aro, o deputado federal e ex-ministro Patrus Ananias (PT), o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT) e o governador Mateus Simões (PSD).
Liderança nas pesquisas não bastava
Cleitinho aparecia como o candidato mais competitivo nos levantamentos eleitorais. Na pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta terça-feira (28), o senador alcançou 35% das intenções de voto, enquanto Alexandre Kalil apareceu com 12%, Patrus Ananias com 10% e Mateus Simões com 6%.
Considerada a margem de erro de três pontos percentuais, Kalil, Patrus e Simões estavam tecnicamente empatados na disputa pela segunda colocação. O levantamento ouviu 1.482 eleitores entre 22 e 26 de julho e foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número MG-03490/2026.
Os números, porém, representavam apenas a intenção de voto do eleitorado. Para disputar efetivamente a eleição, Cleitinho precisava aceitar a candidatura, obter a aprovação do Republicanos em convenção partidária e posteriormente ter o registro apresentado à Justiça Eleitoral.
Foi justamente essa primeira decisão — assumir de forma clara que seria candidato — que o partido afirma não ter ocorrido.
Partido e aliados ficaram à espera
Durante meses, Cleitinho manteve aberta a possibilidade de concorrer ao governo, mas evitou apresentar uma decisão definitiva. A movimentação deixou o Republicanos sem condições de fechar sua estratégia eleitoral e também interferiu nas articulações de outras legendas.
O próprio senador chegou a afirmar no Senado, em junho, que não havia desistido da disputa e reclamou das notícias sobre uma eventual retirada de sua candidatura. Mesmo assim, não formalizou a decisão junto ao partido no momento considerado decisivo para a montagem da chapa.
A expectativa era de que a situação fosse resolvida durante a convenção estadual do Republicanos, realizada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Cleitinho, no entanto, não compareceu ao encontro, justificadamente por estar de luto pela morte do irmão, e seu nome não foi homologado para a disputa pelo Executivo.
Embora a ausência tivesse uma razão pessoal, o Republicanos considerou que ela produziu uma consequência política concreta: sem a confirmação do senador, a legenda não poderia continuar adiando decisões que afetavam candidatos proporcionais, alianças e a construção de um palanque estadual.
Reportagens publicadas antes do rompimento já registravam que Cleitinho havia adiado sucessivamente o anúncio sobre a candidatura e pretendia apresentar uma resposta somente no fim do período das convenções.
Espera atingiu também o PL
A incerteza ultrapassou os limites do Republicanos.
O PL considerava Cleitinho sua principal opção para sustentar em Minas o palanque presidencial do senador Flávio Bolsonaro. Por isso, a legenda realizou sua convenção estadual sem lançar candidato ao governo e decidiu aguardar mais uma vez uma manifestação do senador mineiro.
Na ocasião, o deputado federal Domingos Sávio afirmou que o compromisso de apoiar Cleitinho permaneceria enquanto o senador não anunciasse uma decisão.
“Até que ele anuncie [se vai concorrer], o nosso compromisso que foi feito, de estar ao lado dele, está mantido”, declarou.
A demora, contudo, desgastou a relação com dirigentes partidários. O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou que Cleitinho havia perdido o momento político para consolidar a candidatura.
“Cleitinho muda de ideia toda hora. Perdeu o timing até com o partido, com o Marcos Pereira. Ele é um bom senador. Mas para o Executivo vai ter dificuldade. O mineiro é educado, calmo. Cleitinho daquele jeito mais intenso não vai conseguir vencer no segundo turno”, afirmou Valdemar.
Republicanos encerra espera e escolhe Marcelo Aro
Diante da falta de uma definição, o Republicanos decidiu abandonar o projeto de candidatura de Cleitinho e declarar apoio a Marcelo Aro.
A aproximação com o ex-secretário já vinha sendo discutida antes da convenção. O presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, havia confirmado conversas com a federação formada por União Brasil e Progressistas, deixando claro que Aro seria uma alternativa caso Cleitinho não entrasse na disputa.
A mudança representa uma reviravolta no planejamento eleitoral. Marcelo Aro era inicialmente apontado como candidato ao Senado em uma aliança com o grupo político do ex-governador Romeu Zema. Com a reorganização das chapas e o apoio do Republicanos, passa a ocupar espaço próprio na corrida pelo Palácio Tiradentes.
Ex-deputado federal e ex-secretário de Governo de Zema, Aro tentará se apresentar ao eleitorado como um nome de centro-direita com experiência na articulação política estadual e trânsito entre partidos conservadores.
Sem Cleitinho, eleição volta a ficar aberta
A saída do líder das pesquisas muda completamente a leitura do cenário eleitoral.
Nos cenários em que Cleitinho era apresentado aos entrevistados, sua vantagem concentrava parte expressiva do eleitorado e deixava os demais concorrentes disputando a segunda colocação. Sem ele, a pesquisa Quaest mostrou uma corrida mais fragmentada, marcada por empate técnico e por um número elevado de eleitores indecisos ou inclinados a votar em branco ou nulo.
