Brasil e Estados Unidos voltam à mesa de negociação nesta segunda-feira (31) para discutir as tarifas impostas pelo governo de Donald Trump aos produtos brasileiros. O encontro marca a retomada formal do diálogo comercial depois do telefonema entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Trump, no último dia 21.
A reunião será realizada por videoconferência, às 14h30, entre o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e o representante comercial dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer. Representantes do Itamaraty também devem acompanhar as conversas.
A expectativa do governo brasileiro é abrir uma nova etapa das negociações e tentar ampliar a lista de produtos excluídos da tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos no fim de julho.
Brasília, entretanto, não trabalha com a perspectiva de um acordo imediato. A avaliação é de que a reunião desta segunda deverá servir principalmente para restabelecer o diálogo e identificar até onde Washington está disposto a negociar.
Além da tarifa de 25% direcionada especificamente a produtos brasileiros, o país também foi atingido por outra sobretaxa de 12,5%, aplicada pelos Estados Unidos a dezenas de economias sob a justificativa de falhas no combate ao trabalho forçado.
Para os produtos alcançados pelas duas medidas, a sobretaxa pode chegar a 37,5%.
Pix e etanol estão entre os pontos de divergência
A tarifa adicional de 25% foi adotada depois de uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos sobre práticas brasileiras consideradas desleais por Washington.
Entre os pontos levantados pelos norte-americanos estão o funcionamento do Pix, as condições de acesso ao mercado brasileiro de etanol e outras questões comerciais e regulatórias.
O governo brasileiro contesta as acusações.
Brasília argumenta que algumas das justificativas apresentadas pelos Estados Unidos não correspondem à realidade e sustenta que não há fundamento comercial para uma sobretaxa dessa dimensão.
Antes da imposição das tarifas, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, também havia criticado as condições apresentadas pelos negociadores norte-americanos, afirmando que Washington buscava maior abertura do mercado brasileiro sem oferecer contrapartidas equivalentes.
Telefonema entre Lula e Trump reabriu negociação
O encontro desta segunda-feira foi acertado depois de uma conversa de aproximadamente 1h20 entre Lula e Trump, em 21 de agosto.
Durante o telefonema, Lula voltou a classificar como infundadas as justificativas utilizadas para impor as novas tarifas e argumentou que as medidas prejudicam empresas e consumidores dos dois países.
Trump concordou com a retomada das negociações e propôs que as equipes voltassem a conversar o mais rapidamente possível.
A ligação reabriu um canal de diálogo que vinha enfrentando dificuldades desde a imposição das novas barreiras comerciais.
Agora, caberá a Márcio Elias Rosa e Jamieson Greer tentar transformar a reaproximação entre os presidentes em avanços concretos.
Brasil quer ampliar lista de exceções
Uma das prioridades brasileiras será retirar mais produtos da incidência da tarifa adicional de 25%.
Desde a adoção das medidas, setores exportadores vêm pressionando o governo por negociações capazes de reduzir os prejuízos, principalmente entre empresas que possuem forte dependência do mercado norte-americano.
As tarifas já levaram o governo federal a adotar medidas emergenciais para empresas afetadas e a flexibilizar regras de instrumentos de apoio às exportações.
O Brasil também mantém entre suas alternativas a Lei de Reciprocidade Econômica, que permite ao país responder a medidas comerciais unilaterais adotadas por outras nações.
A prioridade do governo, porém, continua sendo uma solução negociada.
O próprio Márcio Elias Rosa já reconheceu que espera uma conversa difícil com os norte-americanos.
Disputa vai além das tarifas
As divergências comerciais ocorrem em um momento de maior tensão nas relações entre Brasília e Washington.
O governo Trump tem ampliado a pressão econômica sobre diferentes parceiros comerciais e adotado uma política externa mais agressiva na América Latina, em meio à disputa por influência com a China.
O Brasil, por sua vez, aprofundou nos últimos anos suas relações comerciais com os chineses, que ocupam a posição de principal parceiro comercial do país.
Dentro do governo Lula, também existe a avaliação de que parte das medidas norte-americanas contra o Brasil ultrapassa o campo estritamente comercial e possui componentes políticos.
Washington nega essa interpretação e sustenta que suas medidas procuram corrigir práticas consideradas prejudiciais aos interesses econômicos norte-americanos.
A reunião desta segunda será, portanto, um primeiro teste para saber se a retomada do diálogo entre Lula e Trump poderá produzir resultados concretos.
Por enquanto, a expectativa em Brasília é mais cautelosa: reabrir a negociação, discutir as tarifas e tentar aumentar as exceções antes de buscar um acordo mais amplo entre os dois países.


