Rio – No Rio de Janeiro, poucos estabelecimentos são tão icônicos e memoráveis quanto a Casa Cavé, a cafeteria mais antiga da cidade.
Há mais de um século e meio a Casa Cavé é parada obrigatória para quem visita o centro da cidade do Rio de Janeiro. Espaço de encontro para tomar chá, café, bater papo e vivenciar momentos da vida elegante do Rio antigo.
Ontem, fomos, eu e a Sheila, conhecer a casa.
Entrar na Cavé é voltar ao passado e reviver um pouco da Belle Époque Carioca, quando o Rio vivia uma intensa e efervescente vida cultural e artística. A cafeteria sempre foi frequentada pela intelligentsia carioca. Nos dias de grande movimento, pessoas comuns se misturavam com a vanguarda intelectual e artística da cidade nos salões da Cavé. Olavo Bilac, Chiquinha Gonzaga, Carlos Drummond de Andrade, Tarsila do Amaral e o prefeito Pereira Passos eram habitués da casa.
Uma curiosidade: plaquinhas fixadas nas laterais das mesas do salão principal trazem uma breve descrição de alguns desses frequentadores ilustres.
A experiência de visitar a Cavé começa pelos dois salões – salão personalidade e salão radiante – que preservam a arquitetura e a decoração original, com lustres e vitrais vindos da França. Destacam-se ainda o tradicional painel de azulejos com a Torre de Belém e os vidros e vitrais franceses coloridos no teto; as luminárias brasileiras; as cadeiras e mesas de madeira projetadas por Francisco Puigdomenech Colom (1868-1937), um imigrante espanhol radicado no Brasil e, além, claro, das formas geométricas nos pisos e paredes que remetem às formas de sorvetes, uma das especialidades da cafeteria.
A Casa Cavé está fazendo 166 anos este ano. O espaço que mantém seu charme enquanto se adapta aos tempos modernos, foi fundado por Auguste Charles Felix Cavé, um imigrante francês, no dia 5 de março de 1860. Até hoje, a confeitaria e doceria é a mais antiga do Rio e conserva aspectos do Rio Antigo. O fundador ficou à frente do negócio até 1922, dois anos antes de sua morte.
Embora a casa tenha sido fundada por um francês e lembre os cafés parisienses, o lugar é famoso por doces e sorvetes portugueses. No cardápio, destacam-se os Pastéis de Nata; o Toucinho do Céu (de amêndoas) e o Dom Rodrigo (fios de ovos e canela) os hits dali.
Esse bastião de cultura europeia numa cidade que se modernizava na passagem do século XIX para o século XX, converteu a confeitaria em espaço elegante, frequentado pela sociedade carioca. O antigo edifício rosado da confeitaria na Rua Sete de Setembro, esquina com a Rua Uruguaiana, no Centro da cidade, destaca-se ainda hoje pela sua arquitetura.
No ano do centenário de fundação da casa, a questão da conservação do seu património arquitetônico tornou-se um problema para os atuais proprietários, em particular quando, na década de 1980, a prefeitura instituiu o projeto do “corredor cultural”, visando à proteção e ao tombamento de dezenas de imóveis históricos no Centro da cidade. Com isso, não foi possível a ampliação da cozinha da casa, necessária para o atendimento da seleta clientela.
Por essa razão, a casa viu-se forçada a fechar temporariamente as suas portas no tradicional endereço, reabrindo em imóvel próximo (no número 137 da Rua Sete de Setembro – onde funcionava a Chapelaria ‘A Radiante’). Entre 2007 e 2014, o prédio histórico no número 133 foi ocupado temporariamente por outra tradicional confeitaria da cidade, a ‘Manon’ – a unidade principal que funciona na Rua do Ouvidor, 187, no Centro, desde 1942, serviu recentemente de cenário do filme “Ainda Estou Aqui” (2024).
Quinze anos depois, em 2015, a Casa Cavé voltou a ocupar seu tradicional endereço, no prédio tombado na esquina da Rua Sete de Setembro com Uruguaiana, onde funciona hoje.
Por fim, um aviso: os preços são salgados – mas vale a visita.