O apoio do Republicanos oferece a Marcelo Aro uma estrutura partidária mais ampla, mas não transfere automaticamente para ele os votos atribuídos a Cleitinho. O senador construiu uma base eleitoral própria, associada ao estilo direto, à forte atuação nas redes sociais e a uma imagem de independência em relação às estruturas políticas tradicionais.
Nesse novo quadro, Patrus Ananias buscará consolidar o eleitorado ligado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao PT. Alexandre Kalil tentará recuperar a força eleitoral construída em Belo Horizonte e se apresentar como alternativa fora da polarização nacional. Mateus Simões, por sua vez, defenderá a continuidade da administração estadual iniciada por Romeu Zema.
Marcelo Aro entra nessa disputa com o desafio de aumentar seu conhecimento entre os eleitores e reunir parte dos partidos de centro e de direita que aguardavam a decisão de Cleitinho.
Vídeo reacendeu expectativa, mas não substituiu decisão formal
Na terça-feira, Cleitinho publicou nas redes sociais um vídeo produzido por inteligência artificial no qual aparece conversando com o pai e com o irmão Mateus Azevedo, que morreu na semana anterior, vítima de leucemia.
Na montagem, o irmão afirma:
“Vá e faça o que precisa ser feito. Nosso pai e eu estamos sendo muito bem cuidados aqui em cima, estaremos orgulhosos de você. Seja forte e corajoso. Não olhe nem para a esquerda nem para a direta, siga em frente”.
A mensagem foi interpretada por aliados como um possível sinal de que Cleitinho finalmente anunciaria a candidatura. Para o Republicanos, porém, manifestações indiretas já não eram suficientes para sustentar uma operação eleitoral que dependia de prazos, alianças e decisões coletivas.
Mesmo liderando as pesquisas, o senador precisava transformar intenção em compromisso político. Sem essa confirmação, a convenção terminou sem seu nome e o partido seguiu outro caminho.
Nota oficial do Republicanos
“O Republicanos de Minas Gerais, por meio do seu presidente, deputado Euclydes Pettersen, afirma que sempre tratou com entusiasmo, respeito e seriedade a possibilidade de o senador Cleitinho Azevedo disputar o Governo pela legenda. Este entusiasmo, porém, não foi correspondido até o dia da Convenção Estadual, ocorrida dia 25 de julho.
Durante meses, o partido manteve diálogo aberto, ofereceu as condições políticas necessárias, atraiu partidos aliados e aguardou uma definição clara do senador. Em razão dessa expectativa, diversas decisões estratégicas foram postergadas, justamente para preservar a viabilidade de sua eventual candidatura.
Entretanto, uma candidatura exige, antes de tudo, a decisão firme de quem pretende disputá-la. Tal decisão nunca aconteceu. Esse compromisso jamais pode ser substituído por sinais contraditórios, sucessivos recuos ou indefinições que acabam comprometendo a construção de um projeto coletivo.
A ausência do senador na Convenção Estadual do Republicanos – apesar das justificativas pessoais – representou um fato político objetivo, que produziu consequências inevitáveis. Diante da falta de confirmação de sua candidatura, partidos aliados precisaram tomar decisões e reorganizar seus caminhos, como é natural em qualquer processo eleitoral.
O partido trabalhou duro para que essa candidatura pudesse acontecer. O que faltou foi a decisão inequívoca de quem deveria ser, em primeiro lugar, candidato de si mesmo.
O Republicanos respeita a trajetória e o mandato do senador Cleitinho Azevedo, mas também tem o dever de conduzir seu projeto político com responsabilidade, previsibilidade e respeito aos candidatos a deputados federais e estaduais, seus filiados, aliados e à população mineira.
Os fatos falam por si. O partido esteve pronto. A candidatura, porém, nunca foi formalmente assumida por quem deveria liderá-la.
Republicanos de Minas Gerais
Executiva EstadualRepublicanos
Executiva Nacional”
Um favorito nas pesquisas que não chegou a virar candidato
O desfecho expõe uma particularidade da eleição mineira: o nome que largava com ampla vantagem nas pesquisas acabou fora da chapa do próprio partido não por falta de votos, mas pela ausência de uma decisão formal.
Cleitinho conseguiu manter-se durante meses no centro do debate eleitoral sem assumir integralmente os custos de uma candidatura. A estratégia preservou sua visibilidade e ampliou o poder de negociação, mas também impediu que os partidos envolvidos tivessem segurança para organizar as chapas.
Quando o Republicanos decidiu que não poderia mais esperar, o senador deixou de ser a referência em torno da qual o campo conservador pretendia se organizar. A entrada de Marcelo Aro, agora apoiado pela legenda, não fecha a disputa. Ao contrário: dissolve a vantagem concentrada em Cleitinho e distribui novamente as possibilidades entre os principais concorrentes.
A eleição para o Governo de Minas, que parecia encaminhada para ter um favorito destacado, volta a começar praticamente do zero.


